Jornalismo independente: periferia fora da caixa

50% do território nacional não possui veículos de comunicação local e fica refém de coberturas sob interesses políticos e estereótipos

Por Glycia Vieira e Lucas Marques

Negros, no Brasil, representam 56% da população, segundo o IBGE. Nas favelas, a porcentagem é ainda maior. A pesquisa Economia das Favelas – Renda e Consumo nas Favelas Brasileiras, desenvolvida pelos institutos Data Favela e Locomotiva, apontou que 67% dos moradores são negros. Ainda que sejam mais da metade da população brasileira, no espaço midiático essas pessoas não encontram lugar. “A grande mídia não vai dar espaço para a comunidade se ela não tiver interesse por trás desse espaço. Ela sempre vai estar de olho em algo lá na frente, mesmo que seja só popularidade que, querendo ou não, leva audiência”. A fala é do editor e repórter do portal Notícia Preta, Igor Rocha.

O portal antirracista surgiu, em 2018, para contrapor as notícias veiculadas na mídia tradicional. E ainda que essas notícias não condizem com a realidade vivida pelos moradores das comunidades, os números divulgados pelo IBGE são de grande interesse do que Igor chama de “mídia branca”. Ele explica o que considera ser o motivo usado por esses veículos para perpetuar a marginalização das periferias. “O principal é pela visão que a mídia deu para todo o processo de produção cultural da periferia. A periferia não consegue nenhum suporte, financiamento público ou privado de produção cultural. Automaticamente, no início, é tudo muito precário e amador”. Como exemplo, o jornalista cita o funk, que começou sendo “extremamente batido, o ritmo, com base única, e ia mudando alguns efeitos em cima da melodia e da letra. Coisa rápida”. Somente quando o som passou a incluir instrumentos musicais é que foi considerado profissional e se popularizou, saindo dos morros e chegando no asfalto.

Ainda de acordo com Igor Rocha, uma das formas possíveis de desconstruir essa marginalização é modificando como as pautas são noticiadas, oferecendo espaço para agentes culturais e profissionais independentes.

“Existem pessoas capacitadas nas favelas que muitas vezes não têm oportunidade de chegar a lugar nenhum porque não se dão espaços para essas pessoas entrarem”.

FORA DA CAIXA

Um certo dia, Cecília França, editora da Rede Lume de Jornalistas, foi questionada por um colega que trabalha em um jornal impresso: “como cobrir a periferia sem focar na violência?”. A resposta foi direta. “É simples, basta não focar na violência”. Para a editora, existem muitos assuntos para dar visibilidade. “Há tantas outras coisas a serem faladas e mostradas, tantas realidades, tantas carências também. Uma cobertura focada apenas na violência não colabora para o empoderamento destas populações nem para solucionar seus problemas”. Com a necessidade que sentiu de colaborar na mudança de realidades, Cecília França criou, em parceria com mais dois colegas, a Rede Lume. Hoje, o projeto conta com alguns colaboradores e é pautado em prol dos direitos humanos.

Apesar da mídia tradicional ainda noticiar de forma estereotipada, a editora acredita que a periferia está organizada para se promover nas mídias digitais. “Especialmente entre os mais jovens, há muitos movimentos se auto divulgando nas redes, uma galera jovem que não aceita mais ser silenciada. Acho isso incrível!” Ela conta que a Rede Lume tem parceria com alguns movimentos para divulgação de necessidades e lutas, e para cobrar ações de autoridades.

O interesse e disponibilidade em ouvir e dar espaço para histórias, contextos e personagens distintos, é o que faz com que o jornalismo independente seja diferente do tradicional, afirma a jornalista Joana Suarez. “A grande vantagem do jornalismo independente é conseguir essa diversidade não só regional, mas essa diversidade de experiências, de localidades. Trazer mais o jornalismo para a periferia, trazer o jornalismo para os negros, indígenas”.

A repórter, que trabalha de forma independente há três anos, já ministrou oficina para profissionais independentes, é uma das diretoras do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, produtora do Cirandeiras Podcast, idealizadora do Redação Virtual e coordenadora do projeto Lição de Casa. “Saí de um jornal diário local de BH para viver a independência, autonomia, liberdade criativa e produtiva como jornalista”. Ela acredita que, com as possibilidades que o ambiente digital oferece, ficou mais acessível produzir conteúdos. “Acho que nunca foi tão possível fazer jornalismo no Brasil”, se referindo às diversas possibilidades de criar conteúdos autorais de diversas formas, como podcasts e vídeos no YouTube.

Para a pernambucana, diferente de quando se formou, portas estão sendo abertas e oportunidades estão surgindo para os jornalistas independentes.

“Quando formei, era impossível fazer freela para A Folha de São Paulo, porque tinha vários jornalistas e não tinha porque contratar freela. Hoje, já fiz vários trabalhos para a Folha. Gente de vários lugares fazem para jornais nacionais, o que faz com que descentralize a pauta nacional”.

