homem tocando violão

Afinal, o que é a MPB?

O cenário musical no Brasil é cada vez mais múltiplo. Será que os gêneros mais ouvidos hoje são reconhecidos como a nova Música Popular Brasileira?

Por Mylene Alves, aluna de Jornalismo do UniBH

No Brasil, temos um “gênero” musical conhecido como Música Popular Brasileira, a MPB. Surgido na década de 1960, este estilo ganhou grande importância em acontecimentos históricos, como a ditadura militar (1964-1985). Mas, apesar de ainda ser o único conhecido por essa nomenclatura, será que, no cenário musical atual, essa ainda é a música popular entre o povo brasileiro?

Essa MPB, que tem figuras como Milton Nascimento, Elis Regina, Caetano Veloso e Chico Buarque entre seus personagens principais, engloba, principalmente, a produção fonográfica dos anos 60 e 70, com destaque para Tom Jobim e todos que foram considerados seus “filhos”. A Bossa Nova e a Tropicália estão envolvidas, são dois estilos que, como afirma o cantor e compositor Rodrigo Borges, levaram nossa música para o mundo.

Em um resumo do que é o gênero, Luiz Flávio Lima, jornalista, diretor e apresentador do programa Hypershow, da Rede Minas, explicou que a MPB é um desdobramento do que a Bossa Nova propôs na década de 50, incorporando a sofisticação sonora. Tem também uma proximidade grande com o jazz, na forma de construção harmônica, que era diferente do que, até então, a música brasileira trazia.

Muitos estudiosos da área, como Martha Ulhôa, PhD em Musicologia, explicou em seu artigo “Nova história, velhos sons: notas para ouvir e pensar a música brasileira popular”, preferem se referir às canções associadas como Música Brasileira Popular, o que dá um sentido diferente a essa identidade musical, mais amplo. São músicas que, por não serem eruditas, são populares.

Normalmente, trazem consigo raízes antigas da nossa formação cultural e com contribuição de vários aspectos colonizadores. Para entender melhor, nesse mesmo artigo, Martha diz que a formação musical brasileira é fruto de estratégias de dominação e de táticas de sobrevivência que vieram dos jesuítas e dos “ameríndios”, respectivamente.

O cenário histórico na época em que nasceu a MPB não era dos melhores, a ditadura militar no Brasil dificultou a propagação dessas canções por meio da censura imposta, principalmente, aos artistas mais engajados politicamente. “Essa turma precisava se comunicar e extravasar o sentimento de opressão por meio da criação musical, usando muitas metáforas para tentar driblar a censura. Esse momento de muita repressão acabou gerando uma liberdade artística e criativa muito grande, no sentido da criação, não no sentido da possibilidade de escoamento dessa expressão”, explica Rodrigo Borges.

Uma nova MPB?

Tendo noção da significância da MPB para nosso cenário musical, buscamos saber sobre estilos que, atualmente, ocupam os topos dos rankings brasileiros musicais e suas relevâncias culturais. Será possível termos um novo gênero em que se encaixaria o título de “Música Popular Brasileira?”.

Segundo o professor Rodrigo Borges, usando a terminologia proposta por Marta Ulhôa, de chamar por Música Brasileira Popular, a produção musical no Brasil é muito diversa e rica. Temos o sertanejo universitário, com uma representatividade cultural e de mercado grande, temos o funk como um ritmo e estilo nascidos no coração do povo, o samba, que sempre esteve por aqui, o hip hop, que veio como uma resposta ao hip hop estadunidense, e a própria MPB, que vem se transformando, realizando fusões e gerando até gêneros derivados. Todas essas vertentes da música brasileira são relevantes e, para Rodrigo, têm um paralelo com a MPB dos anos 60, por sua representatividade, por atingirem as massas e por dialogarem com o povo.

Se olharmos pela perspectiva representativa, do envolvimento com questões socialmente importantes, na visão do apresentador Luiz Flávio, o hip hop/rap pode se destacar, mas não é o único. “Mais marcadamente, que chega de uma forma mais constante, até porque tem a ver até com a linguagem e com a motivação do gênero, eu acredito que o rap tenha um envolvimento político maior. Mas dizer que é só ele é uma injustiça, porque os outros gêneros têm representantes que fazem uma cobrança política”, explicou o jornalista. Luiz dá a entender que o que é classificado como popular não é apenas sobre um gênero musical, mas sobre pessoas que decidem usar seu lado artístico para contribuir com voz para lutas sociais.

A jornalista e compositora, Brisa Marques, tem opinião parecida. “O que eu vejo é que, atualmente, os movimentos do hip hop e do rap são movimentos que têm conseguido quebrar esses paradigmas, esses tabus e, de alguma forma, não só subvertem essa lógica,

mas também a transformam, sendo quem são de verdade. O Emicida pra mim é um grande exemplo atualmente, não só pela música”.

No entanto, a Música Popular Brasileira é mais que representatividade e engajamento político, tem o lado artístico que busca carregar nossa cultura e o que os artistas são, em sua individualidade. Assim, o ponto em que todos os nossos entrevistados concordam é que a produção musical no Brasil é amplamente diversa, e seria injusto, talvez até incorreto, escolher um que tomaria o título de “Música Popular Brasileira dos dias de hoje”.

