Mulheres em alta no universo dos e-Sports

Jogadoras do esporte eletrônico transformam paixão de infância em carreira profissional e, com muita garra, lutam para driblar a falta de oportunidades e o machismo da modalidade.

Por Rafael Alef, aluno do 5º período de Jornalismo do UniBH

Se engana quem pensa que o universo dos jogos eletrônicos é coisa de criança ou só um passatempo. A indústria dos games já é avaliada em mais de 160 bilhões de dólares e revela novos talentos diariamente. Em plataformas de streaming, como a Twitch ou Facebook Gaming, inúmeros criadores de conteúdo gamer apresentam transmissões e atraem seguidores do mundo inteiro.

Grande parte da audiência pode até ser voltada ao público masculino, contudo, as mulheres ganham cada vez mais espaço nas plataformas e provam que não só sabem muito de jogo, como também têm muito a acrescentar.

Paixão de criança

A engenheira física Aryane Nicéia, ou como se apresenta na web, Aryzete, aproveitava as visitas à casa de familiares para explorar a paixão pelos jogos, já que, na época, ainda não tinha os meios para tal. Mesmo depois de ganhar o primeiro console, computador destinado exclusivamente a jogos, a alegria durava pouco. A mãe, preocupada, não gostava que Aryzete ficasse muito tempo em frente às telas por ainda ser muito nova. Mas a engenheira cresceu e o gosto continuou.

Criou um canal no YouTube, o Quem Dera, em 2014, focado em situações cotidianas, mas se interessou mesmo ao conhecer outros criadores que produziam vídeos de gameplay, em tradução literal, jogando o jogo. A produção de vídeos nesse estilo para a plataforma se provou mais complicada do que Aryzete esperava, mas no fim de 2019 foi aconselhada a tentar fazer as transmissões de outra maneira. “Comecei a fazer lives como um teste no Facebook, mas eventualmente migrei para a Twitch, onde estou até hoje”, recorda.

Semelhante à história de Aryzete, a ciberatleta Danielle Andrade, popularmente conhecida na internet como Cherna, sempre foi apaixonada por jogos eletrônicos e foi com o apoio da família que conseguiu investir no sonho de se tornar uma jogadora profissional. “O meu primo foi quem me ajudou a convencer o meu pai para a compra do meu primeiro PC”, relembra.

O interesse pelo mundo dos eSports também nasceu na infância da streamer, influenciadora de games e apresentadora, Carolina Trindade, também conhecida na internet como Carrie T. Nos tempos de estudante no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG), passou a organizar campeonatos do jogo eletrônico, League of Legends. Aos 19 anos, fez sua estreia como streamer na internet depois de ganhar um computador mais potente. Mas desde os 11, jogando em um PlayStation 2, e até no videogame do pai, o Atari, popular na década de 80, Carrie já demonstrava que a paixão poderia ir além da diversão pessoal.

Atualmente, a streamer tem mais de 30 mil seguidores espalhados por perfis no Instagram, Twitter, Youtube, TikTok e no serviço de streaming, Twitch. Com uma série de projetos encaminhados para o futuro, Carrie destaca o final do último ano como a grande virada em sua carreira profissional. “Ser uma streamer deixou de ser só um hobby e se tornou a minha principal fonte de renda”. Em 2021, a influenciadora passou a integrar a equipe do Cruzeiro eSports, oportunidade que impulsionou de vez a carreira no universo dos jogos eletrônicos.

Jogadores impressionam

A ascensão do público feminino no mundo gamer segue em ritmo crescente, mas tem um longo caminho a percorrer. Em abril deste ano, a 8ª edição da Pesquisa Games Brasil confirmou que 51,5% do público de jogos eletrônicos do país é composto por mulheres. Já em agosto, um dos principais nomes femininos do esporte eletrônico, a brasileira Babi, foi a mulher mais assistida do país com cerca de 120 mil horas assistidas com apenas 25 horas de transmissão. Criadora de conteúdo e influenciadora pela LOUD Games, organização brasileira de eSports, Babi tem mais de 1 milhão de seguidores na Twitch, onde faz transmissões de gameplay. Recentemente, a influenciadora estrelou um comercial para o Banco Itaú, um dos mais novos patrocinadores da LOUD.

Em outubro, um vazamento massivo de informações da plataforma de transmissões Twitch tornou público os ganhos dos 100 streamers mais bem pagos no serviço de streaming. Entre a classificação, é possível encontrar apenas três mulheres: a canadense Pokimane, em 34º lugar, a americana Amouranth, em 48º, e a alemã Sintica, em 71º.

Com a quantidade de mulheres criando conteúdo gamer de excelência na internet, as classificações e números ainda deixam a desejar. A falta de interesse genuíno por parte do público e das grandes marcas contribui para o cenário, mas jogadoras do esporte eletrônico provam que, mesmo com a falta de investimento, chegaram para ficar e não têm medo de pegar o comando.

“Muitas marcas preferem usar as mulheres como token pelo corpo e para chamar atenção, e não pelas habilidades e competências no que fazem. Sinto que faltam marcas gerenciadas por mulheres no mundo do eSports. Marcas que saibam valorizar o trabalho feminino, mostrar o nosso potencial e impulsionar a capacidade de conquistar o que desejamos”, pondera Cherna.

O desgaste na luta contra o machismo

Paralelo às dificuldades em ganhar espaço no mercado dos eSports, jogadoras de todo o mundo ainda precisam lidar diariamente com o principal inimigo para as conquistas do público feminino: o machismo.

