A vulnerabilidade LGBTQIA+ frente a pandemia de Covid-19

Os quadros depressivos afetam 10% dos adultos brasileiros em geral, enquanto atingem 25% dos LGBTQIA+

Por André de Paula e Marcela Reis, alunes de Jornalismo do UniBH

Bem antes da pandemia, já era de conhecimento geral que pessoas LGBTQIA+ sofrem dos mais diversos tipos de exclusões. Porém, o atual cenário de isolamento social veio a agravar as condições psicológicas, socioeconômicas e até mesmo afetivas da vida de algumas dessas pessoas de forma única, enfatizando uma série de problemas e negligências já enfrentados por esse público.

De acordo com a pesquisa realizada pelo coletivo #VoteLGBT, cerca de 42% das pessoas entrevistadas alegaram piora na saúde mental, outras 39% mencionaram dificuldade de lidar com as regras do convívio social, a convivência familiar e a solidão, associadas ao afastamento das redes de apoio que muitas pessoas tinham antes da pandemia, 17% disseram enfrentar dificuldades econômicas e se sentem fortemente afetadas pela falta de emprego e dinheiro, e 54% afirmaram precisar de apoio psicológico.

Luta LGBTQIA+
População LGBTQIA+ fica ainda mais vulnerável durante a pandemia de Covid-19 no Brasil. Imagem: Unsplash.

Segundo o mesmo estudo, a população LGBTQIA+ está mais propensa que a média nacional a sofrer com problemas de saúde mental. Ao analisar esse grupo, é possível associar a manifestação recorrente de problemas mentais e emocionais, como depressão e ansiedade, ao convívio rotineiro com as diversas formas de preconceito. Tendo em vista esse cenário, podemos entender que a quarentena e o isolamento social limitaram muitas dessas pessoas a ambientes familiares muitas vezes pouco saudáveis, bem como impossibilita que pessoas LGBTQIA+ se congreguem presencialmente a fim de fortalecer seus vínculos e o senso de comunidade.

Foi o que alegou a entrevistada Laura Carmine, mulher trans e estudante de 21 anos. Segundo ela, durante o período de isolamento social, se viu forçada a conviver por muito mais tempo com os familiares, que ainda apresentam resistência em compreender sua identidade de gênero.

“Me revelei trans faz mais ou menos 4 anos, de lá pra cá minha mãe me trata com muita rispidez. O tempo que eu passava fora de casa era precioso para colocar a minha cabeça no lugar, agora eu não tenho mais esses momentos, acabo me sentindo muito mais cansada psicologicamente”, declarou a estudante de Biologia.

Ela também disse que estar afastada de outras amigas trans tem reforçado a sua sensação de solidão, o que a faz se sentir ainda pior diante do comportamento transfóbico por parte da família.

Já Victor Mendes relatou que sua maior dificuldade vem sendo prover seu sustento estando confinado em casa. “Eu sou ator e mesmo fazendo trabalhos virtuais, minha família faz constantes críticas homofóbicas relacionadas ao meu trabalho com figurinos. Eu nunca precisei lidar com esse tipo de desconforto nos espaços em que trabalhei, é muito desgastante ter que passar por isso em casa”, desabafou o jovem gay, de 26 anos.

Victor também mencionou que os eventos LGBTQIA+ eram uma grande fonte de renda para ele e, nas atuais circunstâncias, continuam inviáveis. “Minha renda caiu muito e acredito que a de grande parte das pessoas com quem eu trabalhava também. Os eventos eram minha principal forma de conseguir dinheiro”, completou.

Entrevistamos também o psicólogo clínico e pós-graduando em psicologia social, Renato Neves, e ele fala sobre o agravamento do sofrimento mental em pessoas LGBTQIA+ durante o contexto da pandemia.

