Apropriação cultural: uma forma de invisibilizar grupos minoritários

Cientista política aponta aspectos cruciais para entender a temática, que gera inúmeros debates na internet.

Por Mylene Alves, aluna do 5º período de Jornalismo

O crescimento do acesso à internet e a maior interatividade nas redes sociais têm colocado em discussão diversos assuntos que antes eram pouco debatidos e que, nem sempre, conseguiam alcançar muitas pessoas. Com isso, pautas como racismo e identidade cultural acabaram por apresentar vertentes que precisam, urgentemente, de aprofundamento. Neste contexto, a apropriação cultural surge como um tema necessário e que precisa ser pensado com bastante cuidado.  

Para que haja um entendimento completo, é preciso que os dois conceitos dessa discussão sejam compreendidos. A apropriação é o ato de tornar seu algo alheio, sem a autorização do proprietário. E a cultura é o conjunto de manifestações artísticas, sociais, linguísticas e comportamentais de um povo ou civilização.

Portanto, a “Apropriação cultural” acontece quando alguém faz uso de componentes de uma cultura que não lhe pertence. Debates calorosos na internet nos provocam a pensar se isso  é considerado errado, por exemplo, quando envolve grupos sociais que são, historicamente, marginalizados e alvo de preconceitos. 

Carla Rosário, mestra e doutoranda em ciência política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), questiona a influência do capitalismo nessa questão. “O sistema capitalista patriarcal-racista, por ser um sistema multidimensional que impulsiona hierarquias baseadas em diferenças sociais, admite e assume formas contextuais para a sua própria manutenção de poder, acabando por se apropriar do que lhe parece economicamente interessante no momento, em uma dada conjuntura histórica. Isso o faz sobrepor elementos específicos de uma cultura sobre a outra hierarquicamente e de acordo com os interesses que estão colocados”, pontua. 

Atualmente, os casos mais comuns de apropriação cultural estão ligados à estética, mas, podem acontecer também envolvendo comportamentos, artes, linguagens, religiosidade, conhecimento e demais aspectos culturais. Algo que, antes, gerava piadas preconceituosas direcionadas a grupos originários, quando usado por pessoas de fora são vistas de maneira positiva e são mais aceitas socialmente.

Quando isso acontece, o significado desses elementos culturais acaba sendo diminuído e esvaziado. Muitas pessoas veem, acham bonito, mas nem sequer sabem a origem e a razão pela qual aquilo se fez necessário para seu povo. Assim, esses grupos são ainda mais inferiorizados, com sua potência histórica atingida diretamente.

Carla Rosário explica que, para identificar um episódio de apropriação cultural é preciso sair da dimensão do indivíduo e analisar a dimensão sistêmica. “A apropriação cultural não é uma prática, é mais uma ferramenta de hierarquização e de poder, portanto, utilizada para fins coletivos. Uma marca de roupa que passou a monetizar elementos de outras culturas, está praticando a apropriação cultural para fins de reprodução do capitalismo”, aponta. 

Cultura negra
Foto: Unsplash

Muitos casos, entre os que mais geram discussões na internet, são apropriações da cultura negra. Um exemplo comum atualmente são as “box braids”, tranças muito usadas na cultura africana para expressar desde idade até religiões e atributos de identidade, e que começaram a ser utilizadas por pessoas brancas, não inclusas nessa cultura. Inclusive, diversos modelos de trançado eram uma maneira de reconhecer pessoas e grupos, já que seus penteados poderiam ser feitos em formatos de mapa para auxiliar em suas caminhadas. 

Carla Rosário reforça a importância de entender sobre a cultura em questão e só então pensar quem tem direito de usar. “Antes de determinar quem pode ou não, nossa sociedade ainda precisa conhecer e reconhecer um longo caminho de letramento racial para compreender a simbologia que envolve as tranças e os turbantes. Esses elementos não estão descolados de uma de uma cosmovisão de matriz africana que foi solapada pela cultura eurocêntrica no Brasil e o papel da apropriação cultural acaba sendo esvaziar esses significados, descolando esses elementos e os tornando meros objetos estéticos”, conta a cientista política .

Lembrar que somos fruto de um inacabado processo de colonização, que impôs violentamente modos de vivências que ocultam outras visões, e colocam a cultura ocidental como hierarquicamente melhor também é um passo imprescindível. Sendo assim, é no mínimo estranho perceber que as box braids e os turbantes, que são símbolos culturais de matriz africana, estiveram por tanto tempo de fora do que é considerado bonito pela sociedade e, de repente, passem a ser disputados.

“A luta por afirmação e valorização desses elementos enquanto símbolos, são lutas travadas historicamente sobretudo pelos movimentos de mulheres negras. Nessa situação ainda inicial, acredito que as mulheres negras estão na linha de frente da afirmação pelo uso ancestral desses elementos e não meramente estéticos, o que precisa ser valorizado”, observa Carla. 

Para mostrar outros exemplos de apropriações veladas que acontecem com elementos da cultura negra/africana, Carla Rosário citou a música “Bluesman”, do Baco Exu do Blues, que também traz perspectivas sobre a temática. “Ele denuncia em partes a indústria musical que, frequentemente, se apropria culturalmente de estilos musicais, os esvaziando de significados advindos das culturas negras/africanas, que seriam significados ruins, associando esses estilos a uma cultura branca na busca por torná-los rentáveis”, coloca.

Outra dúvida muito comum, é referente a existência, ou não, de uma apropriação advinda de grupos minoritários, como quando uma pessoa negra alisa o cabelo, ou quando nós, brasileiros, usamos elementos da cultura estadunidense. Quanto a isso, Carla Rosário afirma que tais ações não são consideradas apropriação cultural, tendo em vista que o fenômeno está ligado, dentre outras coisas, a um sistema de manutenção de poder e de hierarquia das diferenças culturais. Pessoas negras  alisando o cabelo são mais associadas ao processo de embranquecimento imposto pelas culturas ocidentais do que a uma apropriação da cultura alheia.

Fantasia de índio
Foto: Unsplash

Já com os índios, o caso mais comum de apropriação cultural são as fantasias usadas em eventos como carnaval. Não é nada raro trombar com alguém usando um cocar ou outros elementos estéticos característicos de tribos indígenas. Inclusive, muitas vezes podem ser características equivocadas. 

Sobre isso, Carla afirma: “enquanto pessoa negra, compreendo os vícios de representação que as sociedades ocidentais praticam, de excluir dos espaços de representação determinados grupos. Desde a política institucional até as outras dimensões e espaços sociais. O debate sobre a “fantasia de índio” ser extremamente ofensiva é extenso e muito qualificado quando feito por pessoas, intelectuais e ativistas indígenas. É importante o lugar de escuta para que compreendamos o que ofende ou não esses grupos”, considera a cientista política . 

Fox Eyes
Foto: Unsplash

Traduzido como “olhos de raposa”, a maquiagem ou  procedimento estético fox eyes tem a intenção de levantar o olhar. O efeito, quando buscado por meio de procedimentos estéticos, vem com o elevar da cauda do supercílio e, quando feito por meio de maquiagens, é usado como um delineado mais esticado. A busca por esse olhar lembra a cultura asiática e seus indivíduos que, historicamente, são alvo de preconceitos relacionados ao formato de seus olhos.

A tendência trouxe debates que, muitas vezes, não chegaram a uma definição final sobre ser, ou não, apropriação cultural. Carla Rosário opina: “a indústria estética lucra bastante capitalizando elementos culturais, os esvaziando e, nesse caso, os objetificando. A apropriação cultural faz esse movimento de aculturar e retirar significados de traços significativos de uma determinada cultura. Acredito que o foxy eyes seja mais uma das formas de capitalizar elementos que, em outras épocas, serviram de instrumentos de piadas e deboches sofridos por pessoas asiáticas. Então acredito que seja um incômodo para pessoas racializadas, sobretudo as amarelas”, realça. 

Cidade Invisível 
Foto: Divulgação/Netflix

O serviço de streaming “Netflix” lançou, no dia 5 de fevereiro deste ano, a série Cidade Invisível, uma produção brasileira que, em meio a sua história, retrata  o folclore. Após seu lançamento, a série foi encaixada em debates sobre apropriação cultural por falta de representatividade do povo indígena, origem de alguns personagens do folclore brasileiro.

Carla Rosário aponta como contraditório o fato de a série carregar o nome de “Cidade Invisível” mas, mesmo assim, invisibilizar esses grupos e indivíduos. “É um processo histórico de exclusão e invisibilização desses grupos. Ademais, é também um processo de aculturação em que brancos modificam e se mostram descompromissados com a cultura indígena”, observa a cientista política.



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Livia Moreira

Entender que motivos de apenas beleza e estética pra uns, podem significar um descaso a outros grupos que carregam marcas histórias e culturais! Ótima matéria