Pessoas em uma mesa longa prestam atenção em uma explicação

A nova tendência do mercado de trabalho: ser traineezeiro

No momento em que batemos cerca de 14 milhões de desempregados no país, os programas de trainee se tornam cada vez mais atrativos para os recém-graduados, com salários iniciais na faixa de R$ 6 mil mensais

Por André Zorzin e Luísa Guimarães, alunes de Jornalismo do UniBH

Sair da universidade com uma vaga garantida no mercado de trabalho, a possibilidade de início de uma carreira sólida, no mínimo dois anos de experiência e aprendizado prático, e tudo isso recebendo um salário inicial na faixa de R$ 6 mil mensais. Não parece uma proposta ruim, não é mesmo?

Estamos falando de trainee, conhece? A palavra tem origem inglesa e significa aprendiz ou pessoa em treinamento, e tem se tornado um dos caminhos preferidos pelos recém-formados para iniciar a vida profissional. A oportunidade de começar a carreira em uma grande empresa se soma com os salários muito acima do que o mercado oferece para alguém em sua posição e deixa a alternativa trainee cada vez mais irresistível.

Mas como me tornar um trainee? Você deve estar imaginando que algo aparentemente tão bom assim deve ter muita concorrência, e tem. Os processos de seleção dos programas de trainee arrastam multidões de jovens do Brasil todo. As vagas? Disputadíssimas e, é claro, em um número muito singular.

Duas pessoas conversam e riem na mesa enquanto lancham
Lanche de recepção dos trainees com a diretoria executiva da Ambev. Foto – Ambev Brasil.
Muita concorrência, poucas vagas

Dez mil candidatos do país inteiro disputam sete vagas para a cidade de São Paulo. Quatro meses de processo seletivo em inúmeras etapas, dessa vez, online. Os participantes formam um grupo no aplicativo de mensagens instantâneas Telegram, a grande maioria tem entre 24 e 28 anos. Falam do Maranhão, do Mato Grosso, da Bahia, do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais, de Pernambuco e de todos os cantos do Brasil com um único objetivo, ser um dos sete a conseguir as vagas.

Entre eles, no grupo, o clima não é de disputa. Pelo contrário, existe ajuda e cooperação mútua. Eles mostram seus materiais de apresentação, pedem sugestões, trocam experiências e informações sobre o processo. Mas esse sentimento de equipe é rapidamente esquecido na hora das etapas, é quando lembram que são muitos e as vagas, poucas.

Quando existe a formação desse grupo, normalmente, o processo já está em uma etapa mais avançada e já deixou para trás boa parte dos dez mil inscritos no programa. Eram exatamente cem candidatos quando essa reportagem foi escrita, e as vagas se tornavam cada vez mais um sonho possível. Mais uma etapa e o número cairia para setenta.

E como chegar nesse grupo? Como ficar entre os 100 ou os 70 colocados de 10 mil inscritos? Existe fórmula mágica, “decoreba”? A resposta que você vai encontrar na internet é sim. Existe. Dezenas de vídeos ensinando como se portar em cada uma das etapas dos processos de trainee, ensinando o que falar sobre você. Isso mesmo. Ninguém quer ouvir quem você é de verdade, eles querem ouvir coisas específicas, e existe muita gente ensinando isso no YouTube: os coaches.

Coach de trainee

Assista a um vídeo, pegue uma apresentação pessoal de outra pessoa, reproduzida para quase um milhão de pessoas, adapte com suas informações e decore. Pronto. Eu – Maria Luiza – fiz. E estive entre os 100, e entre os 70 também. Passar em um processo de trainee é como estudar para concurso ou para a prova do Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM, por repetição.

É claro que não seria tão simples assim. Existem, sim, muitos professores de “como passar em determinado processo seletivo de trainee” por aí na internet, mas as coisas não se resumem a decorar apresentações pessoais, porque na grande maioria dos processos de seleção, ou pelo menos nos que dão para levar a sério, existem profissionais capacitados e aptos para observar habilidades que a empresa deseja em um candidato. São profissionais de recursos humanos, psicólogos, recrutadores, gestores e, até mesmo, em etapas finais, os CEOs da empresa.

A crítica que fica diz respeito à massificação desses processos, às análises das competências que são exigidas e à quase hegemonia de algumas habilidades comparadas a outras, o que é um fator que empobrece o mercado de trabalho e não é favorável para a pluralidade, nem de ideias.

Camila Pinto, 26, conta que desistiu da carreira de trainee justamente quando percebeu que teria que reproduzir discursos para ter êxito nas etapas ou nos programas. Após a segunda tentativa, a jovem mineira, recém-saída da faculdade de Direito, optou por seguir a carreira de bancária.

“Na primeira vez que fiz eu pesquisei tudo na internet, como falar, o que falar, peguei textos prontos e troquei pelo meu nome, cheguei até as etapas finais. Na segunda vez, na mesma empresa, tentei fazer sem ser no formato pré-estabelecido e não passei nem das etapas iniciais, aí percebi que não era para mim ”, conta.

Se, por um lado, há pessoas como Camila, que não se encaixam no ideal dos programas de seleção do tipo trainee, existem muitas outras que afirmam ter nascido

para aquilo e têm, como objetivo de vida, o ingresso no programa. Chamamos quem vive estudando para passar em um concurso de “concurseiro”, aqueles que dedicam seu último ano da faculdade e até dois anos após a conclusão (tempo máximo para entrar nos programas), são os chamados de “traineezeiros”.

Entrevistamos um jovem que completou seu segundo ano de tentativas para ser um trainee. Ele começou ainda antes de se formar, no seu último ano da faculdade e, hoje, após um ano de formado, já são nove processos realizados, ainda sem sucesso. Mas ele não descarta o sonho e lembra que, no final do ano, e durante 2022, ainda tem mais chances.

Como ele não quis se identificar, vamos chamá-lo por um nome fictício: Pedro. Pedro, 24, concluiu a faculdade de Engenharia Civil no final do ano passado e, desde os anos de 2019/2020, vem fazendo processos de seleção para trainee em diversas empresas. Inicialmente, ainda antes da pandemia de COVID-19, Pedro participou de quatro processos de forma presencial. No início de 2021, ele participou de mais cinco processos, dessa vez, todos de forma remota.

“Eu sou muito tímido e acredito que isso é meu maior desafio, sempre fico nas etapas das dinâmicas em grupo, mas agora, virtualmente, consegui avançar mais”, afirma o jovem que já se prepara para os processos cujas ainda vão abrir inscrições no fim do ano.

Alternativa a se considerar

O fato é que o Brasil conta, atualmente, com mais de 14 milhões de desempregados, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. E há ainda o número de desalentados, que são aqueles que já desistiram de procurar um emprego, que bateu recorde recentemente, com 5,9 milhões de pessoas. Sair da faculdade e ter um emprego garantido já virou quase que um projeto falido, ainda mais sair da faculdade e ter um emprego garantido com um salário bem acima do valor de mercado, como no caso do trainee. E o que precisa ser dito é que o projeto de ser um trainee tem se tornado uma das poucas chances de muitos jovens, que precisam sustentar famílias inteiras nas quais seus pais e mães perderam o emprego ou até a vida nessa pandemia.

Gráfico apresenta dados sobre o desemprego no Brasil
Evolução do desemprego no Brasil em 2020. Elaboração: Ícaro Guimarães

Além de ter uma situação financeira muito boa, no programa de aprendiz, o profissional tem a oportunidade de aprender sobre os mais diversos campos e funções, até entrar no campo que mais lhe convém. Essa parece uma ótima oportunidade para entender melhor seus interesses, as áreas que você quer atuar no mercado, desenvolver habilidades adaptativas e entender o que é melhor para o seu futuro.

Um dos principais atrativos dos programas de trainee é o grande número de cursos ministrados, tendo em vista que muitos desses cursos contribuem para a formação profissional e enriquecem os currículos. Muitas empresas oferecem cursos técnicos e de idiomas, por exemplo, para que os profissionais possam desempenhar bem suas tarefas. Com isso, mesmo que não escolha a área de habilitação ao final do curso, ele terá uma boa oportunidade que será aproveitada ao longo de sua carreira e também ajudará a encontrar outros empregos.

Conversamos com a profissional Priscila, 37, formada em Psicologia na Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, e hoje é mestranda em Psicologia do Trabalho, Organizações e Pessoas, na Europa. Ela está no mercado de trabalho há 13 anos, foi coordenadora de projetos de RH na Philips e gerente de desenvolvimento e treinamento na Coty. Priscila contou um pouco sobre como os programas de trainee podem ajudar o profissional em sua trajetória no mercado de trabalho. “O programa trainee é uma oportunidade interessante para a empresa e para o próprio trainee. Para o trainee, é uma chance de atuar em uma grande empresa, trabalhando com um projeto desafiador, construindo experiências relevantes para o desenvolvimento de sua carreira. Para a empresa, é uma chance de atrair pessoas diferenciadas, trazendo inovação e diversidade para os times”.

A mestranda também aproveitou para dar sua opinião a respeito dessa competitividade nos programas de trainee espalhados ao redor do Brasil, onde cada vez mais aumenta o número de candidatos para disputar as vagas desejadas. “O início da carreira é desafiador. É esperado que o recém-formado esteja buscando possibilidades em vários lugares, para conseguir se colocar no mercado e começar sua vida profissional. Como profissional de recursos humanos, não vejo problema em saber que o candidato está em vários processos seletivos. Para mim, é mais relevante entender o seu perfil, o motivo da minha empresa estar entre suas escolhas e como podemos agregar valor um para o outro. Do ponto de vista do candidato, sei que é um tempo de ansiedade e de cansaço. Não é fácil estar em vários processos seletivos, na espera por uma resposta positiva. Então, para os ‘traineezeiros’, recomendo que seja um tempo de também construir network, conhecer pessoas diferentes, seja nas empresas, ou mesmo os outros candidatos. Ter um espírito de construção poderá agregar mais do que um espírito de competição, no qual o objetivo seja derrubar o outro”, finaliza Priscila.

Mesmo perante desafios, a tendência é que os programas de trainee só aumentem ao longo dos anos, e muito provavelmente o número de candidatos também. Vamos ver em quanto tempo o programa trainee irá mesmo se tornar uma espécie de concurso no Brasil.



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