A luta feminina pela igualdade no futebol

Mesmo com o crescente apoio e investimento, o futebol feminino segue com valores muito pequenos quando comparado ao masculino, tanto em premiações, quanto em salários de jogadoras.

Por Luís Otávio Peçanha, aluno do 6º período de Jornalismo, e Thiago Toledo, aluno do 5º período de Publicidade e Propaganda

O cenário atual

O Brasil é conhecido como um país apaixonado pelo esporte. Tal paixão e entrega de sua população para acompanhar equipes de diversas modalidades é algo presente na cultura do país. Existe uma máxima, conhecida por todos, em território nacional e internacional, que diz: “O Brasil é o país do futebol”.

Essa afirmativa faz referência à representatividade e influência do país dentro do esporte, em que o Brasil foi responsável por criar grandes craques mundiais, ter uma das seleções mais vitoriosas e respeitadas do mundo e apresentar equipes dominantes e marcantes na história do futebol.

Além disso, somos um dos países que mais consome este esporte, com grandes números de público em estádios (em épocas pré-pandemia), recordes de audiência em televisão, compra de produtos oficiais, assinaturas de planos de canais para transmissão de jogos, assinaturas de sócio-torcedor.

A máxima “o Brasil é o país do futebol” representa bem o envolvimento dos brasileiros com o esporte, mas é preciso ressaltar um equívoco comum nessa afirmativa. O Brasil é, sim, o país do futebol, mas é o país do futebol masculino. A paixão pelo esporte é nacional, move desde crianças a idosos, todos os apaixonados têm alguma história marcante para contar: um gol fantástico, algum grande jogador que viu jogar, um título que assistiu, uma defesa incrível.

A desvalorização do futebol feminino

O “futebol alegre” que o Brasil apresentou para o mundo cativa, mas, muitas vezes, não valoriza o futebol feminino, tendo pouco prestígio em uma sociedade machista e retrógrada, como foi possível perceber ao comparar os picos de audiência do Campeonato Brasileiro de 2020. Em ambas as categorias, a Band registrou picos de 5 pontos na transmissão do campeonato feminino, enquanto a Globo teve como recorde de audiência 45 pontos no campeonato masculino. Quem mais sofre com isso são as atletas, que também abriram mão de muita coisa em suas vidas, com pouca idade, para correrem atrás de seus sonhos.

Caroline Shimoguiri é um exemplo disso. A meio-campista das categorias de base do Cruzeiro contou sobre os preconceitos que já sofreu por ser apaixonada por futebol.

“Lembro que a diretora da minha ex-escola me trancava na sala durantes as aulas de Educação Física porque não queria que eu jogasse com os meninos. Os “apelidinhos” também sempre fizeram parte da minha rotina quando criança: macho-fêmea, homenzinho”, lamenta.

A atleta, que teve seu primeiro contato com futebol na sua cidade natal, Presidente Prudente, onde ganhou uma bola rosa do treinador de um time feminino do município, segue na sua caminhada em busca de seu maior sonho: jogar na seleção brasileira. “Quero poder ajudar mais minha mãe nas contas de casa, ajudar meus amigos e viver do futebol, não apenas sobreviver”, afirma.

O relato de Carol chama a atenção para um problema que já persiste há muito tempo no esporte: a discrepância dos valores investidos entre o futebol masculino e feminino. Fez-se muito comum a comparação salarial entre os principais atletas de categorias femininas e masculinas, como no Enem de 2020, onde foi traçado um paralelo entre os vencimentos de Neymar e Marta, que chocou pela desigualdade nos valores. A diferença entre os números é tão gritante que beira o incomparável.

Para ilustrar melhor a desvalorização do futebol feminino, comparamos o salário da mesma Marta, considerada a “Rainha do Futebol”, com William Pottker, jogador do Cruzeiro, na série B do Campeonato Brasileiro, torneio de baixo poder econômico e técnico a nível mundial.

Tamanha desigualdade não é vista apenas nos salários dos atletas, mas, também, nas premiações de torneios, entre eles o mais relevante do esporte a nível mundial: a Copa do Mundo. Mesmo com o aumento de 50%, o investimento na Copa do Mundo de Futebol Feminino segue com valores pífios em comparação aos valores do futebol masculino.

“Quanto à desigualdade, existem vários campeonatos no masculino que não existem no feminino, e isso prejudica a visibilidade e o retorno. Infelizmente sofremos com isso. Se o futebol feminino não tem retorno, não tem investimento, então as premiações são bem desiguais em todos os campeonatos. Tem campeonato que é uma medalha, um troféu e parabéns”, contou a atacante do Atlético Mineiro, Aline Guedes.

