Além do lockdown: drogas recreativas e cigarros de cheiro

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Aumento do uso de entorpecentes e a nova febre dos cigarros eletrônicos; o que a pandemia nos trouxe?

Por Virgínia Pedrosa, 6º período de Jornalismo do UniBH

O termo “droga recreativa” nasce da ideia do uso de drogas lícitas ou ilícitas sem o diagnóstico, prescrição e supervisão de profissionais da saúde física e mental. A expressão também dá o entendimento de algo divertido e sem riscos. Todavia, o uso dessas substâncias, fora do seu real propósito, acarreta muito mais do que o vício, já que elas podem ocasionar taquicardia, danos neurológicos, perda de dentes, entre outros problemas, como agravamento de distúrbios e doenças mentais.

Segundo dados da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), o consumo de álcool, remédios psicotrópicos e drogas ilícitas cresceu durante os anos de 2020 e 2021. Em anos passados, o número de pessoas que consumiam álcool, no Brasil, era de 55% da população. Durante a pandemia, esse número cresceu cerca de 93,9%, e o consumo de remédios psicotrópicos cresceu 13%.

De acordo com estudos da Universidade de Harvard, o uso de remédios psicotrópicos cresceu cerca de 6% durante o lockdown ocasionado pela pandemia do coronavírus. Este mesmo estudo aponta que o uso de remédios psicoestimulantes é feito entre estudantes, considerando o fato de que parte dos usuários da medicação não tem diagnóstico positivo para tais transtornos e utilizam destes medicamentos com intuito de aumentar o foco e a resistência durante estudos e provas.

No campo do lazer e do divertimento, é comum o uso de narcóticos, sejam estes lícitos ou não. A preocupação é geral quando são encontradas drogas como cocaína, LSD, metanfetamina, entre outras tão fortes quanto. Mas a realidade é que a banalização das drogas em ambientes públicos já é algo corriqueiro, mas que assim como as outras viciam seus usuários e degradam sua saúde. Hoje, o que acompanhamos é a febre do cigarro eletrônico, com seu vapor de “cheiro agradável” e a defesa inexorável de seus usuários.

“Mas não é cigarro, é vape!”

Em 1963, um homem de nome Herbert Gilbert obteve um lampejo de inspiração enquanto tomava uma xícara de chá, observando o vapor que dela saía. A ideia era engenhosa: criar um cigarro no qual não haveria fumo e fumaça, mas que saciasse a necessidade do usuário do hábito não saudável. Gilbert trabalhou durante anos em seu protótipo, até que finalmente pôde registrar sua patente. Na época em questão, era comum o uso de cigarros por todas as idades – incluindo crianças – e a indústria dos cigarros brancos não aceitou de bom grado a ideia do inventor; fazendo com que a ela fosse engavetada por anos, e permanecesse assim, esquecida até os anos 2000, mais especificamente em 2003, quando o empresário Ruyan de Hon Lik trouxe novamente a ideia, mas agora com um novo nome.

Os cigarros eletrônicos nasceram da imagem de que fumar poderia ser algo saudável ou, pelo menos, menos destrutivo. Mas será essa a realidade, depois de tantos anos após a sua primeira aparição?

Em entrevista para o Portal da CACAU, a médica pneumologista da empresa “Saúde No Lar”, Michelle Andreatta explica o que é e como funciona o cigarro eletrônico:

O que é o cigarro eletrônico?
O cigarro eletrônico, também conhecido como vaper ou e-cigarro, é um dispositivo que faz a queima da nicotina produzindo um vapor da substância para ser inalado. Ele também é associado ao uso recreativo do THC, substância extraída da maconha. Esse dispositivo é considerado ilegal no Brasil, o que torna difícil a fiscalização das substâncias contidas neles, que podem ser bastante nocivas à saúde.

O cigarro eletrônico realmente ajuda a parar de fumar?
Não. A principal substância responsável pelo vício do tabagismo é a nicotina. Essa substância pode ser encontrada sob altas concentrações nos cigarros eletrônicos, não sendo recomendado o uso para quem deseja parar de fumar.

O uso dos Vapes pode causar vício? Os usuários de cigarro eletrônico são considerados fumantes?

Os e-cigarros podem causar dependência, assim como o cigarro comum. Os usuários dos vapes, são considerados fumantes, afinal de contas, a principal substância inalada nesses dispositivos é a nicotina. Ela é responsável pela dependência química do cigarro.

A fumaça do e-cigarro é apenas vapor? Quais são as substâncias encontradas nela?
Essa informação é falsa. Pelo contrário, há substâncias usadas como diluentes que não são à base de água e sua queima pode gerar graves danos à saúde. Além da nicotina, há substâncias solventes, como o propilenoglicol. Sua queima libera formaldeído em concentração de 5 a 15 vezes mais em relação ao cigarro comum, substância comprovadamente cancerígena.

