Inês Peixoto e o novo desafio de brilhar online

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Inês Peixoto é uma grande artista mineira, que tem uma premiada e longa trajetória, boa parte compondo o querido Grupo Galpão de Teatro.

Por Luísa Guimarães e André Zorzin, alunes do 8º período de Jornalismo do UniBH

Essa conversa com Inês foi, antes de qualquer coisa, um observatório de como é delicioso presenciar o mais puro amor pela arte. Ela não deixa de trazer os desafios de exercer seu ofício, ainda mais em tempos tão duros, mas, ainda assim, fica nítido em sua fala o enorme prazer pelo que faz.

CACAU: Inês, desde o início da pandemia existe um debate sobre a definição do teatro online. Teatro feito através da tela dos computadores e smartphones é teatro ou é audiovisual?

INÊS PEIXOTO: Isso é um debate que está tomando conta da gente, e a gente tem muita vontade de classificar as coisas. Às vezes eu penso que a gente está vivendo um tecnovivo, estamos fazendo um teatro mediado pela tela, que evidentemente não é o teatro em sua essência, pois o teatro na sua essência é uma arte presencial. Então, estamos vivendo um momento com mediação tecnológica em nossos encontros artísticos. Mas acho que isso não nos obriga a criar, agora, uma definição se é teatro ou não é teatro. Imagino que estamos vivendo um momento de transformação, em que o uso dessas tecnologias se intensificou, novas linguagens estão surgindo, novas abordagens que a gente não olhava para elas, porque a gente não precisava delas. Alguns artistas já usavam essas tecnologias, como Matías Zampieri, um cara que já trabalhava usando essas plataformas que conectam as pessoas, cada uma no seu país, a distância. Ele já usava a tecnologia como um veículo de expressão para o teatro, e isso hoje virou nossa única maneira de existir, de fazer existir o nosso encontro com o público. Eu prefiro encarar o momento que está se alongando, angustiantemente, como um momento de descobertas, de entrega e descobertas de outras linguagens. Evidentemente é algo que mistura o teatro e o audiovisual, a gente percebe isso pelas várias experiências que têm surgido, que elas não são nem uma coisa, nem outra mesmo, é um híbrido que está acontecendo. Estamos no meio dessa transformação.

CACAU: Hoje, dia 04 de maio, você estreia Criadores e Criaturas, juntamente com Eduardo Moreira. Pode nos contar um pouco do que esperar dessa experiência inspirada na obra de Luigi Pirandello?

INÊS PEIXOTO: É uma experiência audiovisual. Nós fomos contemplados com o edital da Lei Aldir Blanc, de auxílio emergencial, e criamos um projeto com quatro curtas curtíssimos. Eles variam de 3 a 4 minutos, livremente inspirados na obra de Pirandello, abordando essa questão do conflito, uma conversa, entre o autor e o personagem. Isso se chama Criadores e Criaturas. Dois curtas foram realizados por mim, e dois pelo Eduardo. Ele participa dos meus, eu participo dos dele. Eu criei o roteiro do meu curta, eu dirigi, fiz a iluminação, direção de arte, fiz a montagem, e o Eduardo foi meu ator parceiro. A minha experiência, nos meus dois curtas, traz uma imersão minha no audiovisual, uma imersão na montagem também, que tem me fascinado bastante. Eu voltei para um curso de cinema e audiovisual, que eu tinha largado em 2011, retornei agora na pandemia e estou muito encucada com esse estudo do cinema, do audiovisual, estou muito interessada mesmo em montagem, em roteiro. Então, foi um momento de oportunidade para abordar um tema com pensamento de algo que fosse ágil, porque são trabalhos para serem postados no Instagram, no Facebook, e no meu canal do YouTube. E o Eduardo também fez mesma coisa com os dois curtas dele: escreveu, dirigiu. A gente descobriu uma linguagem, e como fazer essa imersão também no pensamento do Pirandello, que tem essa questão da identidade, essa discussão entre personagem e autor, o que você é e o que você não é. Enfim, é um autor muito instigante, do teatro, e que tem uma obra muito bonita, contos também. Então foi isso, foi muito prazerosa essa imersão, essa experimentação, nessa linguagem.

Cartaz de Criadores e Criaturas, que estreia nesta terça, dia 04 de maio. Divulgação.

CACAU: Quais os desafios enfrentados por uma atriz na pandemia? Desde o processo de criação aos ensaios e até a estreia.

