Cirurgia robótica, da ficção à realidade

Presente no Brasil há mais de 10 anos, essa ferramenta, que inspira o audiovisual, já foi usada mais de 30 mil vezes.

Por Douglas Alexandre, Paulo Henrique e Michael Charles

Se você é amante de séries que retratam a realidade vivida em hospitais e atendimentos médicos, certamente já deve ter assistido algum episódio da premiada série americana “Grey’s Anatomy”. Com 17 temporadas e indicações a vários prêmios, a série estreou em 2005, nos Estados Unidos, e ganhou o mundo com o grau de realidade apresentado em seu roteiro.

Na 3ª temporada, o médico Preston Burke, principal responsável pelas cirurgias cardiotorácicas, foi baleado no ombro, na porta do hospital, e teve parte dos movimentos do braço direito comprometidos, o que o impediu de operar corretamente com movimentos firmes.

Nesse momento, sua namorada, que também era médica, a Dra Cristina, o auxiliava e assumia as cirurgias sem falar a verdade ao diretor clínico da unidade. Tempos depois, a farsa foi descoberta e eles acabaram se separando em seguida, após o afastamento de Burke.

Em 2018, no filme “Guerra nas Estrelas”, o androide C-3P0 é um robô que realiza cirurgias, utilizando gorro, avental cirúrgico e máscara, como manda o protocolo. Na trama, é apresentada uma realidade virtual que ainda buscamos um dia.

Mas porque apresentamos essas duas histórias da ficção? Bem, no primeiro caso, se o Dr Preston Burke já tivesse o auxílio da cirurgia robótica, não seria necessário a ajuda de sua namorada e, consequentemente, não perderia o emprego, podendo ficar juntos e nos brindando com um final diferente. Já no segundo caso, a realidade retratada no filme de Guerra nas Estrelas vai além do que existe hoje de mais moderno.

Atualmente, os robôs utilizados em cirurgias são compostos por braços mecânicos e necessitam de um médico qualificado para operá-los, mas o que foi transmitido nos filmes pode ser uma evolução futura.

Cirurgia robótica

A palavra robô vem de “robota’’, tem origem tcheca e significa trabalho. Os primeiros procedimentos médicos utilizando robôs datam de 1985, para realização de uma biópsia neurocirúrgica com o PUMA 560, nos Estados Unidos e, mais tarde, foi sendo adaptado para diversas cirurgias em todo o mundo.

Depois do PUMA 560, foram lançados vários outros modelos experimentais de robôs que pudessem auxiliar os médicos em procedimentos cirúrgicos e, assim, acabar com algumas limitações que o corpo humano possui.

O mais conhecido robô utilizado em cirurgias é o Da Vinci, cuja plataforma foi lançada em 1998, o tornando o primeiro totalmente adaptado para cirurgias no ano de 2000. De lá para cá, surgiram várias evoluções do antigo modelo.

Basicamente, é formado por quatro braços mecânicos. Um possui câmera com visão até 5 vezes aumentada, e os outros têm movimentos em 360º, permitindo ao cirurgião movimentos precisos durante o procedimento cirúrgico, guiados por um console como os de videogame.

A cirurgia robótica possui muitas vantagens em comparação à cirurgia tradicional, ela tem uma garantia maior de precisão, além de ser bem menos invasiva do que o procedimento comum.

Entre outras qualidades, estão a facilidade de acesso a diversas estruturas do corpo, maior amplitude de movimento, maior visão da área a ser tratada e a redução da perda de sangue, do tempo de cirurgia, do desconforto no pós-operatório e do risco de infecção. Outra vantagem é que o tempo de recuperação do paciente é muito mais rápido do que em um tratamento convencional, valendo a pena ser utilizado, sempre que o médico aconselhar.

No Brasil

Diferentemente do que a maioria das pessoas pensam, a cirurgia robótica está presente no Brasil desde 2008, quando um homem foi operado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Na ocasião, ele foi submetido a uma prostatectomia (retirada da próstata). De lá para cá, foram realizados diversos procedimentos com a ajuda dos braços mecânicos.