Lutando contra um estigma

O rótulo do futebol como um esporte para homens é um dos principais obstáculos para equiparar os investimentos entre ambas as categorias, uma vez que, a maioria do público masculino que se recusa a assistir partidas de futebol feminino baseia-se em argumentos pautados no machismo, como ao dizer que o jogo é chato e com baixo nível técnico.

Segundo dados divulgados pela FIFA, a audiência da final da Copa do Mundo Feminina de 2019 foi de 82,18 milhões de pessoas, enquanto a final da Copa Masculina de 2018 teve 1,12 bilhões de espectadores, o que escancara a diferença entre o retorno das duas categorias, resultando em um menor investimento no feminino.

Em uma sociedade onde os homens são estimulados desde crianças a demonstrarem comportamento violento, buscando uma comprovação de sua masculinidade, o futebol, por ser um esporte de contato e exigir muito da força física, passou a carregar esse estigma de ser um esporte masculino. Este estímulo à violência masculina desde a infância está muito presente nos brinquedos e desenhos animados, em que, aos garotos, são atribuídos desenhos de luta, bonecos de guerra, armas de brinquedo, enquanto, às garotas, são atribuídos brinquedos que remetem a atividades domésticas, como cozinhas para fazer comidinha imaginária, pias de lavar louça, vassourinha, carrinho de supermercado. Essa definição de quais brinquedos e brincadeiras são destinados para quais gêneros ajudam a perpetuar, já entre as crianças, este estigma em nossa sociedade.

“A mulher sempre sofre com preconceitos. Sofremos até hoje, infelizmente. Já diminuiu bastante, a aceitação vem sendo maior, mas ainda sofremos. Maria-homem, maria-chuteira, pessoas falando que a gente não sabe jogar, que o nosso futebol é muito bagunçado. Mas, querendo ou não, o futebol feminino vem crescendo, isso nos traz mais visibilidade e podemos mostrar que não é assim que funcionam as coisas, que o nosso futebol é profissional”, afirmou Aline Guedes.

Por esta luta não se restringir apenas a uma questão esportiva, mas também a uma questão social, a mídia tem grande impacto e grande influência, uma vez que, por muitas vezes, ela se apropria de um discurso retrógrado da sociedade e pode colaborar para que seja perdurado. Alguns exemplos podem ser vistos nas capas da Revista Placar na década de 90, aliando o futebol, assunto principal da revista, à imagem da mulher, tratada de forma hiperssexualizada e objetificada, buscando atrair e agradar um público masculino adulto.

Capa da Edição 1106 da Revista Placar, 1995

 

Capa da Edição 1111 da Revista Placar, 1996

Já no século XXI, com a chegada da internet e das redes sociais digitais, discussões sobre as bases machistas da nossa sociedade, a busca feminina pela igualdade e o espaço que lhes foram negados por muito tempo se fizeram cada vez mais presentes, fomentando uma mudança visível, porém, ainda diminuta, na mentalidade da população e, por consequência, da mídia.

Uma campanha institucional de 2017, feita pelo Banco Itaú, é exemplo desta mudança. O filme publicitário “Sonho”, produzido pela Agência África, é uma ótima ilustração do que é o futebol, tendo como figura central uma menina, para reforçar o fato de que o Itaú patrocina todas as seleções brasileiras de futebol, masculinas e femininas, de base e profissional.

A representatividade e a forma sutil como o assunto é abordado no filme, sob o ponto de vista de uma criança sonhadora, faz com que outras meninas se identifiquem e pode ajudar no processo de desconstrução de paradigmas internalizados em nossa sociedade. O filme, ao utilizar o futebol para abordar a temática “sonhar”, poderia seguir pelo lado convencional, como vários outros já seguiram, e trazer um garoto como personagem. Escolher abordar o assunto sob a ótica feminina ajuda a mostrar à um lado mais tradicional da população que as garotas também amam o esporte, também sonham em ser jogadoras e precisam de mais oportunidades e visibilidade para realizarem os seus sonhos.

Conversamos com Débora Oliveira, 25 anos, pós-graduada em Ensino de História, professora de História na rede pública de ensino de Belo Horizonte e escritora da página @futminass no Instagram, perfil voltado para cobrir o futebol feminino de Minas Gerais. Durante a conversa, Débora explicou a situação atual do futebol feminino no país e expôs sua visão sobre o futuro da modalidade.



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