Slam, poesia, educação e resistência

A rua também educa: coletivos urbanos e movimentos sociais são espaços de fala, educação, democracia, escuta e aprendizagem.

Por Iris Aguiar, aluna do 2º período de Jornalismo do UniBH

“Primeiramente gostaria de pedir licença,

Vim demonstrar minha presença,

Prazer, Iris Aguiar

Poeta, jornalista, resistência

E essa arte de recitar

É isso que eu vim te mostrar”

Educar vai muito além do que é ensinado dentro das escolas. A educação escolar é, sim, essencial, mas não a única forma. Segundo Paulo Freire, no livro Pedagogia da Autonomia, o conhecimento é proveniente de uma curiosidade humana de entender o mundo e as coisas à sua volta, e a educação tem um papel fundamental para o pensamento político, e é a partir disso que ela deve se pautar. Não existe ensino sem educação, assim como não existe cidadão sem conhecimento político.

Os movimentos sociais, políticos e coletivos urbanos, realizados fora das instituições tradicionais, são também uma forma de ensinar e agregar aos cidadãos conhecimentos necessários, que envolvem cultura, sociedade, política e economia.

“Nos últimos anos, temos vivenciado muitas experiências políticas a partir da ocupação das ruas. Temos aprendido como a rua pode ser o lugar de protesto, de encontro e de discussão, ainda que tenhamos muito que aprender enquanto sociedade para discutir com o outro. A filósofa Hannah Arendt já dizia sobre a importância da discussão nos espaços públicos e do perigo social da perda desses espaços”, diz a professora Cleidiane Oliveira, também mestre em educação.

A educadora explica que é importante separarmos movimentos sociais de coletivos urbanos. Enquanto os movimentos sociais são maiores e possuem uma proposta de intervenção política mais definida, os coletivos são mais plurais e, ainda que também estejam permeados pelas questões políticas, não possuem um projeto de ação política bem definida.

Os coletivos urbanos são importantes ferramentas de formação do sujeito, principalmente por não reduzirem a sua proposta de formação a um projeto escolarizado. A formação nesses espaços acontece em um processo de autodeterminação dos sujeitos que não depende da “tutoria” de um professor, mas se dá numa proposta mais horizontalizada e dialógica de aprendizado.

Um dos coletivos urbanos é o slam. Tal movimento se caracteriza pela competição de poesia falada. O termo do inglês, ‘slam’, significa bater, mas também pode significar ritmo e batida. O movimento, também conhecido como poesia falada, tem teor autoafirmativo, identitário e de ocupação de espaços públicos. No slam, os poetas recitam suas poesias, modulando suas entonações e dando ritmo à apresentação.

O esporte da poesia falada. Foto do primeiro Festival Literário Nacional (Flin) do Governo do Estado da Bahia. Imagem: SESC/Divulgação.
O que é o slam?

O slam surgiu nos anos 1980, nos Estados Unidos. Muitos o chamam de “esporte da poesia falada”. Ele faz parte do gênero palavra falada, que contempla também a literatura que é pensada para ser declamada ou falada em público. São exemplos os trovadores e os griôs, da cultura africana, que possuem, entretanto, objetivos diferentes do slam.

O trabalhador da construção civil, e também poeta, Mark Smith, teve a ideia de fazer uma “batalha de poesias”. Mark pensou em utilizar a lógica da competição de poesias faladas como forma de chamar atenção para o texto e para a performance dos poetas. Junto com seu grupo, Chicago Poetry Ensemblange, ele criou o Show-Cabaré-Político-Vaudevilliano.

No Brasil, o slam chegou por volta de 2008. Um dos primeiros grupos de competição de poesia surgiu por meio da artista Roberta Estrela D’Alva que, em São Paulo, criou a Zona Autônoma da Palavra (ZAP! Slam). Outro grupo que surgiu logo após, em 2012, foi o Slam da Guilhermina, que também acontece em São Paulo. Muitas outras comunidades de poesia falada foram criadas posteriormente, como Slam Capão, Slam da Norte, Slam Paz em Guerra, Slam Resistência, Slam Caruaru, dentre muitos outros ao redor do Brasil.

As poesias faladas, geralmente, têm caráter de resistência. Os poetas, também conhecidos como ‘slammers’, recitam seus textos em competições ou em apresentações. O movimento é um forte aliado das causas sociais, porque viabiliza que diversas temáticas ganhem visibilidade, como as pautas feministas, negra, LGBTQIA +,

indígena, de pessoas com deficiência, anticapitalista, ambientalista. A cada dia a poesia falada tem alcançado um público maior e qualquer pessoa pode ser um slammer, basta saber escrever uma poesia e recitar.

