A moda é para todos?

Apesar de ser um mercado em ascensão, ainda é difícil encontrar peças plus size. Como podemos defender que a moda é para todos se nem todos conseguem vestir o que está na moda?

Por Glycia Vieira, aluna de Jornalismo do UniBH

Mari Lobo começou a carreira de modelo e influenciadora digital enquanto estava no processo de aceitação do seu corpo. Para ela, receber elogios vindos de usuários das redes sociais e perceber que algumas meninas se identificavam com ela, foi importante para seu processo. “Eu acredito que o que mais me incentivou foi conseguir ter esse retorno de várias pessoas falando que eu era bonita, afirmando algo que eu já era. Essa troca com minhas seguidoras, de eu incentivá-las e elas me incentivarem, foi muito importante, e vem sendo, para o meu processo de aceitação, até porque é um processo contínuo que, sinceramente, vou levar para a vida toda”.

Apesar de trabalhar com marcas conhecidas nacionalmente, a modelo e influenciadora acredita que o mundo da moda ainda é bem restrito. Ela conta que, ao tentar entrar em uma das maiores agências de modelos do país, foi recusada por causa da sua altura. Mari tem 1,65 cm. Além da altura, outros pontos levantados pela agenciadora, segundo a modelo, seriam as suas curvas. “Eu tenho 135 cm de quadril e a agência disse que eu teria que reduzir medidas para entrar. Obviamente, eu não entrei na agência por conta da altura, mas se eu entrasse eu teria que reduzir medidas”.

Segundo dados da Associação Brasileira Plus Size (ABPS), o mercado cresceu 10% em 2020 em relação ao ano anterior. Apesar de ser um mercado que está em crescimento no país, Mari Lobo conta que, em alguns trabalhos, é a única modelo gorda. Ela afirma que é complexo ter uma única pessoa para representar várias mulheres, enquanto vão ter várias outras representando as mulheres magras. “Ainda tem muita coisa aí para ser desconstruída, a gente colocar de igual para igual e fazer uma publicidade legal”. Isso, quando a marca realmente contrata uma modelo plus size. Mari conta conhecer uma modelo internacional que, apesar de não ser uma mulher gorda, faz trabalhos como plus size.

A produtora de moda, Juliana Jazra, reafirma que não é difícil ver modelos que não são plus size atuando para marcas que atendem esse público. “É uma coisa que a gente vê claramente. A maioria das marcas tem uma falsa representatividade nas campanhas, a maioria das marcas plus size colocam mulheres com medidas menores”, denuncia. Para a produtora de moda, o interesse das marcas é apenas financeiro. “A maioria das marcas tem começado a dar uma atenção ao corpo do gordo, não porque querem incluir, mas por ser um mercado lucrativo, com muito público”. Segundo a ABPS, nos últimos três anos, o Brasil avançou 21% no segmento, movimentando, aproximadamente, R $5 bilhões por ano.

Mesmo sendo um mercado altamente lucrativo, Juliana afirma que existem marcas que sentem vergonha de atender esse público. “As pessoas ainda enxergam o corpo gordo como inferior, feio, um corpo extremamente estereotipado. Existem muitas marcas que têm vergonha de fazer roupa para gordo ou, quando fazem, é uma coisa super secreta,para não ‘manchar o nome da marca’. Já cansei de escutar relatos de pessoas que trabalham em lojas, várias marcas grandes, em que vários vendedores relatam que os donos morrem de vergonha de colocar um manequim plus size em uma vitrine”. Para ela, isso tem um nome: gordofobia.

Inclusão de pessoas gordas 

Gordofobia é a aversão às pessoas gordas. Quem promove a gordofobia, geralmente, faz comentários sobre o corpo dos outros com a desculpa de que está preocupado com a saúde. Mesmo não estando na frente das câmeras, Juliana já vivenciou situações constrangedoras por ser uma mulher gorda. “Não é comum ver gordos trabalhando com moda, não digo nem na passarela. Na passarela é um outro assunto, que é um buraco mais embaixo. Mas é uma área que impossibilita muito o acesso da pessoa gorda, justamente porque existe um tabu a respeito do corpo gordo que é reforçado muito mais dentro da moda, então já tive muitas dificuldades, muitos olhares diferentes, principalmente no começo. Hoje, não é uma coisa que me abala mais, até porque sou muito bem resolvida comigo”.

Além disso, a produtora afirma que foram poucas as vezes em que viu pessoas gordas em lugar de destaque no seu ambiente de trabalho. “Eu consigo contar na minha mão quantos desfiles eu vi, quantos desfiles eu participei, em que eu vi um corpo parecido com o meu, sendo vangloriado, exaltado, aplaudido, da mesma forma que um corpo magro”, enfatiza.

A produtora Juliana Jazra em foto postada em suas redes sociais. Imagem: Instagram/Juliana Jazra.

