A importância do design invisível

Como cantava Elis Regina, em música composta por Sergio Natureza e Tunai, as aparências enganam. Esta colocação não é válida somente para relações interpessoais, vale também para o relacionamento de uma marca com o seu consumidor.

Por Thiago Toledo, aluno do 5º período de Publicidade e Propaganda

Um aspecto de muita e crescente importância na atualidade é a forma como uma marca se comunica visualmente. Indo além de uma identidade visual bem definida, a sua aplicação também requer atenção e investimento: placas, panfletos e conteúdos em redes sociais, por exemplo, precisam seguir, além do manual da marca, os princípios do design, principalmente, os quatro básicos.

Os quatro princípios básicos do design

 São eles: contraste, repetição, alinhamento e proximidade. Eles devem ser seguidos para criar uma peça harmônica, organizada, que siga uma hierarquia de informações, de forma a entregar a mensagem que ela se propõe a entregar, cumprindo o seu propósito e sendo esteticamente agradável.

O contraste é usado para destacar o que deve chamar a atenção, dar relevância visual a determinados pontos, ajudando na hierarquização da peça. É alcançado com a utilização de elementos, cores complementares, letras em negrito, imagens, dentre outros.

 

No cartaz do filme ET: O Extraterrestre, de Steven Spielberg, podemos perceber muito bem o uso do contraste para destacar Elliot e o ET voando na bicicleta.

 

 

 

A repetição de alguns elementos é necessária para criar uma composição harmônica, eficaz e consistente, além de, também, criar padrões que ficam no imaginário do público. A repetição de fontes e elementos em uma determinada peça, ou até a repetição de esquema de paletas de cores em peças diferentes, cumprem este propósito.

O alinhamento funciona de modo a organizar as informações, de forma que elas fiquem bem distribuídas e bem encaixadas. Uma ferramenta que auxilia muito para definir um alinhamento eficaz é o grid, que, para este propósito, funciona como uma grade na qual o designer se baseia para montar o seu trabalho, distribuindo as informações em um determinado espaço de forma equilibrada.

Uma vez que é o próprio designer quem monta este elemento, o grid pode possuir variadas formas e cumprir diferentes propósitos, sendo também muito utilizado na criação de logotipos.

Já a proximidade, estabelece que elementos próximos indicam semelhança, logo, o agrupamento destes é necessário para que não haja um estranhamento, trazendo uma sensação de naturalidade e harmonia, uma vez que a distância indica diferença.

Neste exemplo do princípio da proximidade, podemos perceber que a nossa visão tenta unir os três elementos semelhantes, mesmo que estes estejam separados.

Afinal, o que é um bom design?

 Com os negócios cada vez mais digitais, se faz ainda mais necessária a contratação dos serviços de um designer. Construção de sites, peças gráficas para redes sociais, construção de identidade visual, são demandas crescentes no mercado, e estão diretamente atreladas ao profissional do design.

“Um bom design é o design que atende à demanda, ao briefing. É o que consegue traduzir o que o cliente está pedindo e, mais do que isso, solucionar aquele problema. O design bom é o que é útil, ele precisa ser útil, tem que ter uma função. Essa função é diretamente ligada à essa demanda e à essa necessidade do cliente”, pontua Phellippe Samarone, diretor de arte sênior da agência Lápis Raro.

Indo além da questão estética, que é subjetiva, o investimento em design soluciona problemas e passa uma imagem de profissionalismo ao empreendimento. O bom design cumpre com o propósito que lhe foi definido e não “salta aos olhos”, sem excessos nem exageros, sendo visto de forma que passa a sua mensagem de maneira descomplicada e natural, sendo esse, o chamado design invisível.

“Obviamente, o design e a direção de arte podem ser autorais e atenderem uma questão mais subjetiva, mas eles nascem de uma necessidade mercadológica. Eles vão impactar positivamente se eles forem feitos seguindo estas diretrizes e estes direcionamentos do cliente, acredito muito que esse positivo não vem só da parte estética, vem dessa questão funcional do design”, acrescentou Phellippe Samarone.

 Saber usar um software é diferente de ser um designer

Em tempos de pandemia, o mercado de cursos online se expandiu consideravelmente, aumentando, e muito, a oferta de cursos práticos de design. Muitos desses cursos, porém, não passam nenhum conhecimento teórico do design, apenas funcionalidades de softwares de edição, nos trazendo a pergunta: seriam estes cursos para se tornar um designer ou apenas um operador de software?

O designer freelancer, conhecido como o personagem “Maloca”, possui um portfólio no Instagram com quase três mil seguidores e nos contou um pouco sobre esta diferença.

“A diferença entre o bom designer e o operador de software passa pela busca de conhecimento, de ir além, de saber aplicar partes teóricas como tipologia, psicologia das cores, harmonização, diagramação, proporção áurea, gestalt, semiótica. A busca por estar sempre antenado com as tendências”, explicou o designer.

Maloca ainda nos contou um pouco sobre sua história com o design.

“Sempre fui uma criança apaixonada por desenhar, principalmente desenhar e redesenhar escudos de times de futebol e do basquete americano. Na adolescência, tive meu primeiro contato com outra das minhas paixões, criar tipografias, através das oficinas de grafite na escola.

Na fase adulta, fiz um curso técnico de design gráfico, mas me vejo como um autodidata, porque me considero um profissional em constante formação, em eterna evolução e aprendizado, até mesmo porque o design gráfico e a comunicação visual são áreas que vivem em constante mutação, então estou sempre estudando, seja fazendo cursos pela internet, ou lendo livros e pesquisando, principalmente sobre tipografia, tipologia, pesquisando tendências lá fora.”

Phelippe Samarone também deu o seu parecer sobre a questão proposta.

“As principais diferenças de um bom designer/diretor de arte para um operador de software é que é muito fácil você sentar em uma cadeira e fazer um layout, o difícil é o que vem antes, é o pensar. Então, o que diferencia, para mim, de forma mais perceptível, é o profissional que pensa mais antes de executar, chegar naquela ideia demanda muita pesquisa, demanda um background do profissional, e isso é o que diferencia.

Tendências do design em 2021

 Em um cenário de mudanças constantes e alta instabilidade, como é o momento em que vivemos, fica difícil fazer previsões para o futuro, porém, ainda assim, com uma certa análise sobre o comportamento do mercado, o designer e estudante de Publicidade e Propaganda do UniBH, Matheus Rocha, trouxe a sua visão sobre estas tendências.

“Tenho notado algumas desde 2020, a primeira delas é o uso de paletas de cores mais suaves, muito decorrente do momento que estamos vivendo. As pessoas precisam ser incentivadas positivamente, precisam de mais calma, essas paletas têm ganhado muita força nesse momento.

Outra tendência que tem retornado são as fontes com serifa, aquelas fontes clássicas, mais elegantes, que trazem mais confiabilidade e também estão ligadas a uma questão de nostalgia. São fontes menos modernas e muito tradicionais e elas trazem uma sensação de segurança, o que também conversa com esse momento de pandemia, uma vez que as pessoas precisam sentir isso das marcas.

A estética retrô também tem voltado. Eu sempre trago este exemplo, que é o almanaque da Netflix, que traz de volta aquela pegada da Revista Recreio, aquela nostalgia dos anos 80, 90, 2000. A gente tem vivido muito isso no design, essa questão da nostalgia, trazer experiências que a gente teve no passado, retomando isso de uma forma repaginada”, explicou o estudante.



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