Adoecedora, indústria da beleza continua a estabelecer padrões inalcançáveis

No ano de 2018, a Sociedade Brasileira de Cirurgias Plásticas contabilizou mais de 1 milhão de cirurgias plásticas e cerca de 969 mil procedimentos estéticos não cirúrgicos

Maria Luiza Marliere, 7º período de Jornalismo 

O Brasil, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), é o país que mais realiza cirurgias plásticas atualmente. Durante a quarentena, assuntos como lipoaspiração de alta definição, mais conhecida como lipo LAD, implante de silicone nos seios, rinoplastia e abdominoplastia tomaram conta da internet. Consequentemente, a busca por estes procedimentos também. 

Influenciadores digitais passaram a utilizar suas plataformas para mostrar os seus corpos antes e depois das cirurgias. Muitos deles e delas, no entanto, foram extremamente criticados por banalizar tais  procedimentos. 

Grande parte desses influenciadores realizam procedimentos estéticos por meio de permutas, ou seja, em troca dessas intervenções, fazem divulgação das clínicas nas redes sociais. Essa configuração faz com que muitos deixem de contar ao público os reais riscos das cirurgias plásticas.  

A publicização destes resultados, na maioria das vezes, positivos, postados por essas figuras públicas na internet, faz surgir diversas discussões éticas. Exemplo dessa problemática são as expectativas irreais criadas por consumidores em virtude de uma perfeição idealizada, uma vez que corpo é único e, logicamente, cada procedimento também.

A médica Maria Clara Cajahiba explica que “as cirurgias plásticas, como a maioria das intervenções médicas, possuem seus riscos, por isso é necessário a conscientização das pessoas que buscam estes procedimentos”.

O caso Liliane Amorim 

No dia 24 de janeiro, a influencer de 26 anos, Liliane Amorim, morreu em decorrência de complicações da lipo LAD. O infortúnio levantou diversas críticas sobre a busca de um corpo perfeito, fruto de um padrão estético imposto pela sociedade.

“Estamos vivendo em um tempo muito estranho, em que a imagem parece prevalecer. Observamos que as pessoas se guiam pelas mídias sociais para escolher os profissionais, número de curtidas, seguidores. A mercantilização da medicina faz com que alguns profissionais abram mão da segurança para baratear o tratamento”, disse Denis Calazans, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica – SBCP.

O padrão que adoece

Filtro no Instagram emula a dificuldade que algumas pessoas têm em se olhar no espelho.
Foto: Maria Luiza Marliere.


Padrões de beleza sempre existiram ao longo da história. Ao estabelecer, de maneira imperativa, o que é considerado belo, a sociedade propaga um tipo único de modelo estético que desconsidera as diferenças e cria ideais inalcançáveis. O que, antigamente, era retratado em grandes exposições de arte, atualmente é propagado e potencializado em todos os tipos de mídia, online ou off-line. 

Hoje, as mídias sociais possuem um papel muito grande na perpetuação desses padrões estéticos. Filtros que distorcem a imagem, afinam o nariz, diminuem as bochechas, aumentam a boca e dão um aspecto de pele sem defeitos são divulgados e utilizados por  milhares pessoas todos os dias.

As pessoas que usam estes filtros, diariamente, acabam se acostumando com a sua imagem alterada e passam a não se reconhecer, ou se aceitar, sem o filtro. Características individuais e únicas, como um nariz largo, passam a ser consideradas feias e fora do padrão.

Neste momento, a pressão recorrente para ter um corpo perfeito faz com que, todos os anos, milhares de pessoas busquem procedimentos estéticos sem considerar seus riscos. No ano de 2018, segundo uma pesquisa levantada pela Sociedade Brasileira de Cirurgias Plásticas, mais de 1 milhão de cirurgias plásticas foram realizadas. A pesquisa também aponta que 969 mil procedimentos estéticos não cirúrgicos foram contabilizados.

A dificuldade de atingir esses modelos, segundo a psicóloga Susana Veloso, gera muita ansiedade e afeta, diretamente, a auto estima das pessoas, o que faz com que, cada vez mais, elas busquem uma forma de mudarem seus corpos ao invés de desconstruir estes padrões.

A estudante Júlia Santos, de 23 anos, desistiu de realizar uma lipoaspiração depois de ficar sabendo dos riscos da cirurgia. “Eu cheguei a fazer consultas com vários médicos. Eu faria a lipo para tirar algumas gordurinhas que me incomodam quando tiro fotos de biquíni, mas depois de ouvir histórias de pessoas que morreram por causa da cirurgia eu desisti”, confessa.

Júlia acredita que os padrões impostos pela sociedade influenciam a forma como ela se vê nas fotos que tira. “Na internet, todo mundo é perfeito, é muito difícil ver algum corpo com o qual eu consiga me identificar”, lamenta.

 



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