Nicole Benedicto é criadora da marca Tributai Store. A empresária conta que, inicialmente, vendia roupas nos tamanhos tradicionais, mas por insights de amigas, ela se atentou a produzir uma grade maior. “Nossa mente não está preparada para a inclusão. A gente pensa no P, M, G, GG, no máximo”. Foi quando percebeu que o mercado era escasso e que poderia dar certo. “É um público que carece de peças atuais”, afirma Nicole. Hoje, 89% dos clientes da Tributai são plus size.

Nicole afirma que o principal diferencial da marca é manter o preço das peças. Para ela, não existe a necessidade de cobrar um valor maior por ser uma peça plus size, como é possível ver em outras marcas. “Isso é ridículo”, enfatiza a empresária. Segundo ela, a diferença de preço para fabricação de peças maiores não é grande. “Não é nada que vá quebrar uma empresa”. O que realmente acontece, de acordo com Nicole, é que o trabalho aumenta por ter que produzir mais produtos. Apesar disso, ela não acredita que este é o principal motivo para marcas não trabalharem com uma grade extensa.

Nicole Benedicto durante sessão de fotos da sua marca. Imagem: Arquivo pessoal/Fotógrafo: @olimabr.

Sobre o fato de marcas contratarem modelos que não são plus size, Nicole afirma que a culpa não é das modelos, mas das marcas que optam por isso. “Não sei se entendo o motivo, não sei se, para eles, ligar a marca deles a pessoas gordas é uma coisa ruim, porque a gente sabe que o mundo é assim, né? Infelizmente”. Apesar de não ter certeza, ela acredita que isso não é feito pensando no público, mas no retorno financeiro. “Porque se realmente se importassem, não fariam apenas uma coleção plus, fariam todas as peças da loja”.

Inicialmente, Felipe Duart começou a criar conteúdos sobre moda no Instagram, por ser algo que gosta muito. Com o tempo, pessoas que se identificam com seu estilo começaram a segui-lo e ele percebeu o quanto este público era carente de referências de estilo. “Eu comecei a mostrar mais para compor as minhas roupas, as minhas ideias, e aí a galera começou a chegar e falar ‘poxa, eu sou gordinho igual a você, uso roupa grande’”.

O criador de conteúdo afirma que não tinha como pauta falar sobre aceitação, mas que as pessoas, aos poucos, foram introduzindo o assunto nas conversas e, consequentemente, nos conteúdos. “Escuto muito sobre marcas que mascaram o plus size, com modelos menores ou que só vestem até o GG, e isso expandiu meu campo de visão”, conclui.

Diversidade de peças e de corpos 
Felipe Duart cria conteúdos sobre moda nas suas redes sociais e mostra os looks que usa no seu dia a dia. Imagem: Instagram/Felipe Duart.

Um dos grandes desconfortos do público plus size na hora de fazer compras é quanto ao modelo e formato das roupas que, muitas vezes, não acompanham as tendências da moda. A modelo e influenciadora, Mari Lobo, conta que essa é uma dificuldade que encontra quando vai às lojas. “Quando você vai ver a parte plus size, são umas roupas menos joviais, mais adultas, e a gente pensa: ‘as mulheres gordas são só as mulheres mais velhas? Nos seus 50 anos?’ Não, temos mulheres gordas jovens”.

Se, hoje, algumas marcas, como a Tributai, se importam e se preocupam com o público plus, é algo a se comemorar. A empresária Nicole Benedicto lembra dos diversos comentários que recebe diariamente dos clientes e da felicidade dessas pessoas ao adquirir os produtos da marca. Alguns, inclusive, citam que foi na Tributai que encontraram peças atuais e que vestem todos os corpos, independente do formato. “Isso é muito gratificante pra mim”. Nicole acredita que uma forma de reforçar essa luta pela pluralidade é na produção das fotos. Para ela, falta trazer “realidade” nas fotos, evidenciando o corpo natural. “Acho que falta trazer um pouco mais de realidade e tornar o ambiente, o Instagram, a marca, o site, um ambiente mais confortável para as pessoas”, finaliza.

Já para Juliana Jazra, o fim da gordofobia é uma grande forma de reforçar essa luta. Com o fim dessa discriminação, a produtora de moda acredita que vai ser possível chegar em um alto nível de representatividade e aceitação. “É preciso entender que o corpo gordo é tão normal quanto o corpo magro, ele merece ser tão amado quanto o corpo magro. Quando a gente chegar em um patamar onde nós vamos ser olhados da mesma forma que olhamos para um corpo magro, que nós vamos ser cuidados da mesma forma que as pessoas cuidam de um corpo magro, nós vamos chegar nesse nível de representatividade”. Juliana também reforça a importância de cada vez mais pessoas gordas ocuparem espaços que antes não lhes eram dados. “A gente está abrindo um caminho para outras pessoas gordas, para que outras pessoas se sintam encorajadas e sintam que ali é o lugar delas”.

 



0 0 vote
Article Rating
Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments