Alerta de história única

Por que é tão perigoso contar histórias deixando de fora suas múltiplas verdades?

Por Iris Aguiar, estudante do 3º período de Jornalismo no UniBH.

E se o vilão só for vilão porque não escutamos o seu lado da história? E a donzela em perigo é na verdade uma guerreira?

Este é o poder da história única, um conceito cunhado por Chimamanda Adichie, feminista e escritora nigeriana.  Em seu vídeo “O perigo da história única”, ela traz um discurso sobre sua vida na infância, na faculdade e depois, quando adulta, em algumas viagens.

Ela também conta sobre a sua infância  e como  era influenciada por livros e literaturas britânicas e americanas que traziam apenas um ponto de vista, aquele europeu ou americano de classes sociais mais ricas e privilegiadas. Desde sempre,  escrevia livros baseados naquilo que  lia, então não se via representada naquela realidade que escreveu, pois sua vida era totalmente diferente na Nigéria. 

A autora relata como, com o passar do tempo,  descobriu sobre a história única. Sua primeira experiência com o conceito  foi ao descobrir que conhecia  apenas uma característica de sua empregada e de sua família: eles eram pobres. Quando Chimamanda os conheceu, percebeu que eles eram muito mais do que isso, pois  produziam diversas formas de arte. 

Ela também relembra  os primeiros livros de literatura africana que  conheceu – e eram  poucos. A partir deles,  a escritora entendeu que suas histórias não precisavam contar apenas daquela vida dos estrangeiros: era possível se identificar naqueles livros, logo, passou a escrever o que  vivia e sobre a sua realidade. 

Quando foi para os Estados Unidos, em uma faculdade, passou a escrever  sobre o que  vivia na Nigéria e, no convívio com seus colegas,  entendeu que as pessoas daquele país viam o continente Africano como um país pobre, de pessoas pobres, que faziam diversos rituais religiosos e vestiam “roupas exóticas”.

Chimamanda explicou que as pessoas conheciam muito pouco sobre as coisas, pois elas eram apresentadas a apenas uma versão da história, não conseguiam ver o outro lado. 

A história única é, então, essa visão ou maneira de contar o mundo através de uma única perspectiva, seja de forma proposital ou não, mas que exclui outros pontos que constituem um todo. 

A história única na vida real

É muito fácil cair nas inúmeras histórias únicas. São emaranhados de trajetórias contadas e recontadas durante toda a nossa vida por um só lado do ocorrido. É simples, portanto, perceber como as pessoas estereotipam as questões complexas  apenas com uma versão e, assim, tais questões se tornam únicas, as pessoas se tornam únicas. Mas o mundo é múltiplo, as coisas são múltiplas e nada pode ser contado por apenas um lado. 

A nossa realidade possui múltiplas facetas que devem ser exploradas e contadas para que um fato chegue perto da verdade. Esse é um cuidado que nós, jornalistas, também devemos entender ao contar  histórias, sempre à procura das nuances de um ocorrido, para que pessoas não sejam colocadas em  papéis que não as pertencem, como vítima ou vilão.

Chimamanda ressalta  autores que influenciaram positiva e  negativamente a sua história, já que estes últimos escreviam coisas estereotipadas da África, com relatos sobre o  continente ter países pobres e  pessoas abaixo do nível de outros povos. A autora também disserta sobre o  conceito de poder, que era muito utilizado para se referir a algo que é maior que o outro. Nesse sentido,  as histórias sempre vão ter uma relação de poder, porque as formas como elas são contadas, quem as conta e quando são contadas realmente dependem disso. 

É fácil uma pessoa conseguir desapropriar um povo. É preciso contar uma história de uma das maneiras como ele enxerga e fazendo com que aquela forma seja a única conhecida pelos outros. O apagamento de parte da história de uma pessoa ou um povo pode influenciar milhares de outras pessoas acreditarem apenas naquele recorte do real. Uma meia verdade fora de contexto pode levar a inúmeras mentiras, daí o perigo da história única.

Quem escreve um conto aumenta um ponto

O poder da escrita e da construção de narrativas pertence a diversas profissões, mas nem sempre este poder é usado de maneira sábia, a fim de evitar cair no conto da história única. Algumas dicas para você escritor e leitor são:

  1. Verifique quem é o autor: é muito importante saber quem escreveu, porque escreveu e quando escreveu. Dessa forma, fica fácil saber se aquela realidade do autor traduz todo o fato ou apenas o recorte do real em que aquele determinado autor viveu.
  2. Investigue outras fontes: procure saber se existem outras testemunhas de um fato,  outras histórias a serem contadas que corroborem ou não com sua história.
  3. Não presuma que é verdade só porque está na internet: verifique com cuidado o site que você encontra uma informação. Veja se é um site confiável e possui informação sobre os donos e/ou escritores.
  4. Livros didáticos: eles não trazem  todos os fatos. A grande maioria dos livros didáticos trazem uma visão eurocêntrica da história, principalmente no que se refere às ciências humanas, o que por si só já é uma história única. Por isso, busque saber mais sobre o outro lado das histórias contadas. O google acadêmico traz ótimos artigos sobre diversos temas. Mas de novo, verifique o autor. (Atenção: os livros didáticos são excelentes fontes de estudo e trazem informações verdadeiras).
  5. Estereótipos: sempre são histórias únicas, já que levam em conta apenas características específicas de uma pessoa ou objeto e o resumem àquilo.


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