Diversidade religiosa e o obstáculo da intolerância

Por Thayane Domingos, estudante do 7° período de Jornalismo

21 de janeiro é dedicado, desde 1950, ao Dia Mundial da Religião. Essa data foi escolhida por uma Assembleia Religiosa Nacional dos Bahá’ís, religião monoteísta que surgiu no século XIX, através dos ensinamentos de Bahá’u’lláh, um líder religioso persa.

A proposta da data é promover o respeito, a tolerância e o diálogo entre todas as religiões existentes no mundo. No Brasil, tal período reforça proposta como o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, que é instituído pela Lei n° 11.635, de 27 de dezembro de 2007. A ideia principal é incentivar a convivência pacífica entre diferentes ideologias e doutrinas para evitar a intolerância religiosa. 

Na data, o Brasil também rememora o dia do falecimento da Iyalorixá Mãe Gilda, do terreiro Axé Abassá de Ogum (BA), que foi vítima de intolerância por ser praticante de religião de matriz africana. Iyalorixá teve sua casa atacada e foi acusada de charlatanismo. Vítima de infarto, faleceu no dia 21 de janeiro de 2000.

A prática de intolerância religiosa no país cresce, de acordo com dados do Disque 100, um serviço de proteção aos direitos humanos. No ano de 2019, no primeiro semestre, foram registradas 354 denúncias, um aumento de 67,7% em comparação ao ano de 2018. A maioria dos relatos foram feitos por praticantes de religiões de matriz africana.

Foto: Rodolfo Clix – Pixels.
PRECONCEITOS 

O Brasil é classificado, por lei, como um Estado laico, o que dá direito às pessoas de praticarem suas crenças. No entanto, há uma outra realidade: a intolerância e os preconceitos que ainda persistem no país. Pesquisa realizada pelo Datafolha, publicada em 13 de janeiro pelo jornal Folha de São de Paulo, aponta que 50% dos brasileiros são católicos, 31% evangélicos e 10% não têm religião. 3% são espíritas, 2% umbandistas, candomblecistas e outras religiões afro-brasileiras, 1% ateu e 0,3% judaica. 

Todas passam por preconceitos e isso se dá por diversos fatores. Para o Padre Simoné Pierre, da igreja católica Santa Margarida Maria Alacoque, esse fator se dá por falta do conhecimento sobre o outro. “Os preconceitos nascem da ignorância, da falta de conhecimento do “outro”, que é diferente de mim. Nasce do medo e das mentiras que acreditamos. Por isso é importante a formação, a abertura de mente e de coração, como nos ensina Jesus”, defende. 

Exemplo é o fato de que muitos preconceitos acontecem dentro do próprio catolicismo. Isso se dá, segundo Simoné, pela falta de leitura e conhecimento da bíblia. “Tem vários trechos do evangelho que nos mostram como Jesus não tinha preconceitos”, observa o padre.

Apesar de o Brasil ser representado, majoritariamente, por católicos, muitos ainda sofrem preconceitos, como Rafaela Assis, estudante de Direito, que já foi ofendida em virtude de sua religião. “Uma vez, uma protestante me disse que todas as mulheres católicas são prostitutas, isso me deixou muito triste, pois acreditamos no mesmo Deus”, relatou Rafaela. 

Esses preconceitos, inclusive, podem até acontecer na forma de uma brincadeira, como já virou rotina para a estudante de Jornalismo, Glycia Vieira. “Já escutei algumas frases em tom de “brincadeira”, que a gente sabe muito bem que não é só brincadeira. Mas já aconteceu de pessoas debocharem, que eu não curtia a vida ou estava perdendo tempo por ser cristã, principalmente quando não saía muito. Contudo, nunca enfrentei nada sério e/ou grave, porque entendo que a religião que sigo, evangélica, é super aceita no país”, diz. 

Glycia Vieira no dia de seu batismo. Foto: arquivo pessoal.

O espiritismo também segue como alvo dessas opressões. Segundo outra estudante de Jornalismo, a Luane Moreira, os olhares das pessoas são os piores. “Já ouvi alguns comentários de pessoas e olhares quando eu falo que sou espírita, porque muitas não sabem de fato o que é, e muitas não procuram saber”, fala a estudante.

