Nolite te bastardes carborundorum

“Se homens engravidassem, abortos poderiam ser feitos em caixas eletrônicos”, essa frase de autoria desconhecida pode não fazer sentido a todos os leitores, mas pessoalmente acredito que faça sentido para todas as leitoras.

Por Virgínia Pedrosa, 6º período de Jornalismo do UniBH


Diferente do que alguns possam achar, esse não é um texto que visa o vitimismo, mas sim a luta que enfrentamos desde o útero, até muito depois da cova.

Estudando a história desde quando se pode, a caça às mulheres é recorrente em qualquer época vista. Talvez, a mais chocante tornando-se até mesmo lenda, é a história da Grande Inquisição, onde mulheres (em sua grande maioria mais velhas) foram acusadas, julgadas e mortas, queimadas em fogueiras. Nesse contexto, como entre tantos outros, mulheres foram mortas por serem mulheres. Estudando mais a fundo o motivo de tal atrocidade, além da religião, há a questão social. Em uma época de fome, medo e ódio gratuito, qual o papel de mulheres já tão discriminadas? Se hoje envelhecer é difícil, imagine por um segundo, quando o único “papel” no qual você é importante, é a geração de filhos.

Analisando toda a linha temporal da humanidade até a atualidade, o poder sobre o ser feminino, juntamente com a proibição e a criminalização do aborto, acontece em sua grande maioria em países subdesenvolvidos, mas por quê isso acontece? Mão de obra barata, submissão do ser humano, ignorância acadêmica e controle dos mais poderosos àqueles mais vulneráveis.

No Brasil, o aborto é visto como crime desde 1940, entretanto, todos nós de certa forma conhecemos mulheres que passaram pelo procedimento. Na realidade, o aborto não é algo proibido, mas sim, criminalizado para mulheres pobres. Clínicas clandestinas existem, clínicas não tão clandestinas, também. Na lista de países da América Latina que agora autorizam o procedimento, encontram- se o Uruguai, a Guiana e desde o mês de dezembro de 2020, a Argentina; liberando a intervenção até a 14º semana de gestação.

Em contrapartida a administração atual do governo brasileiro, é composta em sua maioria por partidários religiosos e com viés político voltado para a direita, tendo como grandes temáticas: a falta de liberdade do corpo feminino, o conceito básico de direitos humanos, a orientação sexual e a identidade de gênero.

Uma citação muito famosa de Aristóteles “A vida imita a arte”; exemplificando a frase, atualmente uma das obras mais bem escritas e dirigidas é a obra “O Conto da Aia”. Em seu título original – The Handmaid ‘s Tale, é uma série de (não tão) ficção distopia, onde um governo religioso e totalitário toma posse através de levantes, vencendo a guerra e controlando de forma ditatorial todo um país. A película é focada na personagem June Osborne (Elisabeth Moss), e conta a história de como uma mulher independente pode ser quebrada por uma sociedade autoritária e machista. Durante o processo, June narra como foi sequestrada, torturada e ensinada a se comportar no novo mundo de Gilead. Em seu relato, também é mostrado todo o processo de golpe e posse sobre o governo democrático que regia o país anteriormente.

Nesse “novo mundo”, a quebra do ser humano é feita de forma visual e não visual, desmanchando sua identidade com coisas simples, como uniformes e situações extremas como a proibição do próprio nome. O afastamento da identidade e o esquecimento do individualismo é um dos vários contornos que ajudam na quebra seja da alma ou do consciente, e é exatamente isso que nos torna seres humanos.

Assim como na obra, o debate sobre a liberdade do corpo feminino é pauta de diversas discussões e divergências entre estado e religião. O livre arbítrio e a decisão do que fazer com nossos corpos, realmente deveria ser tratada por homens de colarinho branco? A religião deveria mesmo ser englobada ao governo, mesmo que de forma democrática? Deixaremos mesmo que o Brasil se transforme em uma nova Gilead?

O aborto deve ser tratado da forma como ele é, uma questão de saúde pública. A interrupção de uma gravidez indesejada não deve ser analisada apenas como uma gravidez indesejada, ela deve ser pensada na saúde dos genitores, sejam estas mentais, físicas, sociais, econômicas e é claro, a real vontade de gerir e amar uma nova criança. A interrupção deve ser decidida por quem carregará o fardo da decisão, e apenas por ela. Não há motivos admissíveis para a criminalização, o que cada um faz do seu corpo é, ou ao menos deveria ser, um problema apenas de si mesmo.

A liberação do aborto não se trata de utilizar da intervenção de forma contraceptiva, mas de forma emergencial. A distinção entre a legalização e a proibição é a forma como o processo é feito, é pensado na saúde e na segurança daquele que fará o procedimento, isso inclui não só o procedimento em si, como também as condições de higiene do ambiente, a instrução daquele que irá conduzir o feito e o pós procedimento, como o auxílio da saúde mental e qualquer outro problema gerado pelo trauma.

A negação da existência da necessidade de auxílio por parte de governo, não fará com que paremos a luta. 



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