O nome da maldição

Documentário “O Dilema das Redes”, da Netflix, expõe os mecanismos de captura de dados dos usuários nas redes sociais

Por Hiago Soares

“Nada grandioso entra na vida dos mortais sem uma maldição”. A frase que abre o documentário O Dilema das Redes (Netflix, 2020) é de autoria de Sófocles, um dos mais famosos dramaturgos da Grécia Antiga, autor de peças como Antígona e Édipo Rei. No interior de suas tragédias, deuses e homens se confrontam e estabelecem conflitos que, ao final, ilustram o triunfo das divindades do panteão grego sob a efeméride humana.

No início do documentário O Dilema das Redes, o diretor Jeff Orlowski opta por elencar uma série de impactos positivos que a internet e as redes sociais, segundo ele, promoveram no mundo, tais como a facilidade na comunicação a distância a partir de chats e chamadas de vídeo, até a pedir um carro por aplicativo em questão de segundos. Os efeitos negativos, contudo, são descritos por ex-funcionários de grandes empresas do Vale do Silício, como Google e Facebook, que assumem ter criado ferramentas e designs cujo único propósito é capturar ao máximo a nossa atenção, de forma a obter os dados mais complexos das nossas atividades na rede para, enfim, elaborar estratégias direcionadas de publicidade, visando um lucro cada vez maior.

Para facilitar a compreensão de temas e termos complexos, como o funcionamento de algoritmos e big data, o filme faz uso de cenas dramatizadas, colocando na tela atores que interpretam a história de uma família viciada em passar boa parte do tempo interagindo e criando conteúdo na internet. O uso da palavra ‘viciada’ aqui tem fundamento: o documentário, nesse sentido, acerta quando aponta que se trata exatamente disso, uma dependência que se assemelha ao comportamento de um usuário de drogas – não à toa, somos chamados de usuários pelas startups e empresas desenvolvedoras de aplicativos.

Essa reação obsessiva constitui, contudo, o propósito central no trabalho dessas grandes corporações. Para isso, montam equipes de diferentes áreas de atuação, como design, programação e especialistas em comportamento, visando fomentar a criação de sites, redes sociais e dispositivos que consigam nos manter conectados e sedentos por uma nova notificação na tela do celular, abrindo caminho para a exploração desenfreada dos nossos dados, nossa personalidade, desejos e visões de mundo para o contínuo enriquecimento de seus negócios.

Nesse sentido, o documentário não economiza em dar detalhes desse tipo de operação e expõe, com o aparente arrependimento de seus próprios inventores, os embates que essa gigantesca inteligência vem traçando para a humanidade: depressão, ansiedade, vaidade e ataques à democracia – como exemplificado nos casos de dados usados para traçar perfis psicológicos de eleitores nos Estados Unidos quando da eleição de Trump em 2016, além de propagação massiva de notícias falsas.

O documentário, contudo, toca superficialmente no que seria o problema, não somente quando aponta soluções burocráticas e tipicamente burguesas, como regulamentação ou boicotes, mas também porque prefere se colocar no meio do caminho, sem mencionar a lógica perversa e predatória das gigantes da tecnologia. Assim, O Dilema das Redes sequer usa a palavra ‘capitalismo’ para trazer ao debate o dilema, ou maldição, a que estamos submetidos e que é intrínseco à exploração das nossas subjetividades e força de trabalho dentro da internet.

Diferentemente das tragédias de Sófocles, não estamos lidando com a onipotência de deuses e, por isso mesmo, não caberia aqui o sentido da medida e do reconhecimento da nossa fraqueza perante as autoridades celestiais. Antes, faz-se urgente o alerta e a tomada de posição radical que, primeiro, reconhece os artifícios e poder dos bilionários que comandam as redes sociais e, segundo, que luta contra o assalto de nossas individualidades e a irrestrita dominação daqueles que engordam suas contas bancárias ao custo da miséria e estimulada insatisfação das sociedades humanas regidas pelo prazer do capital.

O Dilema das Redes está disponível no catálogo de 2020 da Netflix. Imagem: divulgação.


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