Luz, câmera, ação: o cinema em BH

Cineasta destaca que o audiovisual é uma ferramenta poderosa para tratar de questões sociais e políticas.

Por Alexandre Santos, aluno do 8º período de Jornalismo do UniBH

Você sabe quem são os irmãos Lumiére? Considerados os pais do cinema, Auguste e Luis Lumiére, que são naturais da cidade La Ciotat, no sudeste da França, foram os responsáveis por patentear o cinematógrafo, criado por Léon Bouly em 1892. O aparelho era capaz de captar imagens em movimento e projetá-las.

Os irmãos passaram a produzir e apresentar pequenas produções, a priori, ao público francês, que mais tarde deram origem ao cinema que conhecemos hoje. A transmissão do primeiro filme aconteceu no dia 22 de março de 1895. “La Sortie de L’usine Lumière à Lyon”, que em tradução livre quer dizer “A saída da Fábrica Lumiére”, documentava a saída dos funcionários da empresa da família após um dia de trabalho.

O cinema foi se aprimorando e chamando a atenção de artistas, oriundos do teatro e do ilusionismo, que acreditavam que o cinema seria uma nova oportunidade d e praticar sua arte. Com isso, George Meliés, em 1902, lançou o filme “Viagem à Lua” que, na época, chamou a atenção pela qualidade dos efeitos especiais.

Com o tempo, assistir um filme se tornou muito mais que dedicar um pedaço do nosso tempo ao entretenimento, mas imergir no universo retratado e entender a fundo os contextos social e histórico evidenciados, viver as dores, dilemas e conquistas dos personagens e, de alguma forma, se sentir representado pelo o que se vê na tela.

Talvez essa não seja uma característica exclusiva dos cinemas e sim da arte em geral, mas o que não se pode negar é o alcance em massa que a conhecida sétima arte possui. Por isso, o audiovisual é uma ferramenta fundamental para conferir voz a comunidades marginalizadas e angariar visibilidade para lutas e causas, que se fazem cada dia mais necessárias na sociedade em que vivemos. O cinema aproxima o espectador dos “heróis” e os convida à reflexão.

Detalhe do trailer de Baronesa, filme de Juliana Antunes, vencedor de mais de uma dezena de festivais brasileiros e internacionais. Imagem: reprodução.
Cinema Reflexo 

Segundo o portal Exibidor, o estudo “Demanda de diversidade: garantindo o futuro do movimento”, divulgado pelo Movio, aponta que as produções que apresentam grupos minoritários recebem quase duas vezes mais a presença dos mesmos nas salas de cinema. Por exemplo, a pesquisa revela que o longa “Pantera Negra”, da Marvel, obteve 40% a mais de bilheteria do público negro em comparação a ‘Vingadores: Guerra Infinita”, filme da mesma saga.

A graduanda em Marketing, Graziele Tizoni (21), que é apaixonada e frequentadora assídua das salas de cinema da capital mineira, acredita que os filmes conseguem abordar questões, para muitos, ainda consideradas tabus em nossa sociedade. Dessa forma, educando e fomentando o debate público.

Para a professora do curso de Cinema do Centro Universitário UNA, Carla Maia (40), o audiovisual é uma ferramenta poderosa para tratar de questões sociais e políticas. Ela explica que o alcance desse meio é muito grande. “É uma arte de massa, para as massas mais populares, por essa razão, ao passo que serve para alienação e diversão, o audiovisual também pode ser aproveitado para politizar, tudo isso dependendo, é claro, do filme e do diretor”, completa.

A cineasta elucida que o cinema é um campo de visibilidade, que aproxima o público da arte popular e, por consequência, de questões sociais tão importantes em um país desigual como o Brasil. Carla Maia já está no mercado audiovisual há 16 anos. Ela conta que começou a trabalhar em 2005, com curadoria, e na programação dos festivais de cinema e produção de filmes. Carla, que em 2011 chegou a dirigir um longa, também já atuou como coordenadora do Festival Fórum Doc BH, organizado pelo Quintal, programa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), atualmente se dedica à docência, ajudando na formação dos novos profissionais do cinema.

Cinema Local 

Quando falamos no potencial que o cinema possui em conferir representatividade, é importante lembrar que esse poder não se restringe apenas a comunidades, lutas e causas, mas também de povos, culturas e tradições. Por essa razão, o incentivo à produção local é imprescindível. Não é mistério que cidades como Rio de Janeiro e São Paulo sempre receberam mais investimento no audiovisual. Não por acaso, a história do cinema brasileiro está diretamente interligada a essas capitais. A primeira sala de cinema brasileira foi aberta, em 1887, na capital carioca.

O primeiro filme? Uma gravação da Baía de Guanabara que rendeu o título de “pioneiros” no cinema do Brasil aos irmãos Paschoal e Affonso Segreto. O segundo filme produzido no Brasil, que foi rodado em São Paulo, se tratava de uma gravação da comemoração da unificação italiana.

O cinema local é importante para ampliar os espaços de visibilidade, contribuindo para que as comunidades consigam se enxergar. É o que salienta a cineasta Carla Maia. “Que a gente consiga contar as nossas histórias por nós mesmos e multiplicar olhares, fazendo com que a realidade se torne mais complexa, plural e com pessoas diferentes”, enfatiza.

A professora acredita que, além de exaltar a importância da arte e da cultura, investir nesse setor é incentivar o fluxo financeiro. “O cinema local sempre foi muito importante, até porque é uma atividade econômica, e desenvolvê-la é gerar renda e emprego, isso é bem importante”, ressalta.

A docente da UNA lamenta o fato da produção cinematográfica brasileira estar concentrada no eixo Rio-São Paulo. Para ela, é preciso que sejam implementadas políticas de descentralização efetivas, de modo que as produções locais sejam sustentadas, contribuindo tanto para uma maior distribuição de renda, quanto para haver maior diversidade de olhares e histórias. “É assim que a gente resiste a essa tendência do poder hegemônico, que tende a homogeneizar gostos, opiniões e o direito à diversidade. A diferença é uma coisa que o cinema pode ajudar a construir”, elucida a professora.

Por trás das câmeras 

O cineasta belo-horizontino, Sávio Leite (50), trabalha com audiovisual há 27 anos, na produção de documentários, vídeoarte e, principalmente, animações. Sávio também é

professor no Centro Universitário UNA, onde leciona disciplinas como cinema de animação, cinema de vanguarda e mercado cinematográfico há 12 anos. O professor já escreveu cinco livros, sendo quatro deles dedicados ao cinema de animação.

Em entrevista, Sávio explica como se dá a captação financeira para as obras e quais são os processos de seu trabalho. “Primeiro você tem a ideia, que pode vir de um livro lido, de um caso que te contam, uma música que você escuta. Essas ideias estão soltas por aí e cabe ao artista saber captar e trabalhar em cima disso”, relata.

O segundo passo elencado pelo profissional é registrar no papel, organizando todas as ideias em um roteiro cinematográfico, que é diferente de escrever um texto de literatura, por exemplo. O roteiro cinematográfico serve para narrar os filmes por meio de imagens. O desafio do produtor é unir a primeira imagem com a segunda, e assim sucessivamente.

A partir disso, o cineasta deve buscar viabilizar essa história. O mais comum hoje, no Brasil, é inscrever o roteiro em um edital e, quando aprovado, partir para a produção, divulgação, festivais e mostras. “Durante muito tempo nós estivemos no ‘boom’ desses editais, desde 2003 pipocaram muitos editais, inclusive específicos do cinema de animação, mas o que acontece é que agora esses mesmos editais tendem a ficar escassos, já que estamos vivendo um período político que não privilegia a cultura”, pondera.

O cineasta confessa que trabalhar com cinema não é lucrativo, mas afirma que a satisfação de ver seu trabalho finalizado e reconhecido em festivais e mostras de várias partes do mundo não tem preço. “Nada anula o prazer de ver seu filme sendo exibido no mundo inteiro. Eu conheço mais de 20 países que, de outra forma, eu jamais teria a oportunidade de conhecer. Por exemplo, eu já fui para a Armênia. Quando é que você vai tirar férias e diz: ‘vou para Armênia?’ Então, eu conheço muitos países, como Finlândia e até Noruega”, finaliza o cineasta belo-horizontino.

Você pode conferir a entrevista completa com o professor e cineasta, Sávio Leite, no podcast abaixo. No bate papo, Leite fala sobre sua profissão, como se dá a captação financeira e quais são as etapas de criação de uma produção cinematográfica.

BH nas Telas 

Assim como Sávio Leite e Carla Maia, que participaram desta reportagem, um bom número de cineastas, artistas e produtores culturais de Minas Gerais, dispostos a criar e desenvolver projetos cinematográficos na capital mineira, estão ganhando espaço. Pensando nisso, a Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte lançou, em 2019, o BH NAS TELAS.

O programa se divide em cinco eixos: política de preservação, difusão, formação, captação e investimento. O objetivo é contribuir para o desenvolvimento do cenário audiovisual de Belo Horizonte, e tem a missão de contribuir para a democratização, viabilizando o acesso a equipamentos, e angariar visibilidade para as produções desenvolvidas e rodadas no município.

Ouça a entrevista completa com o cineasta Sávio Leite: 

O projeto é mais uma iniciativa que visa colaborar com o cinema belo-horizontino, que vem crescendo a cada dia e conquistando seu espaço e reconhecimento no cenário audiovisual brasileiro e mundial, como é o caso das produções “Baronesa”, “No Coração do Mundo” e “Elon não acredita na Morte”, exemplos de produções cinematográficas de sucesso que foram rodadas por aqui.

Os filmes de BH vêm se sofisticando cada vez mais, por isso, separamos uma lista com algumas produções belo-horizontinas que participaram de mostras e festivais de cinema pelo Brasil e pelo mundo.

Infográfico: Eller Zant

 

 



0 0 vote
Article Rating
Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments