Consumindo música no século XXI

30% dos brasileiros conectados à internet usam aplicativos de streaming de música, cerca de 36,6 milhões de usuários

Por Michael Charlles e Paulo Henrique Pereira

Gravar um CD ou um pendrive já foi considerado o mais “top” nas formas de reprodução de músicas, mas hoje não precisamos de nenhum outro dispositivo de armazenamento e de reprodução. Fazemos tudo pelo smartphone. Ouvimos nossos álbuns e faixas favoritas nos aplicativos de streaming de músicas, esses que, de tempos em tempos, têm mudado a maneira como consumimos música e até mesmo como nos relacionamos.

Mais que ouvir uma música em nossos dispositivos, as mudanças de novos formatos de transmissão de música trouxeram as playlists. Agrupamos as músicas que queremos, às vezes por estilo ou por gosto mesmo. Mas já pensou em ouvir, em sua casa, todas as músicas que tocam naquele restaurante ou no bar que você tanto gosta? Esse é um modelo de interação que o serviço de streaming contribuiu para que existisse, e que na época de CD e pendrive seria totalmente inviável.

Aliado ao fator pandemia, que alterou a vida de todas as pessoas, a tecnologia trouxe também a oportunidade de se estar em casa e ouvir aquela sequência de músicas que se ouviria estando em um bar ou em um restaurante preferido.

Em Belo Horizonte, a cafeteria e restaurante Café com Letras possui, no Spotify, uma playlist com músicas que tocam durante a semana no local, inclusive o nome da playlist é exatamente o nome da cafeteria, Café com letras. Essa, contudo, não é prática apenas desta cafeteria. O Jangal Bar, no bairro Cruzeiro, e o Redentor Bar, que fica localizado na Savassi, também colocam suas playlists de músicas disponíveis no Spotify, bastando apenas o cliente pesquisar no app pelos respectivos nomes, jangalbh e redentor cultural. Isso mostra como essa nova percepção do consumo de música e dos meios de transmissão via streaming é usada, cada dia mais, para conectar as pessoas, lugares e marcas, e isso, apesar de parecer algo totalmente inovador, tem raízes há algumas décadas.

O streaming se popularizou nos anos 2010, mas o modelo que conhecemos hoje começou lá nos anos 1920, quando o major americano George Owen Squier patenteou um sistema de transmissão e distribuição de músicas para empresas e assinantes por meio de linhas elétricas. Com a evolução da internet no século XX, os protocolos e servidores possibilitaram a criação de um serviço de transmissão pela rede e, no ano de 1999, foi criado o Napster, o primeiro serviço online de música. As plataformas de vídeo começaram apenas seis anos mais tarde, quando a Apple começou a vender séries e filmes via iTunes e com a criação do YouTube. De lá para cá, vários aplicativos foram criados com o objetivo de transmissão das faixas de músicas e também as chamadas playlists. Entre eles, estão Spotify, Deezer, iTunes e YouTube Music, que viram um mercado promissor e descobriram cifras milionárias na transmissão pelos apps.

OS NÚMEROS POR TRÁS DOS APPS DE STREAMING DE MÚSICA

A popularização dos aplicativos mudou a maneira como o mercado musical fatura. Segundo dados da Pró-Música, entidade que representa todas as gravadoras do país, o faturamento do mercado com o formato digital foi de R $765 milhões em 2019, sendo R $758,47 milhões apenas com o streaming. Enquanto isso, o mercado de CDs teve uma queda de 69% em relação a 2017, representando apenas R $15,695 milhões no mercado brasileiro.

Os aplicativos de streaming alcançam cerca de 36,6 milhões de usuários, dos 120 milhões conectados à internet, representando 30% dos brasileiros conectados. Por mês, os usuários consomem 13 bilhões de minutos ouvindo músicas e podcasts e, em média, cada usuário consome sete horas diárias.

Segundo o economista e pesquisador da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Gabriel Vaz de Melo, ainda não existem dados sobre o quanto o consumo de aplicativos de música contribui para o nosso Produto Interno Bruto (PIB), mas lembra que a indústria musical entra no campo da economia criativa. No PIB do ano passado, segundo a FIRJAN (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro), a economia criativa movimentou R $171,5 bilhões, representando 2,61% de todo o PIB.

