A experiência de ser mãe e seus obstáculos: violência e exclusão social

  • Sociedade

O que torna os processos envolvidos no ato de  gestar e parir um filho mais desafiadores do que naturalmente são? No dia 8 de maio, comemoramos o dia das mães, mas o que enquanto sociedade oferecemos a essa parcela da população além da celebração da data?

Por Amanda Alves, estudante do 1º período de Jornalismo no UniBH

A maternidade invisível

De acordo com o Censo 2010, pelo menos 154.101.639 mulheres deram à luz a filhos vivos no Brasil neste ano. Isso reforça a dimensão da parcela da população que passou participar do contexto da maternidade ou pelo menos passou pela experiência do parto. Ainda em 2010, 38,7% dos 57,3 milhões de domicílios registrados no IBGE já eram comandados por mulheres. Em 2018, o percentual subiu para 48,2%. 

A população infantil no Brasil, em 2010, contava, de acordo com o censo, com mais de 28 milhões de indivíduos. Esses dados alertam para a grande parcela da participação materna na formação da sociedade e apontam para o volume da população infantil que compõe o tecido social, assim como para a importância de políticas que apontem para assistência às mulheres e sua prole.

Pode-se diagnosticar que, no contexto social, a maternidade é uma condição trivial e quase invisível, ao mesmo tempo em que é permeada por inúmeros tabus sociais. É como diz Luara Paula V. Baia, professora e pesquisadora na área de gênero e questões raciais.Para ela, a experiência da maternidade parece algo comum aos agrupamentos sociais, mas é vista como algo indiscutível, já que está imersa a uma gama de idealizações e essencializações.

A medicalização do parto e suas consequências  

A maternidade não começa com o parto, de acordo com o artigo Concepções sobre maternidade, parto e amamentação em grupo de gestantes, de pesquisadoras da UFRJ.  O processo da maternidade inicia-se em etapas anteriores à gestação e prolonga-se após o nascimento. Nesse sentido, os cuidados dispensados às gestantes durante o pré-natal são medidas necessárias para se garantir uma prática materna saudável e plena. Assim como a assistência no momento do parto, momento crucial também para se garantir a saúde de mães e recém nascidos. 

Segundo o artigo da revista Psicologia & Sociedade da PUC-RS, a partir do fim do século XIX, ocorre um processo conhecido como medicalização do parto, dentro desta nova concepção: “o parto e o nascimento, que eram vistos como um evento fisiológico e feminino, começam a ser encarados como um evento médico e masculino”. Desde então, além da medicalização e patologização, assistimos a uma mudança de paradigma no atendimento ao parto, que diz respeito ao gênero dos responsáveis por auxiliar ou conduzir estes processos. 

E de que maneira isso pode impactar a gestante? Entende-se que acontece uma mudança no foco de atenção neste decurso. De acordo com o dossiê produzido pelo movimento Parto do Princípio (rede de mulheres usuárias do sistema de saúde brasileiro que luta pela promoção da autonomia das mulheres), atualmente o protagonismo no momento do parto deixou de ser desempenhado pela mãe e pelo nasciturno, se deslocou para os obstetras, encarregados de “facilitar” e acelerar o processo. 

Os procedimentos padrão envolvidos nos partos realizados dentro do ambiente hospitalar são, em grande maioria, decididos pelos médicos. As parturientes têm pouco ou nenhum poder de decisão acerca dos métodos a serem adotados durante o processo, o que acaba gerando inúmeros casos de violência obstétrica. 

“Parirás com dor”

A frase acima é parte do titulo do dossiê elaborado pela Rede Parto do Princípio para a CPMI da Violência Contra as Mulheres. De acordo com pesquisa realizada por uma parceria entre a rede, a Fundação Perseu Abramo e o SESC, cerca de 25% das mulheres entrevistadas relataram algum tipo de violência sofrida durante o parto ou pré-natal.  Apresentado na comissão em 2012, o trabalho aponta para quais tipos de violência a que as parturientes estão expostas na rede pública e particular de saúde. 

Dentre os procedimentos que podem ser considerados como característicos da violência obstétrica estão: 

  • humilhar, xingar, coagir, constranger, ofender a mulher e sua família
  • realizar procedimentos sem esclarecimentos ou desconsiderar a recusa informada
  • utilizar inadequadamente procedimentos para acelerar partos e vagar leitos
  • submeter a mulher a jejum, nudez, raspagem de pelos, lavagem intestinal durante o trabalho de parto
  • não oferecer condições para a amamentação e para o contato do bebê sadio com a mãe.

É certo que nem todas as mulheres têm ferramentas para reconhecer este tipo de violência, o desconhecimento é apenas um dos fatores que possibilita que estas prática persistam e atravessem gerações. Além disso, mesmo quando o reconhecimento da violência acontece, por estarem num momento de vulnerabilidade extrema, as mulheres não conseguem se manifestar contra estes procedimentos. De maneira compreensível, a maioria das gestantes não tem condições físicas ou psicológicas para se impor nesse ambiente de controle predominantemente masculino e institucionalizado, e acabam ficando bastante vulneráveis a este tipo de agressão estrutural. 

Uma personagem essencial no que diz respeito ao combate à violência obstétrica é a doula, profissional que tem a função de ajudar grávidas na gestação, no parto e também após o nascimento do bebê. Conversamos sobre as particularidades e a importância dessa profissional com a atriz, roteirista e ativista pelo movimento feminista negro, Andréa Rodrigues, que já atuou como doula e atualmente presta consultoria na área de assistência à parturiente.

1 – Como você entende que aconteceu a retomada das doulas no evento do parto, por que isso aconteceu e de que forma?