O cofundador do portal Jornalismo Revolucionário, Afonso Ribas, acredita que, com a independência editorial, o jornalista consegue construir pautas de serviço público, que trabalha a favor da democracia “e não de interesses corporativos ou políticos, como acontece com muitos veículos tradicionais que se baseiam no modelo de receita com anúncios e conteúdos patrocinados”.

O projeto, que surgiu após terminar a faculdade, foi idealizado com a colaboração de duas colegas. Eles sentiram a necessidade de produzir conteúdos sobre jornalismo independente e criação e distribuição de conteúdos jornalísticos nas mídias digitais. Com a autonomia que o jornalismo independente proporciona, o jornalista acredita que o trabalho pode dar a visibilidade necessária para as minorias marginalizadas. “Acho que isso está no DNA do jornalismo independente, a defesa de uma causa social e de grupos que geralmente não são cobertos pela mídia. Isso acaba, consequentemente, estimulando que outras iniciativas de jornalismo independente surjam seguindo essa mesma vertente”. Ele ainda apresenta um dado que enfatiza a importância desse trabalho. Segundo o jornalista, 50% do território brasileiro não tem cobertura jornalística e, quando é produzido nesses locais, “é de forma enviesada, servindo aos interesses políticos e não aos interesses públicos”.

De acordo com Afonso Ribas, o jornalismo independente aliado às redes sociais pode contribuir na divulgação dos trabalhos culturais periféricos de duas formas. Primeiro, pela representatividade de jornalistas periféricos ao produzir e noticiar para a própria periferia. “É algo que muitas iniciativas de jornalismo independente priorizam. Os conteúdos que vão para os canais são pessoas que vivem nesses contextos, que conhecem essa realidade. Isso facilita muito o processo de divulgação dos movimentos culturais”. A outra forma é pela vivência desse jornalista, o que condiciona uma proximidade. “Há uma proximidade entre o público, as comunidades e os profissionais. Então consequentemente também se torna mais fácil que se difunda essas culturas periféricas”. Ribas ainda cita ser essencial essa proximidade para que as pautas atendam exclusivamente aos interesses desse público.

Ainda que muitos profissionais decidam trabalhar de forma independente, outros não têm muita escolha. É o caso de Kelly Santos. A jornalista conta que o fator principal para ela partir para o jornalismo independente foi pelo racismo que sofreu em processos seletivos. Apesar de nunca ter sofrido diretamente alguma ofensa, percebeu ao longo dos vários processos

que participou que a sua cor influenciou na decisão dos recrutadores. “Dentre todos os processos, era a mais qualificada, tinha experiência, com diversos cursos de especialização”. Ela conta que conseguia passar em várias fases nos processos, mas quando chegava nas últimas entrevistas não era escolhida. “Por muitas vezes me sentia culpada e questionava o que fazia de errado. E aí percebi que o problema não era eu, era de fato a minha cor”, desabafa Kelly.

A jornalista lembra de uma ocasião em que, segundo ela, foi uma “prova concreta”. Indicada para um processo seletivo por uma das repórteres da empresa, ela precisou ser entrevistada por um recrutador alemão. “Já tive informações sobre ele, que era racista. Que ele visa muito a aparência, a cor. Ele falava que uma pessoa tem que ter aparência para estar na TV”. Justamente na fase em que se encontrou com o recrutador, Kelly não conseguiu ser aprovada.

Enquanto ainda estava na graduação, a jornalista sabia que a sua cor poderia influenciar no ingresso em uma empresa. “Tive a sensação de que tem que ser sempre mais do que todo mundo e ter mais do que todo mundo”. Em um dos cursos que participou, ela ouviu de um diretor que é preciso continuar insistindo para que esse padrão mude. “Isso já está mudando porque a gente está lutando para ser visto”. Mesmo não tendo escolhido inicialmente o trabalho independente, Kelly acredita que muitos jornalistas estão aderindo ao freela. “Não só pessoas recém-formadas, que não conseguiram uma oportunidade, mas quem estava sofrendo dentro de uma redação, por pressão, por produzir mais do que se deve produzir, pelo salário”.

VIVER DE FREELA

Para orientar jornalistas independentes, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais oferece ações, como cursos e lives. No site do SJPMG, existe uma aba destinada exclusivamente aos profissionais. Nela, jornalistas encontram uma tabela de referência de valores, além de dicas e modelos de contratos para trabalhos. O diretor responsável pelos direitos autorais e direito de imagem do sindicato, Nilson Lage, conta que, no quesito financeiro, o trabalho jornalístico não é lucrativo. “A profissão nunca foi extremamente rentável”. Apesar disso, ele garante que é possível viver do jornalismo independente.

Para contribuir com o trabalho de jornalistas independentes, o diretor lembra que existem editais que auxiliam os profissionais. “Um exemplo que pode ser usado é a Microbolsa de Jornalismo Investigativo, realizada pela Agência Pública”. O edital, que acontece desde 2013, promove o jornalismo investigativo independente. No concurso, repórteres brasileiros são convidados para explorar pautas que merecem destaque por meio

de um chamado público. Os vencedores contam com apoio financeiro e mentoria de profissionais para desenvolverem as pautas.

