TV brasileira completa 70 anos

A chegada do streaming, a implantação da TV digital e a popularização da internet mudaram o jeito de fazer televisão. Como as emissoras se manterão relevantes?

Por Denys Lacerda e Thayane Domingos

Em 2020, a televisão brasileira completou 70 anos. Começou em 1950, com a TV Tupi, fundada pelo mega empresário das comunicações, Assis Chateaubriand (1892-1968), e logo ganhou os lares brasileiros. Hoje, 96,4% das casas do Brasil possuem um televisor, segundo dados do IBGE. Desde então, muitos avanços tecnológicos ocorreram no modo de produzir para a TV.

No início da década de 70, surgiu a televisão a cores. Na mesma década, começou a distribuição do sinal de TV via satélite para todo o Brasil, possibilitando o surgimento de várias redes nacionais. Na década de 90, houve a implantação da TV por assinatura. Na década de 2000, tivemos a internet invadindo as redações, além do início da implantação da TV digital. Na década atual, temos a ascensão dos serviços de vídeo on demand. As emissoras de TV aberta têm criado os próprios serviços de streaming.

A Globo possui o Globoplay, que bate de frente com os gigantes estadunidenses Netflix e Amazon. A Record lidera o serviço PlayPlus, que além de programas da emissora, possui conteúdos de canais pagos como ESPN e Disney Channel. O SBT possui a SBT Vídeos, plataforma gratuita que tem no seu acervo a programação atual da emissora e alguns programas antigos, como o Topa Tudo por Dinheiro e Fantasia. A Band anunciou, recentemente, a recuperação de mais de 160 mil horas de conteúdo que serão selecionados para a sua futura plataforma de streaming, o Band Play.

A entrada no mercado de streaming é só uma das diversas ações que as emissoras têm feito para se adaptarem aos novos tempos. O consumo de televisão pelos brasileiros não é mais o mesmo de alguns anos atrás.

A IMPLANTAÇÃO DA TV DIGITAL NO BRASIL

Uma das transformações tecnológicas recentes e que impactou no nosso modo de ver televisão foi a chegada do sinal digital. Essa tecnologia proporciona ferramentas como a multiprogramação, além de possuir uma qualidade de imagem superior à da televisão analógica (e com um alcance maior).

A primeira fase do processo de desligamento do sinal analógico foi concluída em 2019. Hoje, 1.378 cidades e cerca de 130 milhões de brasileiros possuem acesso exclusivamente ao sinal digital (61% da população). Mais de 4.200 cidades continuam recebendo o sinal analógico e o digital – à medida que for implantado. Esses são dados da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT).

A previsão é que o sinal analógico seja desligado por completo no Brasil em 2023.

NÃO FOI OU AINDA PODE SER?

A TV digital tem o potencial de mudar a interação do espectador com a televisão. Em 2007, começo da sua implantação no Brasil, havia expectativas com inúmeros recursos de interatividade possíveis, como o telespectador poder selecionar qual câmera de uma transmissão esportiva ele quer assistir ou até marcar consultas pela televisão – tudo isso diretamente do controle remoto.

Porém, 13 anos depois, os recursos de interatividade pelo sinal digital da TV são escassos, sendo limitados à conferência de grades de programação, descrição de programas e os serviços de acessibilidade, como o closed captions e a audiodescrição.

Durante esse período, também surgiram os serviços de streaming e a popularização da internet. As emissoras de TV passaram a privilegiar a internet como segunda tela e poucos são os avanços na TV híbrida, que é a união dos conteúdos televisivos com os recursos de interatividade do sinal digital.

Para o professor do Centro Universitário UNA e pesquisador da implantação da TV digital no Brasil, Cláudio Márcio Magalhães, as emissoras ainda investem em pesquisas sobre a TV híbrida, apesar do foco atual ser nos serviços de streaming.

“Porque elas estão investindo mais [em streaming] agora? Está vindo aí a Disney, a Netflix está se reforçando, as outras grandes produtoras audiovisuais estão investindo nesse tipo de vídeo on demand. Então, não está dando muito tempo para as emissoras locais que deixaram de investir nessas emissoras flix”.

COMO FICA O JORNALISMO TELEVISIVO?

Para Ruth Soares, editora-chefe e apresentadora do Jornal Minas 1ª Edição, da Rede Minas, o jornalismo televisivo sempre vai ter o seu espaço. Mesmo após receber uma informação pelas redes sociais, o telespectador liga a televisão para ter essa mesma notícia mais aprofundada.

Ruth Soares. Foto: Acervo Pessoal do Instagram: @ruthpsoares

“O factual pelo factual não faz muita diferença no jornalismo. O factual repercutido que faz diferença. Muitas vezes [o telespectador] não quer saber do acidente que teve ontem lá no Anel Rodoviário, que morreu uma pessoa atropelada. Ele quer saber o que tem de propostas, o que alguém vai falar, que crítica alguém vai fazer sobre aquela situação que se arrasta há anos. Quando ele liga a televisão, ele quer ver um desdobramento daquela primeira notícia que ele teve. Aquela primeira notícia, ele já recebeu num vídeo no WhatsApp dele, do vizinho, ele já recebeu um monte de coisa. Aquela primeira notícia não faz muito sentido para ele mais”, diz Ruth.

A apresentadora acredita que os programas ao vivo podem servir para fortalecer a presença da televisão. “Eu não consigo enxergar o streaming como uma coisa que vai tirar o espaço da TV ao vivo. Até porque a TV ao vivo sempre vai ter espaço. E a TV ao vivo, quanto mais ao vivo ela for nesse momento, mais interessante ela é”, completa a jornalista.

Para ela, a ascensão do streaming não deve ser vista como algo negativo para a televisão, já que os vídeos on demand são uma nova oportunidade de mercado.

