Imunes à ciência: O crescimento do movimento antivacina e suas implicações

Por Fernanda Freitas, 8° período de Jornalismo

A Organização Mundial da Saúde classificou, em 2019, o movimento antivacina como uma das dez maiores ameaças à saúde global. Com a pandemia provocada pelo novo coronavírus, surge uma ótima oportunidade para o movimento angariar novos adeptos. No entanto, não é de hoje que os antivax espalham desinformação e teorias mirabolantes internet afora, causando transtornos e preocupação aos governos e à saúde pública mundial.

A criação de teorias da conspiração não é um fenômeno da modernidade. O incêndio de Roma (64 d.C.), por exemplo, ainda hoje é um enigma não solucionado, e a dúvida se o responsável foi Nero ou seus opositores – os cristãos – perdura. A capacidade mental humana de buscar similaridades e conexões em eventos é universal e necessária para nossa sobrevivência, como afirma Yuri Castelfranchi, professor associado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

“A raiz da ciência é a mesma raiz do pensamento conspiracionista. A diferença é que no pensamento científico essa formulação de hipóteses, conexões e busca de padrões mais ou menos fantasiosas é regulada e controlada pela necessidade de verificar, com base em dados, fatos e experimentos. As teorias de conspiração não têm esse segundo fator, que vai averiguar se uma hipótese vai fazer sentido ou não.”

A primeira vacina da humanidade foi a da varíola. A doença matou, no século XVIII, 400 mil europeus anualmente. O caminho para sua erradicação começou quando, em 1796, o médico inglês Edward Jenner percebeu que as mulheres que contraíram varíola bovina por meio da ordenha eram imunes à doença humana. Para confirmar essa hipótese, Edward criou o método que mais tarde ficou conhecido como imunização. Devido a cura ter surgido da Variolae vaccinae, a varíola bovina, o processo foi batizado de vacina.

A Revolta da Vacina ocorreu em novembro de 1904. Créditos na imagem.

No Brasil, a vacinação contra a varíola foi declarada obrigatória, em 1834, para crianças, e, 1846, para adultos. Mas foi apenas em 1904 que o governo pôde instaurar a cobertura nacional da vacina, com o auxílio do médico sanitarista Oswaldo Cruz. Horrorizados com a possibilidade de ter injetado em si líquido do pus de vacas doentes, ou com os boatos de que a vacinação traria feições bovinas, a população se opôs fortemente à campanha e foi para as ruas protestar. O episódio ficou conhecido como Revolta da Vacina.

No outro extremo da América, ainda em 1885, o líder antivacinacionista Dr. Alexandre M. Ross espalhava, por toda Montreal, panfletos contra a campanha de vacinação que almejava acabar com a epidemia de varíola. Nos tais panfletos, a doença era minimizada e diziam que as vacinas causavam doenças como sífilis, cólera e tuberculose, sobretudo reforçavam que não funcionavam. E essas são táticas usadas ainda hoje, 135 anos depois, como aponta pesquisa de Paula Larsson, aluna da Universidade Oxford.

Desenho ilustrando um trabalhador detido sendo vacinado à força. Imagem: Biblioteca Digital HathiTrust.

Superando os desafios da imunização, a varíola foi erradicada há mais de 40 anos. A última pessoa infectada de forma natural foi o somali Ali Maow Maalin, em 1977, que pouco tempo depois já estava curado.

Vacina x autismo

Há pouco mais de 20 anos, o movimento antivacina sofreu um boom. Em 1998, a revista científica Lancet publicou o estudo do médico britânico Andrew Wakefield, que relacionava a vacina tríplice viral – que previne sarampo, caxumba e rubéola, ao autismo.

Mas o estudo começou a ser questionado e foi descoberto, em 2004, que o médico havia feito um pedido de patente de uma vacina contra sarampo, e ficaram claros seus interesses pessoais. A Lancet então se retratou e removeu o estudo de seu acervo. O Conselho Geral de Medicina do Reino Unido classificou Andrew como inapto para o exercício da profissão, em 2010. Hoje, a relação entre autismo e vacinas é descartada pela comunidade científica.

Mas o estudo de Wakefield já havia plantado dúvida e insegurança em alguns cidadãos, e foi utilizado em peso para promover o ressurgimento de um forte movimento antivacina. A pesquisa ainda hoje é utilizada como base para o argumento de que diversas vacinas causam autismo – mesmo essas hipóteses já tendo sido refutadas cientificamente. Entre as preocupações dos adeptos ao movimento estão a segurança das doses, o medo de expor bebês e crianças à muitas substâncias, e a desconfiança sobre a indústria farmacêutica. 

Impacto das fake news

Nos últimos anos, os dados de vacinação têm sido alarmantes. Em 2019, os casos de sarampo no mundo triplicaram em relação ao ano anterior, em 2018. Segundo dados do Ministério da Saúde, no ano passado nenhuma das 15 vacinas alcançou a meta de atender 95% do público-alvo. Foi a primeira vez que isso ocorreu nos últimos 25 anos, desde o início da coleta de dados. Ações do governo como o Movimento Vacina Brasil e Saúde sem fake news buscam reverter o cenário.

Em 2020, o cenário se mostra mais preocupante, uma vez que vacinas contra a febre amarela, segunda dose da tríplice viral e hepatite B para recém nascidos de até 1 mês registraram índices abaixo dos 60%. Das 16 vacinas disponibilizadas pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI), duas conseguiram alcançar mais de 70% de cobertura.

Um estudo de 2019, feito pela organização não governamental Avaaz e Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), trouxe o impacto das fake news nas vacinas, com recortes de gênero, escolaridade e classe social. A pesquisa aponta que a camada mais pobre e com menor escolaridade da população – principalmente mulheres -, é a que mais avalia as vacinas como totalmente seguras. E consequentemente é a menos impactada pela desinformação por preferirem a mídia tradicional e utilizarem os serviços do Sistema Único de Saúde.

A pesquisa também mostra que 61% dos entrevistados já receberam informação falsa sobre vacinas nas redes sociais. Há uma epidemia de desinformação que se sustenta principalmente pelas mídias digitais, como no Youtube e redes como Facebook e Whatsapp.

O professor Yuri Castelfranchi corrobora essa tese e ressalta que a fala de governantes pode trazer impactos reais para a aceitação ou descredibilização dos agentes de saúde pública. “Essas pessoas não têm problema de acesso à informação, elas não querem acessar aquela informação. Eles não querem usar o site de fact checking porque na visão deles vai ser um site comunista, ou pedófilo… ou qualquer outra coisa que o demagogo, o organizador, está colocando na cabeça deles, que seja a teoria da conspiração adequada”, afirma. 

Coronavírus

A pandemia do novo coronavírus deixou esse quadro ainda mais delicado. Principalmente nos países em que o governo não encarou o problema – a exemplo do Brasil e dos Estados Unidos – as fake news contaminaram o debate. Não à toa, os dois países lideram nos números de mortes pela Covid-19, com 240 mil e 162 mil mortos respectivamente – segundo dados do dia 11 de novembro.  

O ‘palanque’ de Donald Trump e Jair Bolsonaro (sem partido) para propagarem seu discurso foram as redes sociais – principalmente o Twitter – no chamado populismo digital. De consumo de produtos de limpeza à hidroxicloroquina e ivermectina, ambos presidentes minaram a credibilidade dos órgãos de saúde nacionais e internacionais.

As desinformações chegaram a tal ponto que Twitter e Facebook precisaram tomar medidas. O Twitter agora coloca tarjas informativas de que determinadas publicações contém fake news. No Facebook, quando se pesquisa o termo antivax, uma mensagem aconselha se informar pelos órgãos responsáveis.

Com a iminência de uma vacina capaz de combater o coronavírus, Bolsonaro deu declarações, no mínimo, simpáticas à causa antivacina, quando defendeu a não obrigatoriedade da vacinação e disse não ser questão de Justiça sua obrigatoriedade. Desse modo, segundo o presidente, tal questão não poderia ser estabelecida por nenhum juiz.

Governador de São Paulo, João Dória (PSDB) se posicionou de maneira antagônica a Bolsonaro desde o início da pandemia. A reação de Bolsonaro à iniciativa do Instituto Butantan, que é vinculado à Secretaria de Saúde de São Paulo, de testar a vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac, ressaltou a disputa. 

O presidente comemorou quando, no último dia 9, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) suspendeu os testes clínicos com a CoronaVac por causa de um efeito adverso grave. E declarou, em resposta à um seguidor no Facebook que a vacina chinesa causaria “Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Doria queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”. Posteriormente, foi provado que a morte do voluntário, até então o efeito adverso, foi decorrente de suicídio. Assim, a Anvisa autorizou a retomada dos testes na quarta-feira, dia 11.

O crescimento do movimento antivacina em meio à pandemia é uma ameaça real. Pesquisa da Universidade de Cambrigde aponta que 12% da população no Reino Unido não se vacinaria contra a Covid-19. Na França, esse número chega a 26%, segundo a revista Lancet. No Brasil, uma pesquisa encomendada pela CNN Brasil, e realizada pelo Insituto Real Time Big Data, aponta que 46% dos entrevistados afirmaram que não tomariam uma vacina de origem chinesa. A rejeição se mostra menor no que diz respeito a uma vacina da Rússia (38%), de Oxford (22%) ou da Alemanha (22%).

“Os cientistas decidiram descer em campo, se tornarem figuras públicas, intelectuais públicos. No Brasil, temos muitos exemplos. Ao meu ver, nesse momento de polarização, esses dois pólos estão se fortalecendo”, explica Yuri Castelfranchi.  O professor acredita que o movimento antivacina tenha se fortalecido em meio à pandemia, mas ressalta o aumento da visibilidade do jornalismo, da divulgação científica e dos cientistas.

Para Castelfranchi, nesse momento, apenas o fact checking não é suficiente para encarar a crise de confiança nas instituições. “O problema não é injetar mais informação correta nessa tempestade de desinformação, o problema é construir novos mecanismos de uma reconstrução de uma relação de confiança entre a mídia e o público, entre as universidades e os públicos”, finaliza.

Como nasce uma vacina?

Como ocorre o processo de desenvolvimento de uma vacina, até chegar à população é o tema do novo podcast da CACAU – Comunidade de Aprendizagem em Comunicação e Audiovisual. Você pode ouvir a conversa no perfil da Cacau no SoundCloud: 



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