Um dos usuários do Spotify no Brasil é o mecânico Stanley Rodrigues, 26. Assinante do plano Premium há quatro anos, acabou chegando ao aplicativo por curiosidade e, por gostar de criar playlists, optou por manter a assinatura. Hoje, consome em média uma hora por dia ouvindo os seus ritmos favoritos, principalmente Hip Hop e Rap. Ao ser perguntado se consome música em outros dispositivos como, por exemplo, o CD, afirma que o abandonou há cerca de seis anos e ainda brincou: “isso ainda existe?” Além das playlists que ele acabou descobrindo, Stanley também ouve as músicas sugeridas pelo próprio aplicativo, com base nas suas preferências. Um ponto positivo que ele coloca para o Spotify é a qualidade do áudio, que não é comprimido como no YouTube, mas pondera que os planos individuais são um pouco “salgados” e enxerga que os planos familiares podem sair mais em conta.

Já a estudante de administração Natalice Pereira, 21, assina o Spotify na categoria para universitários, o que o torna mais barato. Essa é uma estratégia que algumas empresas usam para atrair os clientes, fornecendo promoções para nichos específicos. Natalice se considera eclética e não perde os lançamentos. “Muitas vezes acontece de entrar no aplicativo e ver uma indicação de música pelo próprio app e paro para ouvir. E por várias vezes eu acabo gostando da música e continuo ouvindo, seja no próprio aplicativo ou no YouTube”.

Stanley e Natalice aproveitam as sugestões do aplicativo, que são feitas a partir das preferências dos usuários, dados que ficam salvos de acordo com a navegação nas plataformas. Além das sugestões de acordo com as preferências do ouvinte, o que muitos artistas e músicos fazem é o impulsionamento de conteúdo, ato muito similar às propagandas e ao marketing nas plataformas do Google, onde se paga um valor para que os produtos sejam mostrados para um grupo específico de pessoas, de acordo com gostos e idade, ou local onde o artista quer que essa música seja impulsionada.

Por Matheus Rocha

 

OS ARTISTAS DO STREAMING

“Para que eu consiga que minhas músicas sejam mais vistas nas plataformas, eu as impulsiono, nas descrições, eu as coloco como similares a de outros artistas de renome, que tocam estilos de músicas parecidos com o meu”, revela Felipe Marques, músico independente, com dois CDs gravados.

Para Felipe, o mercado de streaming é dinâmico, independente e é a voz de todos. Ainda de acordo com o músico, na chamada era digital, todo mundo tem voz. Uma pessoa de casa pode fazer uma gravação caseira e ‘jogar’ nos apps de streaming. “Os músicos não ficam presos a uma gravadora, o que é muito bom. Mas, em compensação, para ter mais visibilidade, precisa ser pago”. Rodrigo Borges, mestre em Ciência da Informação pela UFMG e músico profissional, da nova geração da família Borges, criadora do movimento Clube da Esquina, nos apresentou um panorama sobre o consumo de música no streaming e o envolvimento dos artistas com o streaming das mídias. Perguntado se o mercado de streaming foi bom para os artistas, Rodrigo responde que é importante relativizar isso, pois, por um lado sim, porque os músicos têm mais controle dos processos, e também por que qualquer pessoa no mundo pode acessar. Entretanto, por outro lado, foi ruim por causa do poder da indústria cultural, que faz com que os grandes grupos detenham o poder político e econômico alcancem os melhores resultados.

Outro problema apontado por Rodrigo são os direitos autorais. De acordo com ele, o repasse dos direitos autorais para os artistas é uma questão que precisa ser avaliada melhor, pois o valor é muito baixo. Ele acredita que essa é uma luta que está no começo e o fato é que os artistas precisam ser melhor remunerados.

O JABÁ 2.0

O termo ‘jabá’ é uma abreviação da palavra jabaculê, que surgiu com força nos anos 70 a 80, quando algumas gravadoras pagavam para que seus álbuns tocassem nas rádios. O termo e o ato foram se popularizando mesmo sendo considerado ético, tanto para quem dá quanto para quem o recebe. Algumas formas de jabá são: compra de posições nas paradas musicais das emissoras de rádio, compra de espaço para apresentação de artistas em programas de auditório e aliciamento de jornalistas para obtenção de comentários favoráveis.

O ‘jabá 2.0’ acompanhou a revolução digital do mercado fonográfico. Agora, quem possui playlists com milhares de visualizações pode incorporar uma música de um cantor ou artista que está começando a carreira. Com isso, seria muito mais fácil aumentar o número de visualizações e entrar no ‘hall da fama’ em um tempo menor.



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