Mesmo eles me aborrecendo, eu escrevo

Vinte e seis anos após a Lei Áurea ser decretada, nascia, em Sacramento (MG), Carolina Maria de Jesus, negra retinta de raízes pobres e uma das maiores autoras brasileiras.

Por Virgínia Pedrosa, 6º período de Jornalismo do UniBH

Lídia é uma professora de educação para jovens e adultos na escola Carolina Maria de Jesus. Ela nos é apresentada no começo da série “Segunda Chamada”, seriado da Globo, enquanto anda pelas ruas e ouve, no som de um carro, a frase: “e tenho comigo pensado, Deus é brasileiro e anda do meu lado, e assim já não posso sofrer no ano passado”. Essa frase de “Sujeito de Sorte” de Belchior, adjunta a outra parte da música “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”, podem ser bem colocadas e até servir de legenda para a escritora homenageada pela escola ficcional.

E assim como na ficção, esse texto é uma pequena honraria àquela que serviu de marco para diversas gerações.

Hoje, dia 14 de março, é aniversário de uma das maiores autoras brasileiras, que pode ser considerada uma das primeiras escritoras negras. Carolina Maria de Jesus abriu espaço para mulheres pretas e de baixa renda se consolidarem no ramo da literatura no ambiente nacional.

Nascida em Sacramento, interior de Minas Gerais, foi a pé, ainda adolescente, para São Paulo, onde trabalhou como empregada doméstica e catadora de recicláveis. Com três filhos pequenos e sem ter onde morar, construiu sua própria casa – com pedaços de madeira e lona – sob o barro, às margens do rio Tietê.

Vaidosa de tudo, Carolina se preocupava com o estado de sua casa e aparência física. Mesmo durante as chuvas, quando o rio transbordava, dava-se ao trabalho de sempre manter a casa limpa e arrumada, gostava de se maquiar e usar adereços, sentia-se triste pelo trabalho de catadora a deixar suada e desarrumada, mas era grata por conseguir colocar comida na mesa para seus filhos. E mesmo com a falta de tempo e as dificuldades diárias, sentia uma necessidade existencial de transmitir suas alegrias e angústias, escrevia sobre o seu dia-a-dia dentro da favela do Canindé. Foi assim, em pedaços de papéis retirados do lixo, que Carolina escreveu uma das maiores obras da literatura brasileira.

Foi durante uma briga com alguns rapazes em um parque da favela do Canindé que Maria foi “descoberta”. O jornalista Audálio Dantas viu a pequena mulher discutindo com os homens, dizendo de forma autoritária para que saíssem do parque das crianças. Eles, por sua vez, a ignoravam, até o momento em que a senhora – em alto e bom tom – disse: “vou botar vocês no meu livro!”. A ameaça surtiu efeito, e eles foram embora. O jornalista, curioso, quis saber sobre o que era esse tal livro, tão ameaçador e conhecido pelos moradores do Canindé. Deparando-se com mais de 20 cadernos, o repórter, impressionado, decidiu auxiliar a escritora numa possível publicação. Carolina Maria fazia de seu diário uma arma, e com ele foi à luta.

O livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, publicado pela primeira vez em Agosto de 1960, foi escrito durante anos corridos, mostrando os problemas da comunidade e de seus moradores: fome, enchentes, desemprego, brigas. Tudo era minuciosamente escrito por ela. Após a publicação, Carolina sofreu preconceito de alguns estudiosos e da burguesia, que diziam não ser possível uma pessoa periférica e sem instrução escrever uma obra tão relevante para a cultura brasileira. Entretanto, eruditos como Manuel Bandeira apoiaram e apontaram Carolina Maria de Jesus como uma revelação no campo literário do cenário brasileiro, escrevendo uma nota no jornal “O Globo” explicando o estereótipo criado sobre a autora e a dificuldade de aceitação.

Com a divulgação da obra, a escritora teve seus dias de glória e fama, sendo assediada nas ruas com pedidos de autógrafos e fotos para revistas e jornais. Sua filha, Vera, relata que, durante cerca de 3 anos, sua mãe se manteve extremamente ocupada com trabalhos sobre o livro, participando de programas de rádio e TV.  O livro também abriu portas para a escritora em outros ramos artísticos, já que, no mesmo ano, lançou um disco com músicas e marchinhas escritas por ela.


A fama, todavia, não trouxe apenas luxos e dinheiro. A escritora e seus três filhos precisaram sair da comunidade do Canindé, pois sofriam ameaças e agressões dos vizinhos, que viram sua vida e intimidade expostos no livro de Carolina. Com o dinheiro recebido pela publicação, ela pôde comprar uma casa em Santana, bairro de classe média em São Paulo. Lá, ela escreveu seu segundo livro, de nome “Casa de Alvenaria”; mas mesmo que a casa fosse “residível”, feita de tijolos e cimento, assim como ela sempre quis, o preconceito e a discriminação da vizinhança ainda assolavam a vida da família Jesus, o que fez com que eles se mudassem para um sítio no interior do estado. Segundo a filha Vera, não havia eletricidade na nova casa, e a fome não era mais tão vista devido à criação de animais, mas, com o bom coração da mãe, acabaram por perder todo o dinheiro e prestígio ganhos com seus trabalhos.

Após “Quarto de Despejo”, as novas obras de Carolina de Jesus não foram tão bem recebidas pelo público. Esquecida pelo mercado editorial, voltou à miséria e à vida de catadora de reciclados. A autora faleceu durante uma crise de asma aos 63 anos de idade. Seu caixão e seu enterro foram pagos por meio de doações de vizinhos e amigos.

Carolina Maria de Jesus foi, e ainda é, uma das principais vozes da periferia. Suas obras até hoje são temas para estudos sociais, vestibulares e trabalhos acadêmicos. Sua força e esperança são vistas por toda a Belo Horizonte, como o grafite feito com seu rosto e uma citação na Praça do Peixe, no complexo da Lagoinha. Ou ainda mais simbólico: as ocupações Carolina Maria de Jesus, na avenida Afonso Pena e na rua Rio de Janeiro.



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