O crescimento de ataques xenofóbicos à imigrantes asiáticos

Desde a disseminação da Covid-19, crescem os índices de ataques xenofóbicos à imigrantes asiáticos. Especialistas dão suas opiniões a respeito das causas e perigos desse tipo de preconceito.

Por Davi Bicalho, Paulo Alfaro e Starley Sousa, alunos de Jornalismo do UniBH

Quando a Covid-19 surgiu, em uma cidade chinesa, nem todos pensavam que essa doença se espalharia no mundo inteiro. Estavam enganados, vivemos uma pandemia sem precedentes e sem sinais de ter um fim. Ao se disseminar pelo mundo, o vírus carregou e carrega consigo uma espécie de assinatura negativa, ser um “vírus chinês”.

Isso foi o suficiente para que víssemos a comunidade asiática espalhada pelo mundo, mais especificamente a chinesa, passar a sofrer ainda mais preconceito e xenofobia, como se fossem os responsáveis pela crise sanitária. Todavia, seja nos Estados Unidos, no Brasil, ou em outro país com um considerável número de imigrantes da Ásia, um contraponto surgiu, as campanhas contra essa agressão. “No soy un virus” e “Stop asian hate” rapidamente tomaram proporções gigantescas.

Estados Unidos

João Cumarú, membro da Rede Brasileira de Estudos da China, pesquisador do Instituto de Estudos da Ásia (IEASIA/UFPE), e articulador entre o Governo de Pernambuco e o consulado, media relações entre a comunidade asiática e o Estado.

Segundo Camurú, dados da Stop AAPI Hate revelaram que, entre março e dezembro de 2020, foram registradas 2.808 denúncias nos Estados Unidos de atos racistas contra asiáticos, das quais 8,7% envolveram agressão física e 71% assédio verbal. Em Los Angeles, os ataques racistas aumentaram em 115%.

Os números indicam uma correlação entre a pandemia e os atos. Mas já existem estudos que apontam também para uma relação de causalidade entre uma coisa e outra. “Os Estados Unidos carregam em sua história episódios de xenofobia. O que acontece hoje na pandemia de coronavírus já havia ocorrido, em menor grau, na epidemia do H1N1, na epidemia da gripe aviária, e isso na história recente – há menos de duas décadas -, quando tivemos casos semelhantes de racismo, que também haviam sido registrados”, relembra Camurú.

Outra pesquisa recente, conduzida pelo jornal USA Today, mostra que 17% dos asiáticos que vivem nos Estados Unidos, ou americanos descendentes de asiáticos, afirmaram ter sofrido algum tipo de importunação física, verbal ou sexual. No ano passado, essa margem era de 11%. Um outro estudo, do Centro de Estudos do Extremismo da Universidade da Califórnia, apontou que os crimes de ódio contra asiáticos nas 16 maiores cidades americanas aumentaram 150% de 2019 para 2020.

Legisladores da Califórnia alocaram US$ 1,4 milhão em fundos estaduais para expandir a coleta de dados, iniciativas e recursos para as vítimas de racismo, por lá, 15% da população é de origem asiática. Já Joe Biden, atual presidente estadunidense, assinou, em maio de 2021, uma lei contra crimes de ódio com o objetivo de proteger os americanos de origem asiática. Donald Trump, ao contrário, quando ainda era presidente dos EUA, culpava os chineses pela disseminação do vírus.

O discurso do ex-presidente Donald Trump e alguns de seus apoiadores deram “permissão” para ações violentas. Existiram casos muitos graves, em ataques que resultaram em mortes – não só de chineses, mas também de coreanos -, mesmo depois da saída do Trump. Há, de maneira muito clara, um incentivo nas palavras do ex-presidente americano, de maneira a gerar um acirramento nessa onda de xenofobia. Apesar do primeiro caso nos Estados Unidos ter sido rastreado vindo diretamente da Europa, essa propagação de fake news, e a insistência do Trump em classificar o vírus como “vírus chinês”, ou “vírus de Wuhan”, ajudaram a disseminar esse sentimento em práticas xenofóbicas.

Asiáticos ficaram ainda mais estigmatizados com as falácias sobre o “vírus chinês”. Imagem: Foto:Dia Dipasupil/Getty Imagens/AFP.
Raízes do problema

Em 1882, o então presidente dos EUA, Chester A. Arthur, assinou a Lei de Exclusão Chinesa, que proibia toda a imigração de trabalhadores chineses nos Estados Unidos, por enxergar neles uma ameaça no mercado de trabalho para os estadunidenses.

Os chineses começaram a imigrar para os Estados Unidos em meados do século XIX, durante a corrida pelo ouro na Califórnia, para trabalhar essencialmente na mineração. No primeiro momento, teve a corrida pelo ouro, depois, o período de atração da mão-de-obra chinesa para construção em infraestrutura e, no final do século XX, há uma estimativa por volta de 100 mil imigrantes chineses nos Estados Unidos. A pandemia de Covid-19 pode ter sido um estopim que reavivou alguns sentimentos que, em alguma medida, foram construídos ao longo da história: essa imagem do chinês como “povo atrasado, sujo e imoral”.