“Eu não vejo isso como negativo não, de jeito nenhum. Muito pelo contrário. É mais mercado e as pessoas estão cada vez mais consumindo, diferente do que a gente pensa, informação. Informação no celular. Então, o streaming vem, também, para isso”.

Na visão dela, muitas emissoras têm a sua versão para o streaming porque quem não fizer isso vai ficar para trás. “Quem não fizer, talvez não sobreviva”, finaliza.

TRANSMISSÕES ESPORTIVAS E O STREAMING

Em 2019, chegou ao Brasil o DAZN, que é um serviço de streaming foca- do em esportes. A sua estreia aqui foi marcada pela transmissão de campeonatos importantes, como a Copa Sul-Americana, o Campeonato Italiano de Futebol e a Série C do Campeonato Brasileiro.

Os grandes canais esportivos do Brasil têm suas versões em streaming, como o SporTV Play, Premiere Play e WatchESPN.

Para    Rogério    Corrêa, narrador esportivo que atua na televisão há 25 anos, a chegada dos serviços de streaming modificou as transmissões esportivas.

“Os programas de futebol já estão se adequando a esse novo formato, porque quando o telespectador paga pelo produto, a responsabilidade só aumenta. A gente acaba tentando atender da maneira mais eficiente possível esse público”, diz Rogério.

Rogério Corrêa. Foto: Acervo Pessoal do Instagram: @rogeriocorrea_tv

Clubes de futebol também têm voltado atenções para os serviços de streaming. A maioria dos times trabalham com produção de conteúdo, em especial para sócios, mas outros têm feito transmissões de algumas partidas.

A final da Taça Rio, disputada por Flamengo e Fluminense em julho desse ano, bateu recorde de live com maior audiência na história do Youtube Brasil. O pico da transmissão, realizada no canal oficial do Fluminense, o FluTV, foi de 3,4 milhões de espectadores simultâneos.

Para Rogério Corrêa, os clubes de futebol têm no streaming uma ferramenta para o seu próprio crescimento. “Eles têm um conteúdo. Eles têm, por exemplo, a sua história, que rende programas, que pode render especiais, pode render documentários. Existem várias maneiras dos próprios clubes transformarem isso em faturamento, em rendimento. O seu dia a dia, seja mostrando como é um vestiário, mostrando o que acontece internamente no clube, ou promovendo um atleta específico, ou mostrando tudo o que ele já fez no passado”, reflete o jornalista.

A TV ABERTA ESTÁ MAIS PERTO DO ESPECTADOR?

O jornalismo televisivo tem se tornado menos “engessado”, numa tentativa de se adaptar às demandas sociais. Essa é a visão da Tábata Poline, jornalista e uma das apresentadoras do Rolê das Gerais, da TV Globo Minas.

Tábata Poline. Foto: Acervo Pessoal do Instagram: @tabatapoline

“Está vindo um movimento muito forte, de baixo para cima, da favela para o asfalto, que está fazendo essas grandes empresas repensarem o posicionamento, repensarem as contratações, os produtos”, reflete Tábata.

Para ela, uma tendência positiva na televisão atual são alguns jornais locais investirem mais em coberturas de acontecimentos  do  momento,  como as hard  news,  e  usarem  menos  de pautas frias.

“Só de ter mudado isso você observa que os repórteres já têm uma mobilidade maior até em como conduzir as reportagens. Elas são feitas hoje de uma forma que comunica melhor com as pessoas, que conversa diretamente com as pessoas, que dê possibilidade das pessoas falarem”, comenta a jornalista.

O Rolê das Gerais, programa que a Tábata co-apresenta, conta histórias do cotidiano das periferias e aglomerados da região metropolitana de Belo Horizonte. A proposta do programa, segundo ela, surgiu para quebrar algumas barreiras nos grandes veículos de massa que, historicamente, não priorizavam as pessoas pobres e periféricas, mesmo sendo a maioria da população.

“Eu acho que o Rolê vem como um divisor de águas na comunicação do estado e na comunicação periférica nacional, porque ele é feito para que as pessoas se enxerguem na TV, para que quem não é desse universo enxergue que ali existe vida, que ali existe uma cultura pulsante, que ali existem muitas semelhanças com o restante da sociedade, mas que, por questões históricas e estruturais, a gente foi ficando à margem”, comenta a apresentadora.

Ainda segundo Tábata, programas como o Rolê das Gerais, que aproximam a televisão da periferia, além de darem audiência e relevância, também são pensados pelas emissoras devido ao retorno financeiro.

“Uma coisa certa: ter isso [aproximação com o público de baixa renda] na TV aberta não é um jeito de se manter necessário, é um jeito de manter capital, porque nós somos a maior parte da população, nós temos poder aquisitivo de movimentar a economia, de grão em grão, e as emissoras estão atentas a isso. Então, ter hoje uma preta periférica apresentando um programa é rentável para além da discussão de representatividade racial, que é fundamental”, completa Tábata.

Para ela, os veículos de massa são inteligentes e relevantes o suficiente para se reinventarem. E programas como o Rolê das Gerais, que buscam reinventar a forma de fazer jornalismo, são uma estratégia para a TV manter sua relevância, mesmo que ela tenha sempre o seu espaço devido à desigualdade social do Brasil.

“Num país de maioria pobre, a TV nunca vai deixar de ser relevante. Porque parece bizarro, mas muita gente não tem internet. A gente está aí com essas aulas remotas do ensino público e a CUFA (Central Única das Favelas) fazendo distribuição de chip com internet para as crianças poderem estudar, porque em algumas favelas nem Rede Minas pega. Então eu acho que a TV não vai deixar de ser relevante”.

 



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