Futebol e design: modernidade vs tradição

O futebol moderno traz consigo uma dualidade, que, se não for bem equilibrada, pode acabar com o jogo como nós conhecemos.

Por Thiago Toledo, aluno do 6º período de Publicidade e Propaganda

Os times de futebol, como marcas, também são representados visualmente por suas cores, símbolos, padrões e por seus logos/escudos, e não estão isentos da necessidade de readequações e modernizações ao longo do tempo. Porém, diferentemente de marcas comuns, os times de futebol contam com um fator que pode facilitar ou dificultar essas mudanças visuais: a paixão de seus torcedores.

O final da década de 2010 marcou o início de um forte movimento de mudanças radicais nos escudos de vários clubes ao redor do mundo. O primeiro a seguir por este caminho foi o Manchester City, da Inglaterra. Ao buscar aliar o moderno ao resgate da identidade do clube, a equipe inglesa trocou a sua águia por um logo baseado nos dois primeiros escudos do clube.

 

Evolução dos escudos do Manchester City.

 

No ano seguinte, a Juventus, da Itália, indo na contramão do City, puxou a fila para uma onda de minimalismo nos escudos de futebol, que se destacou por fortes brandings, pelo simbolismo pensado de forma milimétrica, priorizando a forma com o uso da Gestalt, e pela completa, ou quase completa, dissociação dos clássicos escudos dos clubes que seguiram por este caminho. Após o time italiano, vários times do mundo todo, como o Nashville SC, dos Estados Unidos, o Nantes, da França, e o Athletico, do Brasil, seguiram pela mesma linha, transformando os seus escudos em logos, ampliando as possibilidades de aplicação e fortalecendo o posicionamento mercadológico de cada clube.

 

Evolução dos escudos da Juventus, seguida pela mudança radical de 2017.

 

Antigo escudo do Nahville SC (esq) ao lado do novo (dir).

 

Antigo escudo do Nantes (esq) ao lado do novo (dir).

 

Os vários escudos do Athletico Paranaense ao longo de sua história.

 

No Athletico Paranaense, a mudança não parou apenas no logo. A grafia do nome do clube também foi alterada, resgatando a letra “H”, que, além de diferenciar o clube dos demais Atléticos do país, estava presente no nome quando o clube foi fundado e havia se perdido após as adaptações do português e as mudanças no acordo ortográfico. O fato de ser o único “Athletico” do país agradou grande parte da torcida rubro-negra.

Essa exclusividade também foi algo pensado na construção do escudo. O formato que faz uma referência a um furacão, símbolo e apelido do clube, foi construído pensando na diferenciação dos demais clubes do Brasil e do mundo.

Do ponto de vista mercadológico e de branding, as mudanças supracitadas seguem uma lógica interessante e bem sólida, principalmente por serem trabalhos de design muito pensados e executados com perfeição. Porém, como amante do esporte, de sua história e de tudo o que ele representa, não consigo me encantar com essas mudanças. Colocar o clube como marca à frente do clube, como objeto de devoção de milhares, ou até mesmo, milhões de pessoas, é um pensamento que me incomoda bastante, mas que, infelizmente, é o destino que se apresenta para o futebol.

O esporte movimenta cada vez mais dinheiro, principalmente na Europa, com cotas de transmissão, premiações e patrocínios milionários, que se refletem nas altas cifras envolvidas nas contratações e salários de jogadores. Nessa realidade, os mercados mais endinheirados vêm se tornando os lugares mais interessantes para excursões e torneios amistosos, fortalecendo a marca dos times nos países visitados, abrindo também oportunidades para parcerias milionárias. Pensando nos clubes de futebol, estas viagens não impactam negativamente em sua relação com as suas torcidas, uma vez que estes seguem disputando suas competições oficiais em seus próprios domínios, próximos de suas torcidas e de suas raízes. Mas, pensando no caso da Seleção Brasileira, por exemplo, os impactos negativos saltam aos olhos.

A preferência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) por partidas amistosas disputadas longe do país, sendo frequentemente levadas para o Oriente Médio, Estados Unidos ou Japão, contra adversários de menor capacidade esportiva, não só minou o crescimento técnico da nossa Seleção, como também distanciou o povo brasileiro do time que representa a sua pátria.

Não é incomum encontrarmos pessoas que torcem por outras seleções, menos incomum ainda é encontrar pessoas que torcem efetivamente contra o Brasil. O povo brasileiro perdeu o sentimento de identificação com a própria Seleção. A maior campeã da Copa do Mundo não desperta em seu povo a mesma paixão que despertou outrora. Além das várias denúncias de corrupção e outros crimes repugnantes dentro da CBF, e da associação das cores e símbolos nacionais à políticos de moral e intelecto duvidosos, a ganância pelo dinheiro, acima de tudo, está matando a paixão de milhões de pessoas.

O futebol, que por diversas vezes nos provocou as mais variadas emoções, caminha cada dia mais para se tornar apenas um ramo de negócio. Frio, antidemocrático e movido pelo lucro.



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