São mais de 30 mil cirurgias e 1200 cirurgiões certificados em mais de 14 especialidades médicas. A maioria dos robôs estão na região Sudeste, seguida pelo Centro Oeste, Norte/Nordeste e menos equipamentos na região Sul. A rede privada ainda é pioneira, mas alguns hospitais públicos do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Belém, Recife e outras capitais já contam com os equipamentos para atender à população que utiliza o Sistema Único de Saúde, segundo o PebMed.

Em Belo Horizonte, a Rede Mater Dei e o Hospital São Lucas realizam cirurgias robóticas em várias especialidades, dentre elas: urologia, gastroenterologia, trato urinário e, recentemente, ortopedia. Outra cidade que realiza procedimentos com robôs desde 2019, em Minas Gerais, é Uberlândia, com dois médicos especialistas no manuseio do modelo Da Vinci pelo UMC (Uberlândia Medical Center) em parceria com a prefeitura da cidade.

Afonso Paulo, formado em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, e especialista em cirurgia de joelho, de ombro e cotovelo, e videoartroscopia, é o responsável pelas cirurgias robóticas ortopédicas do Hospital São Lucas.

O médico explica que os critérios para certificação em cirurgias robóticas são muito rigorosos, e que o equipamento veio para auxiliar o cirurgião, que já deve ter experiência em cirurgias convencionais. “Devido ao momento atual, imposto pela pandemia da Covid-19, são realizadas várias aulas e reuniões online em que são apresentadas características, dúvidas, técnicas, vantagens e dificuldades do procedimento. Após essa fase, inicia-se o acompanhamento de cirurgias gravadas ou ao vivo, com vários cirurgiões de diversos locais, com possibilidades para perguntas e esclarecimento de qualquer dúvida. Realizamos vários procedimentos em modelos que simulam características diversas. A partir dessa etapa, inicia-se a realização de cirurgias com a presença de técnicos. Só após várias destas cirurgias, sem intercorrências, se adquire a certificação definitiva. Vale ressaltar que o robô é um auxílio para cirurgias mais precisas, podendo melhorar a segurança e os resultados, não um substituto do cirurgião”, detalha.

Utilizado desde março de 2021, o robô “Rosa Knee” possibilita um melhor ajuste de próteses ortopédicas e visão óptica de anomalias. Afonso Paulo fala sobre a satisfação de ser o precursor de cirurgias robóticas nessa especialidade em Belo Horizonte e o retorno positivo para os pacientes.

“Me sinto privilegiado em poder proporcionar aos meus pacientes mais uma opção de tratamento seguro, eficaz, preciso e de alto padrão tecnológico para melhor resolução de suas doenças. Assim, com a maior precisão e personalização da cirurgia, aumentam a exatidão dos cortes ósseos e equilíbrio das partes moles. Melhoram a função do joelho, satisfação pós-operatória e, em tese, a longevidade do implante”.

O futuro

Para além do uso de robôs nas intervenções cirúrgicas, há também o desenvolvimento de tecnologias capazes de aliar o celular com o robô.

Segundo a revista Annal of Internal Medicine, médicos de Nova York conseguiram realizar uma cirurgia em um paciente utilizando um celular e a tecnologia de conexão à internet. Esse foi o primeiro caso de telecirurgia e aconteceu em 2001. Nessa época, ainda existiam muitas restrições com relação à internet, poucos robôs e poucos profissionais que dominavam o conhecimento da robótica na área.

Já em 2020, muitos avanços aconteceram e foi realizada uma nova cirurgia, dessa vez, em um cadáver, onde médicos italianos utilizaram a conexão 5G para realizar o procedimento nas cordas vocais do ‘paciente’.

Mas o que se torna mais relevante nesse procedimento é que, apesar de ter sido feita em um cadáver, essa cirurgia se mostrou muito satisfatória, uma vez que o médico que a realizou estava a 15 km de distância e, mesmo diante dessa distância, a velocidade de conexão foi satisfatória e o delay era de 280 milissegundos. Isso é o mesmo que dizer que cada comando dado na tela do celular levou menos de 1 terço de um segundo para o robô executá-lo.

Avanços promissores são esperados nos próximos anos, como a replicação das sensações táteis ao cirurgião durante um procedimento cirúrgico, pelo comando do console de um robô, e até o preparo da sala sem a intervenção humana direta. Isso possibilitaria intervenções mais adequadas e evitaria o risco de infecções intraoperatórias, respectivamente.

Assista a uma cirurgia robótica em 360º:



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