Segundo Renato, é muito válido ressaltar que pessoas da comunidade LGBTQIA+ já sofriam com o isolamento antes da Covid-19. Ele explica que, em sociedades de base patriarcais como a nossa, as pessoas do grupo LGBTQIA+, e que estão mais próximas do feminino como, por exemplo, as mulheres trans, os casais de mulheres lésbicas e os homens gays que são mais afeminados, já viviam uma rotina de esconder quem eles são em determinados espaços. Renato cita que é importante lembrarmos que esse medo não se trata de um medo irracional, se trata de ter medo do real e do que exatamente pode ocorrer.

Ainda de acordo com o psicólogo, as pessoas LGBTQIA+ estão sofrendo um isolamento duplo, pois além de se esconderem das idealizações da família tradicional brasileira, agora também enfrentam o isolamento por causa da pandemia. “Tenho observado na clínica que as pessoas LGBTQIA+ chegam com mais sintomas de angústia e de ansiedade justamente porque agora elas não têm muito para onde fugir”.

Renato Neves também menciona que, antes da pandemia as pessoas tinham os espaços públicos, os eventos e visitavam as casas de pessoas queridas que as acolhessem e, agora, pessoas que são do grupo LGBTQIA+ e convivem com familiares que nãos os aceitam, estão sendo obrigados a passar muito mais tempo com essas pessoas, estando mais sujeitas a agressões, sejam verbais ou físicas.

Ao longo da vivência LGBTQIA+, grupos extrafamiliares muitas vezes acabam por substituir o papel familiar, oferecendo esperança para que essa pessoas tenham uma referência e que se vejam em outros espaços.

O pós-graduando também enfatizou o papel de eventos, como a Parada LGBTQIA+, como uma referência no espaço público muito importante para que a pessoa LGBTQIA+ se veja sendo representada, bem como um dispositivo de conscientização cotidiana sobre a luta da polução LGBTQIA+, esta, que nas atuais condições sanitárias do país, ainda se encontra inviável.

Para Renato, as redes de apoio são importantes para que essas pessoas não acabem no fatalismo, se alienando aos discursos homofóbicos que são repetidos através de piadas, anúncios, publicidades e através das falas de pessoas de certa relevância e que trazem mensagens homofóbicas (em algumas vezes disfarçadas). Por isso, a necessidade de existir um suporte, para que as pessoas não vivam presas em sentimentos negativos sobre elas mesmas.

“Todas as redes de apoio são muito importantes, mesmo que seja uma rede de apoio entre amigos. A ausência dessas redes pode agravar muito a saúde mental de determinadas pessoas do grupo LGBTQIA+, muitas vezes elas procuram nessas redes de apoio o que elas nunca tiveram da família”, completou.

Saúde Mental
De acordo com pesquisa do coletivo #VoteLGBT, 54% das pessoas LGBTQIA+ afirmam precisar de apoio psicológico. Imagem: Unsplash.

Conforme dados divulgados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), no ano de 2020, a cada uma hora, uma pessoa sofre violência devido à sua identidade de gênero ou orientação sexual, seja ela física, moral ou psicológica.

A desassistência do sistema de saúde à comunidade os deixam ainda mais vulneráveis. Segundo uma pesquisa realizada pelo Inquérito Nacional de Saúde LGBTQIA+, juntamente com Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), durante a pandemia de Covid-19, 36% das pessoas que pertencem à comunidade mencionaram casos de intolerância semanais, sendo 11% dentro do sistema de saúde.

De acordo com dados da Pesquisa Nacional de Saúde, feita pelo Instituto Brasileiro de Gerografia e Estatística (IBGE), no ano de 2019, enquanto os quadros depressivos afetam 10% dos adultos brasileiros em geral, 25% da comunidade LGTQIA+ é afetada.

Ainda conforme a pesquisa, esses dados revelam a grande carga de depressão e ansiedade nas pessoas da comunidade, e reforça a necessidade de fazer um rastreio de saúde mental identificando as pessoas que estão sob maior risco, dando suporte psicológico e prevenindo episódios suicidas.

Apesar da importância dos grupos de suporte, é necessária a construção de políticas permanentes que vão além do assistencialismo, para que a pessoa que está em uma situação vulnerável se sinta acolhida e confortável a buscar e a receber um tratamento adequado.



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