Vida real x reality show

“Aja naturalmente, você não está sendo filmado”. A cada dia torna-se mais comum abandonarmos nossa humanidade em prol de uma aceitação coletiva.

Por Luis Otávio Lima Peçanha

Os reality shows fazem parte do entretenimento de grande parte da população brasileira. De acordo com um estudo feito pelo blog MindMiners, com 1000 pessoas, cerca de 89% dos respondentes já assistiram, pelo menos uma vez, a um reality show. Hoje em dia, existem várias opções diferentes para os adeptos, como realities de culinária profissional e amadora, de maquiagem, de música e os queridinhos da sociedade, os de vida cotidiana.

No mesmo estudo citado acima, cerca de 35% dos participantes consideram o Big Brother Brasil como programa favorito do gênero. O conteúdo é licenciado pela Rede Globo de Televisão e já está na sua 22ª temporada. O BBB, de fato, movimenta um grande número de telespectadores, que anseiam por acompanhar de perto cada ponto do jogo.

As “tretas”, as provas, os romances, seu brother preferido(a), as eliminações, as festas e o ganhador da edição. Um prato cheio para quem ama tal tipo de entretenimento e conta os dias para a chegada da próxima edição. Porém, você já se questionou o motivo desse conteúdo prender tanto a atenção e mobilizar tantas pessoas?

Estigma brasileiro

“Brasileiro tem mania de cuidar da vida dos outros”. Você muito provavelmente já escutou alguém dizer isso, ou até mesmo ouviu alguém falar que não cuida da vida alheia, apenas faz uma “fofoquinha do bem”, que seria contar uma fofoca que não prejudica a ninguém, só pelo prazer de conversar sobre este assunto com outra pessoa.

Tais atitudes podem ser derivadas da sociedade em que estamos inseridos hoje, que reside primordialmente em redes sociais, em plataformas que as pessoas usam quase que como diários, compartilhando suas vidas, porém, nem sempre de maneira tão honesta.

É comum encontrarmos pessoas falando que as mídias sociais se transformaram em vitrines, em que as pessoas compartilham apenas aquilo que consideram interessante, que exiba o lado belo da vida, que possa chamar atenção de quem acompanha seu perfil e gere engajamento. É difícil encontrar publicações de usuários falando que estão desempregados, que estão em um dia ruim, que não se sentem felizes com a função que exercem ou que precisam de ajuda.

Muito disso se deve à necessidade de aprovação e medo dos julgamentos que acontecem frequentemente nestas redes sociais. A internet se tornou um ambiente hostil para qualquer pessoa que queira ser ativa em qualquer plataforma. Pessoas se mascaram atrás de perfis que têm o único objetivo de disseminar ódio gratuito, fazendo comentários ofensivos, julgando e ridicularizando qualquer tipo de publicação.

Isso fez com que muitas pessoas passassem a se moldar dentro destes ambientes, pisando em ovos com cada caractere digitado, pensando e repensando inúmeras vezes antes de apertar o botão “publicar”.

“Mas, o que vão pensar de mim?”
“E se eu virar alvo de piadas?”
“Isso pode acabar com a minha vida.”

Ansiedade, medo, angústia, insegurança. Efeitos de um ambiente extremamente perigoso para quem usa, chamado de redes sociais. Elas representam apenas a ponta do iceberg nesta discussão, mas vocês vão entender o porquê de tocar neste assunto.

Influência fora das telas

Como já foi dito anteriormente, plataformas como Instagram, Twitter, Facebook e TikTok são extremamente responsáveis por moldar o comportamento das pessoas, e isso, muitas vezes, se expande para fora das telas dos smartphones.

Já não basta mais se apresentar de uma maneira “aceitável” dentro destas plataformas, quase que cumprindo um papel, agora se faz necessário se comportar da mesma maneira no “mundo lá fora”. A necessidade de buscar aceitação, fugir de julgamentos e chamar atenção se tornou algo rotineiro para as pessoas nos dias atuais.

As pessoas passaram a se comportar quase como robôs, ou como alguém que vive sendo observado e julgado por milhares de pessoas a cada passo que dá, cada palavra que fala e cada ação que realiza. Assim como acontece nos reality shows.

Realidade nua e crua

Os realities são uma representação do que é a nossa vida, mesmo que dentro de um ambiente controlado e televisionado, quem compõe o show sejam pessoas comuns, famosas ou não, são seres humanos, com suas fraquezas, defeitos, qualidades e características específicas que definem e diferenciam cada um.

Este é um dos principais motivos do sucesso desse conteúdo no país e no mundo, pois sempre será possível se identificar com alguém do jogo, isso gera simpatia, vontade de acompanhar, torcer e votar pela permanência do mesmo. Você, ou quem estiver assistindo, se sente representado lá dentro, como se aquela pessoa fosse alguém que você conhece ou até você mesmo.

“Eu faria a mesma coisa”, “eu compartilho desse mesmo pensamento”, “eu agiria da mesma forma”. Essa identificação acontece quase que de forma instantânea e prende o telespectador.

Um dos grandes problemas desse tipo de conteúdo é que, além de evidenciar muito bem as qualidades e as características de cada um, as câmeras são capazes de exibir claramente as principais falhas de cada um, e isso, como já foi dito anteriormente, vai de encontro à necessidade das pessoas se mostrarem quase que perfeitas, buscando agradar a todos.

Porém, não é possível agradar a todos, não é saudável buscar isso. Tais programas exibem isso de maneira clara quando os jogadores têm crises de ansiedade, choram com saudade de casa, chegam a um burnout por estarem vivendo rodeados de câmeras assistidas por pessoas que decidem a permanência de cada um por um voto em um computador ou celular, para, futuramente, criticar e julgar cada passo do ex-participante em alguma rede social.

E, por se tratar de um programa exibido em rede nacional, visto por milhões de pessoas, estes momentos humanos, chocam, viralizam, assustam e podem até ser motivo de alguém mudar sua “torcida”. O momento em que cai a máscara de uma pessoa que, aparentemente, não tinha fraquezas, medos ou qualquer tipo de emoção “frágil”, faz com que o público a veja de outra forma.

O medo de ser humano

A perfeição é inalcançável, isso já é de conhecimento geral, porém, a todo instante, parece que somos motivados a viver em uma posição que não nos pertence, que não é real e que nos afasta da nossa humanidade. As pessoas passaram a se importar cada vez mais com o que o outro pensa, e cada vez menos com ser real consigo mesmo, e não tá tudo bem.

A partir de que ponto passou a ser considerado comum alguém não poder ser ela mesma, não ter liberdade para agir da maneira que considera correta (desde que não desrespeite ninguém, é claro) e viver apenas com o que lhe faz feliz? Por que ser aceito e bem visto pelos outros é considerado algo importante a ponto de moldar e mudar a nossa forma de pensar e ser?

Parece que, a cada dia, somos convidados a mergulhar cada vez mais nessa vida de reality show, rodeados de câmeras, com pessoas acompanhando cada passo que damos e tendo a necessidade de agradar a todos para garantir nossa sobrevivência no jogo. E você, tem vivido ou feito parte deste “jogo da vida”?



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