Malandragem é ser quem quiser, falar o que quiser

A importância de ‘malandras’ como MC Drika, Elza Soares e Cássia Eller no combate ao machismo e às bases patriarcais.

Por Sarah Rocha, aluna de Jornalismo do UniBH

Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2018, as mulheres recebem 77,7% do rendimento dos homens, ou seja, 22,3% a menos. A diferença salarial pode ser vista como um dos reflexos de poder na sociedade, o que faz com que as mulheres precisem falar mais alto para serem ouvidas.

Em 1879, as mulheres conseguiram o direito de cursar uma faculdade no Brasil. Entretanto somente em 1930 começaram a ter os direitos básicos, como o direito de votar. “Mas ainda é flagrante a dissimetria com relação aos homens, por exemplo, no mundo do trabalho (salários, cargos) ou da política (participação dentro dos partidos, disputa das eleições)”, pontua a socióloga Pérola Mathias.

A mestra em filosofia, Aniele Avila, fala em seu artigo “Do samba ao funk: a malandragem feminina nas letras de canções da música contemporânea no Brasil”, que o objetivo das músicas dessas mulheres é mostrar o ponto de vista das ‘malandras’ em relação às questões sociais do Brasil que deveriam ser discutidas.

Assim, artistas como Mc Drika, Elza Soares e Rita Lee encontraram na música uma forma de se expressar. “Acho que todas as artes podem ter exercido esse papel em algum momento, seja individual ou coletivamente, que, no caso, é o que interessa à sociologia. Suas formas de impacto na sociedade podem ser apreendidas de formas diversas, se a compreendermos como representação (uma das formas possíveis de se estudar a arte) ou se entendermos que as obras de arte podem criar um diálogo com seus consumidores e espectadores, ou mesmo que elas podem ser questionadoras de estruturas sociais como o patriarcado, o machismo, o racismo, o classismo. A arte pode (ou não) ser libertação, pois já vimos ao longo da história que também há formas de arte e artistas reacionários”, reflete Pérola Mathias.

Malandra sob o olhar do homem

Segundo o relatório Por Elas Que Fazem a Música 2021, da União Brasileira de Compositores (UBC), 79% das mulheres na música já sofreram discriminação de gênero e 53% jamais receberam valores de direitos autorais, porque não tinham músicas tocando em algum lugar ou não eram associadas à UBC. “Vejo que tem muita mina com talento, mas com pouco apoio para representar. As empresas e as indústrias não investem”, lamenta Aline Lopes, cantora de rap.

Essa falta de apoio às mulheres, de acordo com a socióloga Pérola Mathias, talvez venha do fato de “que toda produção cultural e artística é significativa no sentido de revelar características de seu contexto social, bem como se comunicar com ele no tempo presente, ainda que seu alcance no momento de sua criação seja sempre limitado, seja pelos meios pelos quais é difundido, se há ou não barreiras de classe, raça e gênero para seu consumo.”

No começo, as músicas sobre mulheres malandras somente eram feitas por homens, então, ser malandra podia significar muitas coisas. Uma delas seria a esperta, que é mostrada em um trecho do texto da mestra Aniele Avila, em que fala da música “Beija, me beija, me beija”, de Martinho da Vila, gravada por ele em 1989. “Ela até enxágua, o enxuga, mas, aparentemente, só o faz para comê-lo, quer se acabar de prazer, quer curtir o sexo. Nessa canção, nas entrelinhas, vislumbramos outro elemento malandro: a esperteza feminina, a estratégia calculista da malandra para ‘abater’ o seu oponente e usar dele para obter prazer”.

As malandras que cantam

Entretanto, muitas mulheres conseguiram, ao longo da história da luta feminista, se destacar como exemplos de força de vontade e talento, para ‘ser o que quiser’, inclusive inspirar outras com suas músicas, mulheres que Aniele Avila chamou de ‘malandras’.

Em 1976, Rita Lee lançou o disco Refestança, que fez sucesso com a música Ovelha Negra, ocupando a primeira posição nas paradas. “Sobre as minas malandras da época, a Rita Lee é uma das maiores. Ela ‘metia um louco’. Eu ainda escuto as músicas dela. Aquela música Ovelha Negra é tudo pra mim, com certeza teve muita mina que se libertou dessa coisa estipulada de mulher ter que casar e ter filho a partir de suas músicas, elas mudaram a geração da época”, concordou a artista Aline Lopes.

Em 2000, Elza Soares recebeu o prêmio de Melhor Cantora do Milênio pela BBC. “Elza Soares, que enfrentou a pobreza, o machismo, um casamento, quando era praticamente criança, violência doméstica, a perda de filhos, mas que fez de seu talento sua força. Creio que essa história seja expressa por ela na forma como canta no disco ‘A mulher do fim do mundo’, reafirma Pérola Mathias.

Não se pode esquecer de Cássia Eller e a música Malandragem. Com um refrão que dizia: “Eu só peço a Deus, um pouco de malandragem, pois sou criança, e não conheço a verdade, eu sou poeta e não aprendi a amar”. Música feita por Cazuza, com melodia de Frejat, em 1988, mas que só ganhou repercussão na marcante voz de Cássia em 1994. “Cássia Eller, uma intérprete brilhante, tímida fora dos palcos, se transformava em outra figura quando cantava. Talentosa e versátil, a cantora sempre deixou claro que se via mais como intérprete do que como compositora”, afirmou o jornalista Mateus Pereira Silveira, ao Letras.com.

Capa de disco da Cássia Eller, gravado no Rock in Rio de 2001 e lançado em 2006, pela MZA Music em parceria com a Artplan. Imagem: reprodução
Capa de Deus é Mulher, 33º disco de Elza Soares, lançado em 2018 pela DeckDisc. Imagem: reprodução.

A sociedade sempre apresentou às mulheres um único caminho, casar e ter filhos, contudo, algumas mulheres ao longo da história rejeitaram parte ou toda essa ideia. “O papel da música na identificação de ser mulher é entender que são várias vivências, não existe um papel só, existem vários e, então, vai ter mina que vai ser criada para escutar, que ela tem que casar e ter filhos, ela não vai aceitar aquilo ali, vai desfazer de tudo pra criar uma visão nova. Mas, vai ter mina que vai entender que aquilo é importante pra ela, não vai sentir que aquilo é algo imposto e vai ser feliz assim. É justamente isso de poder explorar as identidades, variadas vivências, não uma fórmula só de ser mulher, somos múltiplas, diversas, acho que a música trabalha bem nisso, do rap, MPB ao funk, essa pluralidade nossa”, defende Aline Lopes.

Lourdes Sales, socióloga, ao ser questionada sobre como a música pode influenciar sobre o papel da mulher na sociedade, cita Núbia Lafayette, com o lançamento de “Casa e Comida”, no ano de 1972. “Sem dúvida, a letra desta música, como tantas outras do gênero, trouxeram à baila este tema bastante relevante. Era preciso ressaltar que mulheres são seres integrantes da espécie humana e, como tal, requerem bem mais que bens materiais para sua completude. Acredito que muitas mulheres foram incentivadas a exigirem o tratamento adequado à sua condição de ser humano. Ou seja, o direito à liberdade de expressão, liberdade de escolher a forma de adquirir seu sustento e, acima de tudo, direito à atenção, carinho e respeito”, enfatiza Lourdes.

Infelizmente, hoje em dia, muitas mulheres ainda não se sentem vistas ou ouvidas, então o que fazer a respeito para melhorar essa situação? “A partir do momento em que se escuta que existe um outro modo de vida, isso te abre um caminho, falo isso por mim, quando eu fui conhecer e vi que existiam várias outras minas no rap. Hoje em dia, quando ainda escuto, isso me faz abrir a mente, faz eu acreditar mais em mim mesma, me faz acreditar que eu não sou nenhuma alienígena ou estranha por, às vezes, querer quebrar um padrão, aquilo que o meu redor, a minha família tenta me impor e eu não aceito. Aí eu posso não ter essas minas no meu convívio, mas através da música eu me conecto com elas”, reflete Aline. Pérola Mathias também acha que “ tanto na produção, como na recepção musical, a música pode ser um espaço de elaboração da subjetividade, de diálogo, de rompimento de grilhões sociais. Ela pode ajudar a mulher a ter voz, criar sua própria narrativa”.

Atualmente, vemos muitas mulheres cantando funk, fazendo suas narrativas com um conteúdo sexual elevado, como isso pode ajudá-las a se conhecerem melhor e a seus corpos também? “É poder se expressar mais. Quanto mais a gente puder falar dos nossos desejos, sem sentir culpa disso, ou ser julgada como puta, safada ou frígida. Eu só estou vivendo. Os caras podem fazer às revoadas, eles vivem cantando sobre isso, eu também quero. Quanto mais a gente puder fazer isso e falar disso nas músicas, mais a gente se empodera, se torna dona. E entender que não tem nada de errado, a gente é ser humano também, temos o direito de curtir. Temos que entender também que não tem o corpo ideal, apesar das músicas de muitos caras ressaltarem isso, de que a mulher tem que ter peitão e bundão. Eu posso ser uma grande gostosa que dança pra mim ou pro outro, dar pra quem eu quiser, e eu não sou menos por isso. E essa ideia de ser menos prazerosa no sexo está ligada à vibe do momento, a esse autoconhecimento que a mina tem de poder se entregar, poder relaxar”, explica a cantora Aline Lopes.

Para a socióloga Pérola Mathias, o funk é o espaço mais “óbvio” dessa malandragem. “Certamente, foi impactante ver Tati Quebra Barraco e Valesca Popozuda cantando e dançando, com afirmações de que elas eram as principais vozes numa relação afetiva ou sexual. MC Carol é uma das cantoras que mais me impactam hoje em dia”, pontua. Uma das mais famosas no funk atualmente é a Mc Drika que, segundo a Spotify, está no topo. Só a música “E Nós tem um Charme Que É da Hora” já acumula 34 milhões de streams e foi reproduzida 90 milhões de vezes no YouTube.

Lourdes Sales, também socióloga, defende a tese de que “o grande mal da humanidade é que, dentro das convenções sociais, a natureza não é levada em conta. Compõe-se o cultural sem se levar em conta o natural, e este fato é o grande vilão das relações humanas. Contudo, percebe-se que as convenções sociais nunca lograram êxito sobre a natureza, o que tem que ser é, ponto final. A hipocrisia é que sempre posou de bela, empurrando para dentro do armário aquilo que a sociedade conservadora nunca conseguiu engolir. A liberdade de expressão pertinente à música tem auxiliado em grande escala na quebra destes tabus”.

Detalhe de Aline Lopes no clipe ‘Princess Mob Show’, lançado em 2020, no YouTube. Imagem: reprodução.

Aline Lopes lançou ‘Princess Mob Show’, em abril deste ano, no YouTube. Nesta música, ela acredita se mostrar como malandra. “Um trecho que me representa muito é ‘deixa eles assustar com as minas que é mó porreta, não teme a treta não, então vacilão me respeita’”. Na música, Aline também fala sobre os caras malandros: ‘meio problemático, meio esquema tático, segue amassando tudo que nunca se adaptou, princess mob num é caô, chegou e já conquistou, pensamento avançado que já te hipnotizou. Latina americana, latina americana’. Ela acredita que, com músicas como essa, possa inspirar outras mulheres, afinal, “a ideia da música é isso, nós também sabemos fazer o corre”.

“Contudo, defendo a tese de que, para extirpar o conservadorismo da sociedade brasileira, necessário se faz criar mecanismos que possam combater para além do preconceito de gênero, é preciso combater primeiro a ignorância estrutural que, do meu ponto de vista, é a origem de todos os males, não somente da sociedade brasileira, mas de toda a humanidade”, finaliza a socióloga Lourdes.



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