Mesmo com desafios, mercado de games cresce no Brasil

Previsão é que o faturamento da indústria brasileira de jogos digitais atinja US$ 1,4 bilhão em 2021

Por Davi Bicalho e Denys Lacerda

O mercado global de jogos gerou US $100 bilhões em receita em 2017. No Brasil, esse montante foi de US $802 milhões – quase a soma das receitas das indústrias de rádio e de música que, juntas, faturaram US $824 milhões.

A expectativa, em 2017, era que o mercado global de jogos crescesse 7% ao ano no mundo até 2021. No Brasil, a previsão era avançar 16% ao ano, atingindo US $1,4 bilhão em 2021 e ultrapassando o faturamento das indústrias de livros, revistas e cinema. Esses são dados de estudos da Consultoria em Negócios PwC Brasil.

Além do crescimento em faturamento, os jogos brasileiros têm crescido em prestígio. Um dos jogos que mais se destacou internacionalmente foi o “Dandara”. Lançado em 2018 pelo estúdio mineiro Long Hat House, o game esteve na lista dos 10 melhores jogos da revista TIME daquele ano.

Luiz Ojima Sakuda, professor universitário e pesquisador da indústria de jogos digitais do Brasil. Foto: Arquivo Pessoal.
Luiz Ojima Sakuda, professor universitário e pesquisador da indústria de jogos digitais do Brasil. Foto: Arquivo Pessoal.
A INDÚSTRIA DE JOGOS DO BRASIL

Apesar de ser o 13o maior mercado consumidor de jogos, o Brasil ainda não possui uma indústria de desenvolvimento de games bem estabelecida.

Um dos desafios da indústria é a informalidade. De acordo com o segundo Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais (2018), mais de 1⁄4 das desenvolvedoras atuam dessa maneira, o que traz obstáculos como a dificuldade de conseguir capital financeiro e de conseguir participar de editais públicos de incentivo à produção de jogos.

Essas barreiras refletem diretamente no faturamento das desenvolvedoras informais. Ainda de acordo com o Censo, todas as desenvolvedoras não formalizadas faturam até R $81 mil ao ano. Entre as empresas formalizadas, 48,2% faturam mais que esse valor.

Além disso, apenas metade das desenvolvedoras têm a sua principal fonte de receita vinda dos jogos. Dessa forma, muitas empresas precisam trabalhar com outras atividades para compor sua renda.

Para o pesquisador da indústria de jogos digitais do Brasil e professor universitário, Luiz Ojima Sakuda, um dos fatores que desincentivam a formalização é a burocracia tributária e empresarial. Apesar de já existirem alguns programas que facilitam esses processos, como o Simples Nacional, ainda faltam outras medidas por parte do setor público.

“O Simples é uma conquista importante. Já é antigo, mas não são todos os países que têm. Mas acho que o jeito de abrir e fechar empresas, não só de games, mas de empresas em geral, teria que melhorar”, diz Sakuda.

Por Matheus Rocha

 

Por Matheus Rocha

 

OS GAMES E A ECONOMIA CRIATIVA

A indústria de games se divide entre as desenvolvedoras que fazem trabalhos mais comerciais e as que fazem trabalhos mais artísticos, de inovação e de expressão. Esse é o entendimento do professor universitário e pesquisador da indústria de jogos digitais do Brasil, Luiz Ojima Sakuda.

Para ele, apesar do balanço entre esses dois grupos ser difícil para as políticas públicas, ele é visto como necessário.

“Por um lado, o pessoal mais inovador, ou que está com alguma pauta de inclusão ou identitária, tem uma questão que vai além da viabilidade comercial, que eu acho que é importante do ponto de vista de cultura, não só de arte. E do outro lado, a gente tem que entender que o gestor público está preocupado com geração de emprego e renda. Então, ele está preocupado em ter mais empresas que consigam gerar mais trabalho e, de preferência, gerar mais trabalho melhor remunerado”.

O pesquisador acredita que esse entendimento da importância de cada tipo de desenvolvedora deve ser presente dentro da indústria de jogos.

“De um lado, o pessoal que tem uma intenção mais comercial tem que entender que uma parte da política pública tem que ir para aquela produção que provavelmente não vai dar retorno financeiro, mas é importante para o ecossistema, ela é importante para manter a ‘chama rebelde’ de muitas coisas. Do outro lado, esse pessoal que tem esse viés de expressão tem que entender que ‘cara, desculpa, mas quem vai pagar, quem vai manter o ecossistema, quem vai conseguir gerar emprego e renda, é o pessoal que está tentando vender para o mundo”.

Ainda segundo o pesquisador, uma característica que diferencia a indústria de jogos digitais de outras áreas da economia criativa é a sua atuação global mais proeminente.

“A indústria de games é um pouco diferente porque ela se internacionaliza muito precocemente perto dos outros. Uma empresa de games, ou mesmo um profissional de games autônomo, tem uma atuação global. Até porque, dificilmente você vai ter um nicho local suficiente para consumir e para pagar as contas do seu jogo”.

COMO AS DESENVOLVEDORAS TRABALHAM?

Para o desenvolvedor Lucas Mattos, a indústria de jogos brasileira ainda é muito recente e há um atraso em relação ao desenvolvimento de jogos nos outros países.

“O desenvolvimento começou lá fora, as indústrias lá desenvolveram e a gente ainda está no início da indústria se desenvolvendo, se estabelecendo, algumas empresas se firmando”.

De acordo com Lucas, esse atraso interfere na identidade dos jogos brasileiros, com os desenvolvedores se inspirando muito nos produtos estrangeiros.

Os desenvolvedores João e Lucas. Fonte: Acervo Pessoal.

“A gente acaba pegando muito lá de fora, tentando competir com eles em vez de fazer o nosso negócio aqui. A gente ainda tenta importar como fazer jogos lá de fora, apesar de algumas diferenças do próprio ambiente para desenvolver. A gente está começando, mas, com certeza, o potencial [para os jogos brasileiros se destacarem internacionalmente] existe sim. Já tem jogos próprios, como o Dandara, que receberam uma atenção lá fora. Muitas vezes recebe essa atenção por ser brasileiro”.

Para o seu sócio, o também desenvolvedor João Brant, há um desconhecimento do público sobre a indústria brasileira de jogos. “Muita gente não sabe que existe desenvolvimento de jogos no Brasil e as pessoas não esperam isso, não têm nenhuma expectativa e nem procuram isso”.

João afirma que esse é um dos motivos para as desenvolvedoras brasileiras se internacionalizarem mais precocemente. “O jogo tem que ir lá para fora antes. Não é sustentável, ainda, por enquanto, você faz um jogo para o público brasileiro. É muito difícil você sobreviver só com o público brasileiro e é muito pouco custo a mais para você lançar internacionalmente, em inglês, para todo mundo ver. Então, é quase que a gente lança lá fora mais por sustentabilidade mesmo”.

 

 



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