A MPB, como gênero que conhecemos, ainda vive, não vai ser substituída, mas sim transformada, foi o que entendemos em nossas conversas. “Certamente, se procurarmos, ainda vamos encontrar exemplos de músicos que têm uma proposta parecida com a música dos anos 60, que busca ter uma letra politizada em alguns momentos, busca um certo lirismo, uma poesia bem feita, elaborada, harmonias bem construídas. Mas, mesmo os artistas que têm essa abordagem, vão incorporar elementos que são de uma linguagem mais atual. Essa história de que o samba vai morrer é antiga, e o samba está aí até hoje, então acho que para a MPB a coisa caminha pro mesmo lado”, reflete Luiz Flávio.

Ranking atual
ranking mostra quais são os gêneros musicais mais escutados no spotify Brasil, sertanejo e funk estão no topo
Sertanejo e funk são os ritmos mais tocados no Brasil hoje. Análise: Mylene Melo.

O gênero até então conhecido como MPB não figura entre as 50 músicas mais tocadas no Spotify dos brasileiros atualmente, onde as primeiras posições são ocupadas pelo sertanejo e pelo funk. As músicas dos campeões do momento viralizam muito, inclusive com expansões multiplataforma, como dancinhas no TikTok.

Mas, para Rodrigo Borges, isso se trata de segmentos musicais com alcances diferentes, não necessariamente superiores ou inferiores. “Alguns contam com público maior, atingem fundamentalmente ouvintes mais jovens, e outros que atingem todas as idades. Acho que a MPB se encaixa nisso, de atingir um público que pode ser menor nesse momento, mas que ao mesmo tempo é mais amplo, indo desde um adolescente até uma pessoa com mais de 60 anos”, conclui o professor.

Esses dois gêneros em alta, por mais populares que sejam, podem enfrentar duras críticas. Foram tidos, muitas vezes, como produções de baixa qualidade por alguns artistas e críticos. A compositora Brisa Marques não concorda com tal afirmação. “Não acho que a gente possa julgar uma forma de expressão artística como boa ou ruim, é muito raso pensar o mundo dessa maneira dicotômica. Fazemos parte de um complexo mais amplo de rede e de fios que estão interligados, a existência de uma expressão artística não anula a existência de outra.”

Buscando entender o porquê desse “preconceito” com o sertanejo e o funk, ouvimos de Luiz Flávio Lima, jornalista cultural, que muitas dessas músicas são produzidas de forma comercial, voltadas para o consumo, para o que o público quer. E, quando se tem, do outro lado uma música mais conceitual, com outros pensamentos de produção, em algum momento os gêneros se chocam.

No mundo digital

Como citado, muitas vezes o sucesso das músicas é altamente influenciado por sua reprodução nas redes sociais e demais plataformas. Hoje, quem se dá melhor no cenário musical é quem entende e implementa melhor as distribuições em tempos de plataformização. “A geração mais jovem, que compreende esse tipo de comunicação e essa ferramenta da melhor maneira, consegue ter uma audiência bem maior, certamente. A lógica do algoritmo é predominante no mercado em detrimento da qualidade artística, da própria produção artística enquanto valor estético. Funciona dessa forma hoje em dia e, certamente, artistas da MPB, mesmo tendo muito audiência, tipo Caetano, Milton, que são nomes consagrados, em números quantitativos não se comparam aos números que, por exemplo, artistas como a Anitta têm, que utilizam muito melhor, de forma mais natural e, muitas vezes, com muito mais investimento, as redes sociais”, explica Rodrigo Borges.

Perguntamos à compositora Brisa Marques se essas mudanças de consumo afetaram também a maneira de produção. “Acho que ainda está em transformação, mas mudou completamente, hoje em dia são raras as pessoas que escutam um disco inteiro, o negócio é lançar single. É tudo mais rápido, tem que falar em 15 segundos, postar em 30 segundos, e fazer algo que dure 1 minuto é querer atenção demais”, conta ela.

Luiz Flávio Lima, diretor e apresentador do programa Hypershow da Rede Minas, por sua vez, nos falou sobre outro lado: a possibilidade de uma carreira independente. “As plataformas digitais acabam sendo uma grande saída, porque antigamente era uma dificuldade absurda conseguir gravar, deixar registrado o trabalho de alguma forma… não era fácil ter um LP independente”. E agora, segundo ele, os artistas têm uma possibilidade maior de ter uma carreira independente, mais estruturada, conseguindo localizar seu público.

Afinal, existe uma nova MPB?

Bom, que o mercado musical se transforma é inegável. Então, assim como as músicas conhecidas como MPB “perderam” espaço dentre as mais ouvidas para o sertanejo e o funk, podemos imaginar que esse cenário continuará passando por mudanças. O título de

“música popular brasileira” não pode ser cedido a outro gênero, mas a música brasileira popular engloba tudo que, de alguma forma, nos representa e conquista seu espaço.

Assim, a música brasileira popular não pode ser representada por um só gênero no país todo. Ela é diversa, multidimensional, é regional, aberta ao mundo e às tecnologias, aos estilos que vêm de fora. Música brasileira é uma mistura, somamos todos os estilos e devolvemos para o mundo uma arte única.



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