Em 2018, a proplayer (ou jogadora profissional), Cherna, foi uma das duas mulheres indicadas ao Prêmio eSports Brasil. A jogadora, que apareceu entre oito nomes na categoria Melhor Atleta de Rainbow Six: Siege, teve o momento de celebração tomado por uma onda de ataques gratuitos na internet, que quase a levaram a se afastar das redes sociais. A indicação ao prêmio veio depois da oportunidade de jogar profissionalmente pelo circuito feminino da Ubisoft Entertainment SA, empresa francesa de jogos eletrônicos com sede no subúrbio de Montreuil, em Paris.

Em nota publicada cinco dias depois da divulgação da indicação, o Prêmio eSports Brasil repudiou os ataques à jogadora e reforçou que mesmo com a maioria dos atletas no esporte eletrônico sendo do gênero masculino, o crescimento das mulheres na modalidade é uma tendência global muito relevante.

Casos de machismo e assédio moral ainda são comuns no mundo dos esportes eletrônicos, principalmente para as mulheres jogadoras. Em 2021, a empresa Reach3 Insights, em parceria com a Lenovo, divulgou pesquisa que buscava compreender a experiência de mulheres enquanto jogavam na web.

Entre os principais resultados, o estudo aponta que 77% das entrevistadas sofrem com algum tipo de frustração enquanto jogam, apenas por serem mulheres. Outras reclamações, como propostas não solicitadas para relacionamento, questionamento de habilidades e silenciamento por parte de homens que se sentem superiores naquele espaço também foram destaque.

A streamer Aryzete explica que, mesmo não gostando, ainda utiliza um nickname, ou apelido, neutro na internet, visto que muitas mulheres sofrem com o assédio de jogadores nas plataformas. Para a ciberatleta, Cherna, a solução para evitar comentários machistas foi esconder o seu gênero durante algumas partidas. Já a influenciadora de games, Carrie T, não chegou a esconder sua identidade de gênero, mas vez ou outra ainda precisa apagar comentários de assédio e ódio gratuito no chat de suas lives.

“Esse tipo de situação é parte de uma cultura do patriarcado em que muitos homens ainda acreditam que as mulheres só devem fazer “coisas de mulheres”, como cuidar de uma casa ou esperar um homem para bancá-las. Acredito que isso vem mudando aos poucos, mas ainda sofremos com essa discriminação de gênero em muitas outras áreas e não somente nos jogos eletrônicos”, reflete Carrie.

Infelizmente, jogadoras de todas as idades se encontram em uma posição em que é necessário tentar driblar comentários e ataques desrespeitosos durante suas transmissões ou participações em campeonatos. As experiências negativas começam cedo e exigem força para quem só quer se divertir e aprender mais no universo do esporte eletrônico.

“Me lembro que, aos 13 anos, fui em um grupo de jogadores para conseguir uma informação sobre um jogo e um cara comentou “mostra os peitos” na minha publicação. Na época, não me abalei, mas é muito pesado saber que uma criança de 13 anos pode ser exposta a esse tipo de comentário simplesmente por gostar de um jogo”, relembra Aryzete. A streamer, que é uma mulher lésbica, também já passou por situações de LGBTQIA+fobia junto a um time onde jogava, e mesmo tentando não se abalar com os ataques, não esconde o quão desagradável é ouvir tantos comentários negativos apenas por fazer parte de um jogo.

Iniciativas que fazem a diferença

Em busca da erradicação de problemas intrínsecos às sociedades ao redor do globo, a alta cúpula da Organização das Nações Unidas (ONU) se reuniu, em setembro de 2015, para a elaboração dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). O acordo se refere a uma série de medidas que buscam solucionar problemas, como a fome, desigualdade, clima, e também a igualdade de gênero. O quinto objetivo da agenda, que deve ser executada até o ano de 2030, abrange medidas relacionadas à igualdade de gênero e empoderamento de mulheres e meninas.

E é com o mesmo objetivo que mulheres com destaque na cena gamer vêm desenvolvendo projetos, cuja finalidade é proteger e incluir o público feminino no esporte eletrônico. Um exemplo de trabalho que podemos destacar é o coletivo encabeçado por Aryzete, o Joga Sapatão, que conta com 15 mulheres lésbicas unidas em prol da visibilidade às mulheres LGBTQIA +.

A streamer conta que, desde o início de suas transmissões na plataforma Twitch, sentia falta de ver mulheres lésbicas como ela, jogando na plataforma ou entre os grandes nomes streamers. Depois de um tempo pensando nas possibilidades de contribuição, nasceu o coletivo, que teve lançamento no último mês de agosto, em paralelo às comemorações do Mês da Visibilidade Lésbica.

“Praticamente em todos os dias do mês, fizemos lives em conjunto para arrecadar dinheiro para a Casa Dulce Seixa, e foi extremamente divertido! Não conseguimos um público tão grande quanto eu esperava, mas foi incrível elaborar tudo isso”, destaca Aryzete.

Movimento feminino nos eSports se une em luta contra o machismo. Imagem: Freepik.

Outro projeto encabeçado pelo público feminino é a Associação Feminina Gaming do Brasil (AFGB), criada pela jogadora profissional Cherna. A proplayer, que sofreu uma onda massiva de ataques virtuais em 2018, foi à internet neste ano para expor os assédios físicos e verbais que sofreu de um antigo treinador por conta de sua sexualidade.

A culpa e o medo de possíveis reações a consumiram por um tempo, mas Cherna usou sua experiência como motivação para criar o projeto visando o bem-estar de outras jogadoras. O plano, para o futuro, é criar uma corrente de proteção para que situações como a dela não se repitam e ninguém precise se calar a respeito.

“Nosso objetivo é dar auxílio a todas as mulheres gamers, com advogados, psicólogos, treinos para melhoria de performances no jogo, entre muitas outras coisas e sem fins lucrativos”, explica.



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