Ensino remoto destaca disparidade no acesso de surdos à educação

Educação básica de surdos e ensino remoto apresentam-se hoje como pauta de discussões e busca de soluções para os entraves presentes.

Por Alexandre Santos. aluno do 7º período de jornalismo do UniBH

A forma como a educação de pessoas com surdez é conduzida já vem sendo discutida há algum tempo. Dilemas como a necessidade ou não de escolas especiais e a falta de acessibilidade na estrutura escolar são pautas frequentes no debate sobre inclusão. A crise sanitária, decorrente do novo coronavírus (SARS-Cov 2) trouxe à tona novas dificuldades e desafios para educadores e, principalmente, para quem vive com surdez. 

O processo de adaptação ao modelo de ensino remoto foi difícil para a maioria dos estudantes brasileiros. É o que revela a pesquisa divulgada em outubro de 2020 pela Associação Brasileira de Educação à Distância (ABED), que apontou que 67% dos estudantes entrevistados tiveram dificuldade de estabelecer e manter uma organização diária de estudos. A pesquisa da ABED ainda ressalta que 29,2% dos estudantes têm dificuldade de acesso à internet, 10,8% não tem um aparelho próprio em casa e 63,5% tem a banda larga de internet limitada. 

Se para pessoas ouvintes, com acesso à imagem e ao som, o processo de adaptação ao ensino remoto tem sido doloroso, podemos dizer que para pessoas com surdez o caminho tem ainda mais obstáculos e barreiras para conseguir ter uma aprendizagem  de qualidade. 

A professora do curso de Pedagogia e História, e supervisora do Laboratório Multidisciplinar da Educação do UniBH, Tatiana Quites, explica que o processo de aprendizagem dos surdos é historicamente recheado de segregação e preconceito, com injustiças sofridas durante séculos com a imposição da língua oral e pela busca da “cura” em uma educação assistencialista. 

No entanto, a professora pondera que, a partir da oficialização da Língua Brasileira de Sinais (Libras), com a Lei 10.436 de 24 de abril 2002 e, posteriormente, sua regulamentação por meio do decreto 5.626 de 22 de dezembro de 2005, pôde-se perceber um avanço na educação dos surdos, que passaram a ter  garantia no  atendimento às suas especificidades educacionais, linguísticas e culturais.   

“Contudo, há ainda um longo caminho a ser percorrido, pois ainda há uma certa imposição da Língua Portuguesa e muitas vezes o único recurso que se tem é a presença do intérprete.Neste momento de pandemia, a maioria dos surdos não possui equipamentos tecnológicos e nem internet satisfatória, além do mais, os materiais e produtos não estão em sua língua de instrução, a língua de sinais”, ressalta. 

A estudante de Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Júlia Mara, formada em Libras pelo Centro de Extensão da Faculdade de Letras (Cenex – Fale),  destaca que para manter o ritmo de aprendizado de pessoas com surdez, eles devem ter acesso a uma boa câmera, material de estudo e, sobretudo,  à internet de qualidade. 

“A Libras é uma língua visual e gestual. Não tem como um surdo participar da aula com a câmera desligada. No último semestre acompanhei as aulas de Letras-Libras na UFMG, como monitora, e foi um grande desafio. Imagine que você está em aula e a câmera trava, você vai passar raiva, mas provavelmente vai seguir ouvindo o que o professor está falando, mas no caso do aluno surdo, se a imagem trava, ele perde parte significante do conteúdo”, argumenta. 

Júlia Mara gravando uma transmissão em Libras (Foto: Acervo pessoal)

Sobre isso, a professora Tatiana alerta que a instituição de ensino deve não só  acolher o aluno com surdez em seu meio acadêmico, mas  também fornecer os subsídios necessários para que sua aprendizagem e permanência sejam garantidas,  como o intérprete em sala de aula, adequação das atividades e avaliações, tendo em vista que a primeira língua deles é a língua de sinais e o português é a segunda língua. 

A Associação do Surdos de Minas Gerais (ASMG) declarou que é importante que todos os envolvidos  no processo de educação da pessoa surda, professores e  familiares, tenham interesse em criar condições para o ensino. “É preciso assumir e aceitar os desafios dessa nova língua, de uma nova cultura”, encerra. 

Um período de adaptação 

Morador do bairro São João, em Betim, município localizado na região metropolitana de Belo Horizonte, Caick Franckllyn Silva (28), que é formado em Gestão de Recursos Humanos, atualmente cursa  o 5º período de pedagogia, seu segundo curso superior, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

Caick, que é surdo, revela que o período de adaptação ao ensino remoto, no princípio da pandemia, foi desafiador, pois, segundo ele, sua carga de estudo e trabalho dobraram. Apesar da adaptação turbulenta, o estudante relata que não falta apoio da universidade, que disponibiliza um intérprete de Libras para acompanhar as aulas virtuais, assim como acontecia nas aulas presenciais. 

“A UFMG já tomou providências  de oferecer intépŕetes de Libras no ensino remoto e no presencial e as adaptações foram positivas porque eles já estavam preparados para atender essa demanda.  E os professores foram muito parceiros com os intérpretes e  disponibilizaram os materiais para que eles estudassem antes de traduzir no momento da aula”, explica o estudante. 

O estudante de pedagogia relata que, apesar de não ter sido fácil, hoje ele já se sente adaptado ao modelo de ensino, ainda que prefira o ensino presencial. 

Caick Franckllyn Silva, estudante de pedagogia pela UFMG
Libras: Uma linguagem brasileira 

A história da Língua Brasileira de Sinais (Libras) remonta à época do Brasil Império, quando, em 1855, o Dom Pedro II convidou o professor francês Ernest Huet, para dar início a um projeto de educação para pessoas surdas, e o mesmo, ficou responsável pela fundação do Imperial Instituto dos Surdos-Mudos, atualmente batizada de Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines). 

Foi graças ao trabalho desenvolvido por Ernest Huet, que a Libras foi constituída, a partir da junção dos sinais franceses com os sinais utilizados pelo abade L’Épée, considerado o pai dos surdos. Em abril de 2002, a linguagem de sinais brasileira passou a ser reconhecida como a língua oficial das pessoas surdas no país, posteriormente sendo regulamentada, graças à promulgação da constituição de 1988. 

Júlia Mara, formada em Libras pelo Centro de Extensão da Faculdade de Letras (Cenex – Fale), acredita que o único meio de igualar a educação de pessoas surdas e ouvintes é incluir o ensino de Libras na grade curricular das escolas de base. 

“O que realmente mudaria o cenário e igualaria a educação de ambos, seria tornar obrigatório o ensino de Libras em escolas públicas e privadas, afinal a Libras é uma língua oficial do país”, encerra.

 



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André Barros

Ótima matéria! Acessibilidade é tudo.