Ainda que existam editais de incentivo, muitos jornalistas precisam conciliar trabalhos para manter seus projetos ativos. Segundo Cecília França, a Rede Lume não tem renda. “Cada um dá o que pode para os custos de cobertura”. Para tentar reverter essa situação, a editora conta que os colaboradores estão estudando formas de financiar os custos, com financiamento coletivo, conteúdo patrocinado e assinaturas. O projeto também se uniu ao coletivo nacional de jornalistas que trabalha na campanha “Conteúdo Jornalístico Tem Valor. “A ideia é aprovar, no Congresso Nacional, uma lei que exija o pagamento, pelas empresas de tecnologia, dos conteúdos jornalísticos com os quais elas lucram. Algo como o que já é feito pelo YouTube. Os integrantes da campanha, em todo o país, estão se articulando com parlamentares para formatar uma proposta com condições de aprovação breve”.

O Jornal Revolucionário pretende gerar renda com a venda de infoprodutos, segundo Afonso Ribas. “Também pensamos em testar outras fontes de financiamento para o nosso veículo. Por enquanto, ainda é um projeto paralelo que conciliamos com a CLT”.

Joana Suarez mantém duas campanhas de financiamento coletivo ativas, e acredita na importância de incentivar a contribuição. “Os brasileiros precisam entender que o jornalismo de qualidade tem um custo. Que informação, prestação de serviço, custam, e que se a gente consome precisa apoiar, precisa contribuir, para que continuem existindo”.

DIVULGUE A ARTE DA FAVELA

Omar é um artista periférico do Aglomerado da Serra. Cantor, compositor e artista visual, ele conta que, muitas vezes, o investimento para quem produz arte na periferia é feito pelos próprios artistas e pela comunidade que reconhece a importância da arte. “As grandes mídias pouco valorizam nosso trampo. A gente vive num país que não permite que a juventude periférica cogite trabalhar com arte. O sistema diz pra gente o tempo todo que arte sequer é trabalho. Felizmente, temos convicção do quanto a arte liberta!”. O artista acredita que a sua arte contribui para desconstruir os estigmas. “É som de preto, de favelado, mas isso, por si só, não diz nada. Moro em uma das maiores favelas da América Latina, conheço um monte de artista incrível que é daqui e todos são extremamente singulares, diferentes uns dos outros”.

Para Omar, não ser representado na mídia tradicional contribui para que a cultura periférica continue sendo estereotipada. “A mídia tradicional ainda é chefiada por homens brancos que adoram os privilégios que têm e esse é o maior problema. A manutenção desse privilégio é pautada na

marginalização dos nossos. Não nos querem em lugar de destaque. Sem representatividade, sem gente nossa comandando, nossa cultura nunca será retratada da maneira correta”. Recentemente, o artista foi convidado por uma revista independente para apresentar um cover em uma coluna. A primeira experiência atraiu novos olhares para seu trabalho. “Senti meu trabalho sendo muito acolhido, especialmente com os feedbacks que vieram a partir disso, como alguns novos seguidores nas redes sociais. Mais gente para agregar”.

Quando perguntado como acredita que o jornalismo independente pode contribuir para quebrar esses estereótipos reproduzidos pela grande mídia, Omar cita que a promoção da arte produzida pela periferia e dentro dela pode ser um caminho. “Acredito que um bom caminho seria promover a arte que a periferia produz. Tem muita coisa de qualidade sendo feita todo dia na favela, o que falta é o investimento, a divulgação. Só assim, aos poucos, a reparação histórica vai acontecendo e os estereótipos vão sendo minimizados”.

Omar, artista periférico do Aglomerado da Serra. Foto: Thamara Selva

“Uma caminhada dedicada a quebra de paradigmas e preconceitos no que diz respeito à favela e à toda cultura que vem deste território”. É assim que Marquim D’Morais define seu trabalho. O cantor, que está completando 10 anos de carreira solo, conta que a sua mensagem é transmitida para que outras pessoas conheçam a história da perspectiva de quem vive essa realidade. “Uso a minha arte para furar bolhas que existem para separar a cultura da periferia das culturas da elite”.

Marquim D’Morais, completando 10 anos de carreira solo. Foto: Agência i7

O cantor, que já conseguiu emplacar seu trabalho tanto na mídia tradicional como na independente, afirma que a visibilidade não foi muito significativa. “Existe uma cultura de consumo da cultura baseada no status.

É quase que um troféu consumir alguém que já é conhecido, mas para um artista como eu, com uma visibilidade modesta, não são oferecidos muitos olhares, mesmo tendo construído uma longa estrada artística”. Mesmo não sendo sua prioridade, ele faz parcerias com jornalistas independentes. “Entendo que é preciso ocupar o máximo de espaços possíveis com o que a gente tem de melhor pra mostrar. Porque a continuidade é importante, e não ocupar é o mesmo que deixar que nos matem pela cultura”. Para Marquim D’Morais, o jornalismo independente pode dar oportunidade para que agentes periféricos contem suas próprias histórias, “realizando recortes mais honestos, que não visam ibope”.

 



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