O que a nicotina causa no corpo? Existem estudos que expliquem o vício?
A nicotina é uma substância estimulante, que aumenta a frequência cardíaca, a pressão arterial e a frequência respiratória. Ela pode gerar agitação
motora, além de reduzir o apetite, como se o corpo se preparasse para um ataque de um predador na selva, dando condições para luta ou fuga.
Há vários estudos que explicam o vício gerado pelo consumo de nicotina. Inclusive, em estudo realizado pela Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard foi demonstrado que o uso de terapia de reposição de nicotina não é mais eficaz em ajudar as pessoas a parar de fumar, comparado aos pacientes que pararam de fumar por conta própria. Neste estudo foi observado que, a longo prazo, quem fez a reposição de nicotina teve maior chance de recaída comparado aos que tentam parar por conta própria.

Existem cigarros eletrônicos sem nicotina?
Existem sim, mas como não há fiscalização da composição das substâncias usadas nesses dispositivos, a ausência de nicotina não pode ser confirmada.

Quais as diferenças entre o cigarro clássico e o eletrônico? Os “Vapes” realmente fazem menos mal à saúde?
No cigarro comum a nicotina é associada a substâncias como alcatrão, para facilitar a queima e gerar a fumaça inalada. Já no cigarro eletrônico é necessário o uso de diluentes, como o propilenoglicol, para o consumo da nicotina, vaporizada a cerca de 400 graus. É uma propaganda enganosa, pois os níveis de nicotina encontrados no cigarro eletrônico podem corresponder a dezenas de cigarros comuns. Além disso, existem substâncias inaladas que os efeitos a longo prazo ainda são desconhecidos.

Existem estudos sobre os danos causados pelos e-cigarros? Quais são as melhores plataformas para conhecer tais assuntos?
Existem cada vez mais estudos a respeito das consequências do uso do cigarro eletrônico a curto prazo, por ainda ser um dispositivo considerado novo no mercado. As melhores fontes para o estudo desse assunto são as plataformas de divulgação de artigos científicos. Mesmo assim, aconselho a consulta com um especialista, pois a interpretação de tais estudos pode levar a conclusões equivocadas para o leigo.

Quais são as doenças recorrentes em pacientes fumantes? O cigarro eletrônico pode causar as mesmas doenças do cigarro comum? Quais são os danos para a saúde já vistos por médicos e pesquisadores?
As doenças mais comuns nos pacientes usuários do cigarro são a bronquite e o enfisema pulmonar. É bem provável que o cigarro eletrônico também seja capaz de levar a essas doenças a longo prazo, pois contém substâncias irritantes à mucosa respiratória.
Os e-cigarros podem, em curto prazo, levar a doenças cardíacas e respiratórias, como uma inflamação exagerada no pulmão, também chamada de pneumonite. Já a longo prazo ainda se desconhece os danos provocados pelo consumo desse tipo de dispositivo. Mas substâncias como ferro, alumínio e níquel já foram identificadas no vapor do cigarro eletrônico, podendo provocar câncer de pulmão, seios e face, além de doenças graves como o enfisema e a fibrose pulmonar.

Depoimentos de usuários dos Vapes:
 
Maria Luiza Frias, de 19 anos, é usuária do Vape há 2 anos. “Comecei a vaporizar por influência de amigos, nunca achei que os riscos do Vape fossem os mesmo do cigarros, até porque, é ‘só’ água, né? Mas, de um tempo pra cá, comecei a sentir falta de ar e dores no peito. Não é como se eu estivesse viciada, entende? Posso parar quando quiser, mas não quero”, explica.

Bruno Nascimento, de 23 anos, é vendedor e também usuário do Vape. E afirma ter começado por influência da namorada. “Como nós dois trabalhamos com atendimento ao público, é feio ficar com cheiro de cigarro, então decidimos migrar para o cigarro eletrônico, até porque tem um cheirinho gostoso. Não acho que seja a mesma coisa, não me sinto, realmente, fumando um cigarro. Continuei estressado, não faz o mesmo efeito de um cigarro normal. O que senti, na verdade, foram dores peitorais, muita tosse seca e dificuldade de respirar, então voltei para o cigarro normal”, ressalta.

Na visão médica, esse comportamento é comum? Como e por que ele se desenvolve?
Esse comportamento de negação é bastante comum, pois os jovens têm a ilusão de que o cigarro eletrônico traz menor risco à saúde. A indústria desse tipo de dispositivo investe pesado nesse público, adicionando sabores e cheiros atrativos, mas omite a informação que existem riscos ao vício e à saúde no consumo desses produtos. O resultado disso são milhares de novos consumidores de cigarro todos os anos e a manutenção do vício gerado por ele.

Quais os melhores tratamentos para aqueles que desejam se livrar do vício em cigarros?
O melhor tratamento é aquele que pode ser individualizado para a necessidade de cada paciente, por isso é tão importante o acompanhamento com o pneumologista.



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