A partir do desenvolvimento socioeconômico e tecnológico da China é que a desmistificação se inicia. “Vejo cada vez empresários, gestores e estudantes interessados em aprender a língua, em conhecer sobre o país, em ter uma experiência

de vivência por lá. Isso pode ser um movimento de desconstrução dos estereótipos que nós temos sobre a China e os chineses”, avalia o pesquisador João Camurú.

Se, por um lado, o crescimento chinês pode inspirar admiradores por todo o mundo, por outro, os principais meios de circulação e as elites econômica e política podem ser instrumentos de estímulo para a intolerância, mas não de maneira sólida. Para Camurú, estratégias comunicacionais e institucionais não serão suficientes para afastar a boa recepção das pessoas em todo o mundo aos chineses a longo prazo.

Camurú ainda afirma que há uma estratégia de mobilização (de parte) da mídia, mas considera que não será um problema permanente. “Em momentos de disputa mais aguda, em alguns casos específicos, pode ser que a opinião pública seja mobilizada para reverberar atitudes dos governos”.

Wagner Silva Carvalho, professor de sociologia no Estado de Minas Gerais, avalia se esse preconceito, sofrido pelos asiáticos desde o século XIX, se encaixa em xenofobia ou racismo. “Se insere tanto em racismo quanto em xenofobia. A intolerância a eles se dá por um processo cultural, que se torna ainda mais evidente no mundo contemporâneo”.

Sobre os discursos de ódio, proferidos contra chineses desde o início da pandemia, especialmente por políticos estadunidenses, Carvalho é categórico. “A única explicação que define as pessoas que cometem esse tipo de atitude é a ignorância. Quando essa barreira da ignorância é vencida, o racismo acaba caindo. A educação é o caminho mais sensato para minimizar o racismo”.

Brasil

No Brasil, o debate sobre a cultura oriental é menos vivo, uma vez que a prioridade de combate ao racismo é direcionada a povos com relação na formação étnica do brasileiro. Isso se refletiu na Lei 10.639, de 2003, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileiras e africana em todas as escolas, sendo importante fator na luta antirracista.

Mas isso não significa que o Brasil se entende bem com as demais culturas do mundo. Assim como nos EUA, também foi um elemento político que deu início a uma negação de brasileiros, não somente com os chineses, mas com os orientais, e qualquer outra nacionalidade que não fosse a “verde e amarela”.

Durante a ditadura militar (1964-1985), foi implementada a Lei 6.815, de 19 de agosto de 1980, também chamada de “Estatuto do Estrangeiro”, que previa extradição caso o estrangeiro se atentasse contra “a segurança nacional, a ordem política ou social, a tranquilidade ou moralidade pública e a economia popular, ou cujo procedimento o torne nocivo à conveniência e aos interesses nacionais”.

À época, o estrangeiro era estigmatizado e visto como “ameaça” para o Brasil. A ação governamental afetou asiáticos no país e, só a partir de um importante acontecimento político do século XX, outros olhares começaram a surgir.

“Passamos a nos preocupar mais com isso a partir da crise imigratória na Síria, quando recebemos pessoas, de diversas nacionalidades, que foram afetadas na Guerra da Síria [2011]. Este é um caso em que aa origema geográfica e religiosa acabam sendo fatores que influenciam a xenofobia, muito por associar a religião islâmica com o terrorismo”, avaliou o professor João Lobo.

Dados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), de 2019, revelaram que das 43 mil pessoas com status de refugiado no Brasil, 11.231 eram sírias. À época, havia políticas escassas no recebimento de imigrantes, causando traumas em muitos sírios. Demoraria alguns anos para modernizarmos leis que atendessem às demandas daquele cenário e dessem suporte a um público oriental.

Em 2017, criou-se a Lei de Imigração (Lei nº 13.445/2017), que facilitou o recebimento dos refugiados e melhorou as condições dos documentos concedidos aos sírios. Na região sudeste, ocorreu a Política Municipal para a População Imigrante de São Paulo (PMPI), instituída pela Lei Municipal n° 16.478/2016, que consistia em diretrizes para a população imigrante da cidade.

“A crise migratória na Síria fortaleceu o desenvolvimento de algumas legislações no Brasil na recepção de imigrantes. Tivemos esse ponto positivo nos últimos anos, porém a aceitação do ponto de vista da sociedade brasileira ocorre de maneira mais gradativa, e não necessariamente com a necessidade de uma legislação”, explicou Lobo.

Wagner Silva, professor de sociologia, diz que o brasileiro já traz consigo um preconceito enraizado na sua cultura, a grande diferença é que o estigma social sofrido pelos asiáticos no Brasil e nos Estados Unidos não diz a respeito à violência racial e opressão policial que mata pessoas negras diariamente e nem ao genocídio em curso contra os povos indígenas. “Em ambos os países, o processo de enfrentamento a intolerância é a bandeira a ser levantada”.

“Em ambos os países, o processo de enfrentamento à intolerância é a bandeira a ser levantada”, afirma o sociólogo Wagner Silva, sobre preconceito no Brasil e nos EUA. Imagem: ShoptPot no Pexels


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