INÊS PEIXOTO: Os desafios enfrentados por uma atriz são sempre os mesmos, nesse momento agora de pandemia, nessas experiências que a gente faz, mas gravadas. Você tem a mesma preocupação criativa, o mesmo envolvimento criativo, digamos assim. As experiências ao vivo dão uma emoção. Quando a gente apresenta online, ao vivo, como foi Histórias de Confinamento. Era aquela dor de barriga, porque é uma tecnologia que a gente depende de uma transmissão, que está sendo coordenada por uma outra pessoa, que era o Tiago, que estava no Rio de Janeiro, e nós outros todos aqui em Belo Horizonte. É algo que a gente não domina, então a gente entra com uma emoção, sempre um encontro com o público. E, na pandemia, esse desafio de descobrir maneiras de continuar criando, de continuar produzindo, trabalhando, visto que esse impedimento do teatro colocou os atores, que são muito ligados ao teatro, em uma situação muito difícil. Então, a gente está inventando maneiras de continuar criando. Eu acho que esse é o grande desafio. Cobrir linguagens, possibilidades de manter esse encontro com o público, com a mediação da tecnologia, dessa câmera e do online, e do mundo internético.

CACAU: O Galpão Cine Horto passou a ofertar seus cursos exclusivamente online, assim como todas as escolas de Belo Horizonte. Ensinar inglês online não é a mesma experiência que ensinar teatro online. Como tem sido esse desafio dos cursos de teatro virtuais?

INÊS PEIXOTO: Algumas modalidades de ensino a distância existiam, então o Galpão Cine Horto teve que fazer uma série de estudos e entender com pessoas que começaram e já davam aulas em plataformas online e descobrir uma maneira de manter os cursos ativos. O Galpão Cine Horto trabalha com crianças também, tem um grupo de professores que são artistas lá, são atores, pedagogos. Se organizaram desde o ano passado para que os cursos se mantenham, e o próprio Galpão desenvolveu oficinas. A gente também tem se reinventado nesse campo de compartilhar conhecimento, experiência dentro da área das artes cénicas. Também temos desenvolvido algumas oficinas e estamos descobrindo mais como manter cursos nesse espaço. Tem que ir realmente experimentando, utilizando ferramentas, novas propostas que podem trazer um pouco de calor para esse convívio intermediado pela tela. Acho que é uma adaptação o que todo mundo está passando, e nesse quesito de aulas de teatro é realmente algo que os professores do Cine Horto, nós, temos tentado encontrar maneiras também para manter esse campo de atuação vivo.

CACAU: A falta de apoio à classe artística, aos profissionais prestadores de serviços, e a pouca valorização da arte por parte dos nossos governantes ficou mais evidente durante a pandemia?

INÊS PEIXOTO: Eu acho que a gente está atravessando um período complicado. Politicamente a gente está no olho do furacão de uma pandemia e de um desgoverno. O nosso país está realmente à deriva, e quando a gente está à deriva na saúde, na educação, na ética, no meio ambiente, tudo devastado, destruído, e quando você me fala da valorização da arte, a gente vive um momento em que o governo quer destruir os artistas, quer destruir um pensamento crítico, sensível. É um governo com políticas que querem acabar com qualquer sentido de subjetividade, querem colocar as pessoas cada vez mais obtusas e focadas somente em dinheiro. Então a gente vive um momento pavoroso para a cultura. Estamos resistindo. A arte tem salvado muita gente nessa pandemia. Mas não existe uma valorização dessa economia criativa, do poder da economia criativa no Brasil, e a gente tem uma economia criativa que movimentava o país de uma maneira incrível, gerando empregos. Ou seja, isso está desmontado, as políticas públicas de apoio à cultura estão sendo desmontadas em uma clara perseguição à arte no Brasil. A gente, infelizmente, vive isso hoje.

CACAU: O Galpão fez uma experiência virtual ano passado, com a qual eu acho que muita gente se identificou bastante em vários momentos. Conta um pouquinho para gente como foi todo o processo de criação de Histórias de Confinamento? Há alguma curiosidade, alguma história que não foi parar na peça?

INÊS PEIXOTO: Essa experiência foi muito bonita, foi até uma ideia que eu dei. Quando nós começamos a pensar em ações virtuais, eu propus essa campanha para que as pessoas nos contassem histórias do cotidiano do confinamento da pandemia. Nós recebemos mais de quinhentos relatos. Pedimos que fossem histórias curtas, e podia ser verdade ou mentira, alguma história que tivesse um diálogo, uma história viva em relação a esse momento. E a gente recebeu relatos do Brasil inteiro, relatos de todos os níveis: trágicos, cômicos, fantasiosos, delirantes. O material era muito bonito, muito cotidiano, muito de dentro das casas, que é o que todo mundo está vivendo. Isso quando a gente estava pensando que a pandemia ia passar, e acabou que realmente virou uma experiência no audiovisual. Uma mistura de algumas imagens da cidade com os oito atores que encenaram. Cada um encenou duas histórias, a gente compôs um movimento dirigido por mim, pelo Eduardo e pelo Tiago Sacramento, que é esse profissional do Rio de Janeiro que desenvolveu essa tecnologia legal para transmissões ao vivo de espetáculos, então cada um fazia da sua casa. Eu e Eduardo descobrimos com os atores uma geografia íntima, o melhor lugar da casa onde podia colocar aquela história. Fizemos a opção de escolher histórias, pequenos monólogos, que pudessem ser feitos num tempo-espaço único. Então era como se uma pequena câmera entrasse em um grande prédio e assistisse ali um pouco do que cada um estava passando naquele momento, ao vivo. E foi uma experiência muito legal, nós participamos de três festivais, tinha uma estrutura muito interessante dessas imagens da cidade à noite, e a partir de uma espinha dorsal que criamos, de um movimento de imagens, entrando cada hora uma história, e cada ator tinha dois momentos no espetáculo. Foi muito interessante esse processo, e foi muito legal nos colocar também nesse jogo do ao vivo, que a gente ensaiou e entendia que enquanto um fazia, o outro estava no ar. Ou seja, nos colocou em uma proximidade do nosso ritual de teatro, que a gente começava a experiência e ela durava aproximadamente 50 minutos, e a gente tinha que ter aquela atenção o tempo todo, sabendo a hora certa de abrir câmera, fechar, essa atenção que o espetáculo de teatro exige, essa presença que o teatro exige. A gente ali, no virtual, e com essa presença. Foi uma experiência muito legal para a gente.

CACAU: Em abril, Órfãs de Dinheiro, escrito e interpretado por você, virou podcast com uma cena no Festival Breves Cenas de Teatro 2021. Como foi a experiência de participar desse processo?

INÊS PEIXOTO: O “Órfãs de Dinheiro” foi um monólogo que escrevi, um projeto bem autoral, a partir de várias pesquisas que fui fazendo, inspirações. Quando teve esse festival, a Bia, que faz a produção para mim, viu esse edital e escreveu a primeira cena do espetáculo. O “Órfãs” é um texto, um monólogo em que eu tenho uma canoa azul no palco, e eu vivo a história de três mulheres. A canoa serve de suporte para as três histórias. A primeira mulher está fugindo de um garimpo já com mais de 40 anos, foi vendida para a exploração sexual aos 11 anos, e conseguiu depois de quase 30 anos, fugir desse lugar. A segunda é uma imigrante com uma criança, tentando passar em uma fronteira. E a terceira é uma empregada doméstica que vai para o parque encontrar o namorado, está grávida e ela acaba sem saber se o cara vai voltar ou não. Essa primeira cena foi inscrita no podcast “Breves Cenas”. Quando eu fui para a reunião, foi muito legal, porque eu fui provocada pelo festival. Eu tive dois tutores, que foram trabalhando comigo em uma cena que já existia no teatro e teria que existir de outra maneira, no formato de podcast. Nós ficamos um mês tendo encontros, e eu fui adaptando a dramaturgia dessa cena para dez minutos, sendo que o texto dela na íntegra tem mais de vinte minutos. Eu fui enxugando essa cena, e fui mudando a interlocução, porque na peça, eu estou ali no meio de um igarapé, fugindo e remando a canoa, e no podcast eu tive a oportunidade de experimentar essa cena como uma paisagem sonora, que foi muito interessante descobrir. Eu fiz uma captação de som dentro do Galpão, andando pelo espaço, então o podcast trouxe uma realidade. Foi uma experiência muito legal mesmo.

CACAU: Inês, o que você acha que a arte trouxe de conforto e alento para esse momento que a gente está vivendo, nos tempos em que o teatro entrou dentro das casas das pessoas?

INÊS PEIXOTO: Eu acho que a fruição da arte é muito importante para o ser humano, em todos os sentidos. No sentido da sensibilização, do conhecimento, da crítica, da consciência. A gente precisa da arte. E nessa pandemia nossa arte está salvando muita gente, apesar da gente estar fazendo tudo no mesmo espaço da tela, mas a arte está ali. O que seria das pessoas sem assistir um teatro, sem ver um filme, sem ler um livro, sem tocar uma música? A arte com ou sem pandemia é fundamental para o homem, e agora então, nem se fala. Ainda bem que temos essa fruição dentro de casa. O teatro entrando nas casas. Isso é muito importante.



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