O preconceito não tem barreiras e pode chegar a prejudicar até mesmo ambientes de trabalho, como já aconteceu com Ana Paula Xavier. Candomblecista há dez anos, ela relata que já sofreu um preconceito em virtude de sua religião. “Eu tinha um salão no Centro de Belo Horizonte (MG), estava com um ‘contra Egum’, um bracelete, e estava na correria do salão, mas eu estava livre naquele momento e a cliente não quis ser atendida por mim, porque eu estava usando alguma coisa de feitiçaria, que ela julgou que era de ‘macumbaria’. Disse que se eu colocasse a mão nela, eu ia passar aquela maldição para ela”, conta Ana Paula, que não teve reação no momento. 

Ana Paula e Wallace, seu marido, no dia de São Cosme e Damião. No Candomblé, é Orixá Ibejis. Foto: arquivo pessoal.

 

RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS

As religiões afro-brasileiras têm um sincretismo, ancorado na fusão de diferentes doutrinas para a formação de uma nova, que mantêm características típicas de todas as suas doutrinas-base, sejam rituais, superstições. Essa prática religiosa surgiu, no Brasil, com as junções do povo africano.

Hoje, no país, existem diferentes religiões afro-brasileiras com influências e denominações regionais. Além das duas mais conhecidas, Candomblé e Umbanda, há outras religiões com influência das culturas “sudanesas” e dos povos iorubás (“nagôs”)  e daomeanos (“jejês”):

  • Babaçuê (PA)
  • Batuque (RS)
  • Candomblé jeje (BA)
  • Candomblé ketu (BA, RJ, SP)
  • Tambor-de-mina (MA, PA)
  • Xangô (PE)

Entre as religiões com influência dos povos bantos (quimbundos), estão:

  • Cabula (ES)
  • Candomblé bantu ou angola (BA, RJ, SP)
  • Candomblé de caboclo (BA)
  • Catimbó (PB, PE)
  • Macumba (RJ, SP)
  • Pajelança (AM, PA, MA)
  • Toré (SE)
  • Umbanda (RJ, SP e todo o Brasil)
  • Xambá (AL, PB, PE)

Entre outras, como:

  • Culto aos egunguns (BA)
  • Encantaria
  • Jurema de terreiro
  • Jurema sagrada
  • Quimbanda
  • Quiumbanda
  • Omolokô
  • Terecô
RACISMO 

Mesmo os negros representando 56% da população brasileira, segundo dados Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o racismo ainda segue como um fator problemático do dia a dia no país, principalmente para religiões de origem africana. O racismo também se sustenta na medida em que a população reitera uma crença na ideia de que apenas pessoas negras praticam essas religiões. Tal pensamento, no entanto, é errôneo. Nos terreiros, há presença, por exemplo, de brancos e imigrantes. 

Um episódio emblemático no que se refere ao preconceito racial praticado contra pessoas de religiões afrodescendentes aconteceu em 2017, quando a emissora Record exibiu conteúdos ofensivos às religiões de matriz africana em rede nacional. Em abril de 2018, o Tribunal Regional Federal da 3° Região de São Paulo condenou a emissora pela ação.

O CONTEXTO É CATEGÓRICO

O cenário de intolerância encarado por diversas religiões deixa nítido a necessidade de marcar uma data para debater e dialogar sobre o respeito à pluralidade de crenças. Paulo Augusto Nogueira, professor de Ciências da Religião, defende esse ideal com afinco.

“Mesmo com o dia dedicado à intolerância, os casos têm crescido, principalmente, pelo crescimento desses grupos radicais pelo mundo inteiro. Com esse gabinete de ódio agredindo as matrizes religiões”, realça, “precisamos contextualizar que existem diferenças entre as religiões. Se as pessoas conhecerem a fundo os seus livros sagrados, a espiritualidade que está no fundo disso, se você olhar no fundo de cada escritura, vai encontrar a busca pela paz, pelo amor e pela misericórdia”.



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