A luta não descansa

A falta de sinceridade, por parte de uma dita “militância”, pode prejudicar a luta verdadeira que vai muito além do @ e da #

Por Sarah Aquino

Militar é defender de forma ativa uma causa, seja o feminismo, o movimento antirracismo, o movimento corpo livre, os direitos dos animais, os direitos indígenas, o orgulho LGBTQIA + ou quaisquer outras pautas. Mas com a ascensão da internet e das redes sociais, principalmente o (do já não tão usado) Facebook, o Twitter, o Instagram e o YouTube, um limbo se formou e, para compreendermos, precisamos voltar em 2010.

Ilustração: Sarah Aquino.

A partir de dezembro de 2010, no Oriente Médio e em Estados no norte da África, estouraram movimentos sociais denominados Primavera Árabe. De acordo com um estudo de Relações Internacionais sobre a relação da Primavera Árabe e as redes sociais, o movimento, na medida em que transpunha as fronteiras nacionais com a difusão de informações, causava a necessidade da sociedade civil de se unir

e disseminar as suas demandas por mudanças. Trata-se de um período de transformações históricas no âmbito da política mundial, que teve causas semelhantes, contudo, tendo resultados específicos em cada país.

Com uso de mídias sociais, pode perceber-se um conjunto diversificado de interesses políticos com o intuito de organizar e comunicar ações no interior dos Estados e entre eles, interconectando as sociedades. Sendo a internet a principal plataforma usada durante a Primavera Árabe, tanto pelos militantes quanto pelo governo opressor, começou a ser cunhado o termo “militante das redes”.

No Brasil, as redes sociais “uniram” o país em 2013, quando manifestações que trouxeram diversas pautas, como a alta tarifa e ineficiência dos transportes coletivos, má qualidade dos serviços públicos, gastos exorbitantes com eventos esportivos internacionais e a elevada taxa de corrupção política e impunidade, estouraram por todo território no que ficou conhecido como “Jornadas de Junho”.

 

Ilustração: Sarah Aquino.

O ciberativismo “acordou o gigante” e mobilizou uma das maiores manifestações no país desde as manifestações de 1992, pelo impeachment do até então presidente Fernando Collor. Uma consequência disso é que a internet se tornou o cenário central de reclamações e reivindicações políticas, às vezes não causando todos os efeitos desejados. A tendência é que os movimentos virtuais, criados e disseminados principalmente entre os jovens, cresçam, sejam melhor articulados e ganhem força, como informado em uma matéria do UOL sobre o que chamam de “militantes de sofá”.

Mesmo com a juventude mostrando-se politizada e engajada em causas sociais nas redes, nem sempre o discurso virtual condiz com a conduta do dia a dia. Em entrevista para o Portal UOL, a psicóloga cognitivo- comportamental, Mara Lúcia Madureira, expõe que “esse paradoxo existe porque hoje ‘pega bem’ ser ou parecer politizado”. “É típico da juventude a necessidade de pertencer ou de se engajar em movimentos que estão em evidência no momento”. Para Brenda Avelar, blogueira sobre moda plus size e antigordofobia, o problema está nas pessoas que querem se aproveitar da causa e não na internet, já que “sem a internet, muita mensagem, muito avanço, não teria ocorrido”.

Os “militantes de sofá” se engajaram durante as manifestações de 2013, mostrando sua importância, mas após as “Jornadas de Junho”, voltaram para seus sofás. “É urgente que a gente consiga tirar as pessoas desse sofá e trazê-las para a luta real, concreta, do dia a dia do mundo offline. Esse é um desafio importante”, comenta Matheus Carvalho, também conhecido como @militantecansado no Instagram. As jornadas levaram muita superficialidade e rivalidade para as ruas em determinado momento, causando a perda de foco de todo um movimento unido, que tinha ganhado com a “volta atrás” do governo quanto ao aumento das tarifas dos transportes públicos. Tendo ainda que lidar com o desserviço de “falsos ativistas”, os militantes têm que enfrentar os discursos de ódio – o famoso hate – e a “cultura do cancelamento”. Termos que considero um tanto quanto problemáticos, como o “descansa militante”, passaram a ser muito usados nos comentários de pautas que são levantadas, fazendo com que as redes sociais da vida também se tornassem ambientes tóxicos. “O termo ‘descansa militante’ está no mesmo patamar do ‘mimimi’, ambos são usados para invalidar o que o outro tem para falar”, afirma Brenda. O mimimi traduz-se como: pare de ver problema onde não tem, você está reclamando demais e essa pauta é totalmente sem sentido.

As redes sociais contam ainda com os bots (robôs, em inglês) para realizar tarefas repetitivas e automatizadas. Dentre eles há diversos tipos, incluindo o bot do mal, capaz de espalhar fake news, criar perfis falsos, encontrar e se aproveitar de sites vulneráveis a ataques. Uma pesquisa de 2017, feita pela Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, afirmou que ao menos 15% do total de 330 milhões de perfis do Twitter eram falsos e compostos por bots, que tinham a função de retuitar, tuitar e seguir os chamados influenciadores, a fim de engrossar estatísticas de famosos e até de políticos. Tal problema levou o Twitter a excluir milhões de contas falsas dentro da rede, assim como o Instagram, que também passou pelo mesmo problema.

O professor de Filosofia, Bruno César Gusmão, afirma que não acredita que as redes sociais sejam o ambiente certo para discussão de pautas mais sérias, já que para isso seja preciso uma linguagem acadêmica que não condiz com a linguagem da internet, que é simplificada. Ainda segundo o professor, na internet há muito mais informatização do que geração de conhecimento, o que evidencia a necessidade da luta dos militantes estar presente na vida offline e não só pautada nas plataformas digitais. 

 



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