Os temas são livres, não existem limitações. As poesias falam de tudo e variam de assunto, podendo retratar dor, amor, natureza, família; mas é comum escutar muitos textos de resistência, já que a maioria dos poetas escrevem sobre suas realidades, como uma forma de denunciar e contar, através de versos, os problemas sociais, econômicos, culturais e até mesmo psicológicos que estão presentes em nossa sociedade, que diversas vezes não abre espaço para essas discussões. O surgimento de grupos de poesias voltados a causas sociais específicas são uma prova da importância social do movimento que protesta e também educa. Alguns grupos conhecidos são:

“Os slams são coletivos muito potentes, que enaltecem a mistura de textos e política. Política, aqui, não em uma dimensão partidária, mas numa concepção mais ampla que diz do ato de nos situarmos e nos reconhecermos enquanto sujeitos que atuam no/sobre o mundo a partir da relação com outras pessoas”, explica a mestre em educação, Cleidiane Oliveira.

A professora também afirma que as rodas de slams convocam a juventude para o centro de discussões muito relevantes como feminismo, machismo, racismo e lgbtqiafobia, construindo nesses sujeitos processos intensos de autonomia. “Dizer-se nas rodas de slams é, como diz um amigo meu, simples, mas revolucionário”, pondera.

As competições

Existem competições nacionais, em que poetas de todo o país podem se inscrever, e internacionais, que reúnem os campeões de cada país que possui batalhas de poesia. Atualmente, o slam está espalhado por todo o território nacional, e um levantamento realizado em 2019, pelo Slam BR, indica que existam cerca de 210 comunidades de slam no Brasil.

São nessas comunidades que acontecem as competições que levam os ganhadores às competições estaduais. As batalhas são estruturadas e acontecem durante o ano todo. No fim do ano, promovem uma final que vale uma vaga para participar dos Campeonatos Estaduais (SLAM SP, SLAM MG, SLAM RJ, SLAM BA, etc.).

As(os) vencedoras(es) de cada campeonato estadual serão as(os) representantes no Campeonato Nacional de Poesia Falada – SLAM BR, que ocorre, anualmente, em São Paulo.

A pessoa que ganha essa competição adquire uma vaga para representar o país na Copa Mundial de Poesia Falada, na França. A poeta que participou e ganhou o campeonato mundial de 2019 foi a mineira Pieta Poeta.

Apesar de existirem diversas competições, as regras básicas geralmente são as mesmas. Nas competições, os poetas que se apresentarão no dia têm três minutos para recitar sua poesia, o artista não pode utilizar instrumentos musicais, cenários ou figurinos em sua apresentação. A avaliação é do público, o organizador da competição escolhe pessoas aleatórias da plateia para avaliar os slammers, as notas variam de 0 a 10. É comum, nas competições, o organizador pedir que os jurados avaliem com notas fracionadas, já que os décimos fazem diferença em caso de empate. São descontados décimos da nota caso o artista passe do tempo permitido de apresentação. Antes da primeira rodada, e entre uma rodada e outra, são convidados poetas para recitar poemas.

Na competição, existem algumas ações características da interação do público com os slammers. Normalmente, quando o poeta traz em seu poema críticas à sociedade que causam um impacto positivo na plateia, usa-se dizer “uou” ou balançar sua mão com os dedos anelar e médio abaixados. Quando um jurado dá uma nota muito baixa e o público discorda da avaliação, é comum a audiência gritar “credo”, como forma de demonstrar o descontentamento.

Público atento ao slam na Bienal do Livro no Ceará, em 2019. Imagem: Bienal do Livro/Secretaria de Cultura do Ceará/Divulgação.
Slam dentro das escolas

A poesia falada, além de uma competição, é um espaço livre, educativo e democrático de fala e escuta. O slam permite o empoderamento individual, a superação de barreiras como a timidez e a falta de espaço para expor sua poesia.

Esse espaço é importante para a educação, já que gera um local de fala para aqueles que têm sua voz negada e silenciada em vários outros espaços. A competição serve como um cenário para a exposição de críticas, causas sociais e é um plano de fundo para debate de discussões de extrema relevância para a sociedade.

O slam nas escolas é uma demonstração de democracia, de respeito às diversidades e um exercício de escuta e aprendizado. O PlugMinas, por meio do Núcleo Valores de Minas, do Centro Interescolar de Cultura, Arte, Linguagens e Tecnologias (CICALT), realizou, em 2017, o 1º Slam Interescolar Nacional. O evento contou com a participação de estudantes de Belo Horizonte, Uberaba, Sarzedo, Ibirité, Juiz de Fora, Vitória (ES) e São Paulo (capital). Os alunos de Belo Horizonte eram de 12 escolas estaduais da capital mineira.

A partir de uma iniciativa interna, o Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) – Campus Betim também realiza competições periódicas, além de abrir espaço para apresentações de slams, de forma lúdica, em seus eventos.

O Slam Resistência, como foi chamada a competição, realizado na instituição pública, foi idealizado por uma professora de história do IFMG, com o apoio de alguns estudantes. As primeiras competições aconteceram em 2019 e tiveram uma grande participação dos estudantes, tanto para recitar poesias quanto para serem jurados ou plateia. Apesar da pandemia e da suspensão das aulas online, aconteceram competições online que contaram com um grande público e engajamento.

Leticia Rezende, ex-estudante da instituição, que foi jurada em duas das competições realizadas pela escola, conta que conheceu o slam em 2019. Apesar de não participar como poeta, sempre se encantou com a forma como os poetas se expressavam.

“Era um arrepio atrás do outro. De verdade. Os poetas têm um talento incomparável e falam sobre assuntos extremamente relevantes”, relata.

Letícia ressalta que gosta muito dos temas que retratam os problemas na política e em relação às questões de gênero. Para ela, a aproximação entre slam e política é uma maneira de protestar contra o que grande parte da população não concorda. Já sobre as questões de gênero, Letícia acredita que é uma forma de dar voz e retratar, nem que seja apenas em partes, o que mulheres e grupos LGBTQIA+ sofrem diariamente com intolerâncias por parte da população.

João Victor Cardoso, aluno do IFMG, participou das batalhas como poeta. O estudante conta que conheceu o slam no mesmo período que conheceu as batalhas de rima, entre 2017 e 2018.

“Pesquisei na internet e descobri o Slam da Guilhermina, SLAM Grito Filmes e o Slam das Minas, por exemplo. Inevitavelmente, acabei me apaixonando”, confessa João.

O aluno só esteve presente fisicamente em batalhas de rima, mas nunca havia ido a um slam, só assistido pela internet, até que começou a fazer parte de um movimento no IFMG Betim. João Victor relata que se sentiu muito feliz quando soube que sua escola realizaria uma competição de poesias.

“O slam me trouxe um fôlego novo, uma vontade perdida de ir para a escola e, consequentemente, me interessei e me aprofundei ainda mais nos estudos de História, Sociologia, Filosofia e Geografia – disciplinas que sofrem ataques constantes, visto que formam o senso crítico de uma pessoa”, afirma.

João Victor escreve poesias desde meados de 2018. Ele diz que o rap foi o responsável por fazer com que ele escrevesse poesia. Segundo ele, o rap é uma escola. O estudante conta que escutou esse gênero musical por anos, até que um dia decidiu fazer como os artistas e rabiscou alguns versos.

“Minha primeira apresentação foi na escola, no segundo semestre de 2019. Me senti empolgado em participar. Ao mesmo tempo, nervoso e trêmulo instantes antes de ir ao centro da roda recitar. No dia, todos os poetas estavam nervosos e inseguros”, relata.

João conta que pensava se os outros gostariam do que ouviriam de sua boca. Mas depois percebeu que se gostassem ou não, ele estava trazendo um ponto de vista sobre uma sociedade desigual, estruturada na exploração, no racismo, no machismo e isso sempre desagrada alguém. O aluno explica que sua poesia era um recorte do dia a dia em forma de versos, “um pedaço de realidade numa tinta poética”. O que ele mais queria é que as pessoas o entendessem, ainda que discordassem.

João compreende que o slam, é um importante movimento para todos que participam e assistem. “A poesia falada possui um caráter político, sempre tocando nos temas mais espinhosos, urgentes e pulsantes do hoje e do ontem. É um chamamento para pensar o agora e o futuro, pois no slam, seja o do Grito Filmes ou o do IFMG Betim, é denunciado o racismo, o machismo, a homofobia, entre outras coisas. O slam é um movimento social necessário, porque ele dá voz a movimentos sociais importantes”, opina.

“É um espaço de debate, mas com um diferencial: a poesia. Ele resgata a poesia que estava perdida nos escombros da realidade, nas pernas do tempo. É a pura arte, o fino da flor, pois mescla a pungência da realidade da esquina com o afiamento dos versos bem encadeados”, finaliza o estudante, poeticamente, claro.

“Refúgio em cama de pregos

ser vate é ser vidro: frágil

frugal, o teto sufoca então empurre-o

e desenhe mais chão

o abandono é munição para quem guerreia contra si

mas pasmem, o bom mesmo é viver de asma

beber confusão!

Trabalhar em excesso e ser obrigado

a simpatizar com o caixão

Tempo é oportunidade, de dinheiro? Não

mas de atar os laços, lavar os cacos

e pregá-los novamente a fronte

para que não entrem cavalos de Tróia”.

João Victor Cardoso

Assista ao vídeo SLAM – Poesia e Resistência:



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