Vem de uma necessidade de segurança. Fora todo o romantismo que se coloca em torno, a doula hoje trabalha como um meio de segurança para quem está parindo. Tomando ciência das violências que ocorrem, o alto índice de cesáreas desnecessárias uma espécie de chave foi virando. Não à toa muitas mulheres se tornam doulas após uma experiência de parto traumática.

2- Como é o trabalho das doulas?

Na teoria trabalhamos como essa figura que dá suporte a quem está parindo. Todo mundo se compadece com as violências que o bebê possa vir a sofrer, mas quem está ali parindo é negligenciado. Ninguém pensa nessa pessoa. Suporte físico, emocional, com informação é o que resume o trabalho da doula. Mas na prática atuamos como mais uma corrente nesse sistema violento, por vezes conseguimos menos dar um parto com X e Y experiência e mais reduzir as violências sofridas.

3- Por que esse trabalho é importante?

Pode ficar repetitivo, mas é isso, hoje a função primordial é proteção. Proteção e amparo a quem está parindo. Eu, como mulher preta, tenho pavor da ideia de quando for parir ir para um hospital. Somos as maiores vítimas de violência obstétrica. Quando doulo às mulheres negras é nítido esse movimento, já tive de esconder objetos de equipe, entrar em frente de médico para evitar violência. Já vi enfermeira precisar falar com a mulher que o médico estava mentindo, para que ela se acalmasse. O amparo ideal seria emocional, proporcionando bem estar e informação adequada a quem dá a luz. Mas vamos além, servimos de testemunha, segurança e tudo mais.

4- Como deve ser a relação da doula com a mãe parturiente? Ela acaba quando nasce o bebê?

É fundamental que se entenda que a doula precisa vir como prioridade, a relação que precisamos criar com essa família, o que não pode acontecer no fim da gestação. Informação não se pega de um dia pro outro. Quanto mais rápido acontecer o contato melhor. Pode ser inclusive para tentantes. Entender a doula como uma aliada e não um acessório é muito importante. E para haver cumplicidade, confiança e segurança num momento tão delicado, essa relação precisa começar o mais cedo possível. O parto é um momento de vulnerabilidade, como você confia esse momento a alguém que você mal conhece?

5- Como o trabalho da doula ajuda a reestruturar a rede de apoio entre mulheres, que foi perdida desde a institucionalização predominante da medicina obstétrica?

Primeiramente eu acredito que com a informação. Não da pra ser doula e não defender a autonomia do corpo da mulher, não da pra ser doula e não ser pró legalização do aborto. Não dá. É desconhecer o papel da doula e ficar preso no misticismo e esquecer que temos mulheres

morrendo, sendo violentadas. Cesáreas desnecessárias acontecendo e trazendo risco, gerando ônus à vida de mulheres e achando que se trata de flores e banheira. Ser doula é uma questão política, é comprar briga num meio dominado por dinheiro e homens brancos. Sem romance, sem misticismo na prática mesmo. Trazer informação segura para a família e para quem vai parir gera uma mudança enorme numa cultura violenta. Isso quebra mitos, traz força. Auxilia a recuperação da autonomia do nosso corpo e isso é poderoso demais

Childfree: crianças não são permitidas

O movimento conhecido como childfree (livre de crianças, em tradução literal) tem origem nos Estados Unidos na década de 80 e era composto por casais que não queriam ter filhos e que desejavam frequentar ambientes livres da presença de crianças e bebês. De acordo com a monografia escrita por Tuany Martins, especialista em direito processual penal, estima-se que há mais de 1 milhão de pessoas seguidoras do movimento e aproximadamente 40 sites com organizações childfree na Internet. Para atender a esse público específico, empresas como companhias aéreas, hotéis, bares e restaurantes passaram a adotar a classificação childfree, proibindo a entrada de crianças ou restringindo a circulação desta faixa etária a espaços específicos dentro dos ambientes. 

A reportagem de Bruna Nardelli de janeiro de 2022, publicada no jornal Metrópolis, indica cinco hotéis no Brasil que trabalham com essa classificação. A chamada do artigo diz o seguinte: “Quer curtir as férias de verão apenas com o maridão ou ao lado de amigos em um ambiente 100% pensado para adultos? Veja opções de hospedagem”. A partir daí pode-se ter a ideia de como a questão da exclusão das crianças de determinados ambientes é por vezes tratada com naturalidade. 

Existe uma proposta dentro do movimento childfree que pega carona na pauta feminista do combate à maternidade compulsória. Ou seja, é direito da mulher escolher entre ter e não ter filhos. O movimento procura estender esse direito a uma proposta que permite também  excluir as crianças de determinados espaços sociais. O grande problema é que a exclusão das crianças está em grande parte intrinsecamente ligada à exclusão das mães que, graças ao machismo estrutural, são em maioria as cuidadoras exclusivas da população infantil.  

A jornalista Daniela Silva, em entrevista concedida ao blog Lunetas, comenta sobre essas duas facetas do movimento: “é inegável que é essencial fortalecer o movimento de desromantizar e desnormatizar a maternidade, que não deve ser imposta a ninguém, mas sem dar um salto para querer viver em um mundo sem crianças”. Pode-se entender que esse tal mundo sem crianças pressupõe também se tratar de um mundo sem mães. 

Especialmente no caso das mães-solo que usualmente não contam com uma rede de apoio social para auxiliar nos cuidados com a criança, como era comum a tempos atrás.Como aponta o artigo publicado na revista brasileira de crescimento e desenvolvimento humano, atualmente, principalmente no meio urbano, as redes de apoio social se encontram diminuídas, deixando a mulher muitas vezes só para cuidar do bebê. Isto certamente, frente ao crescimento do movimento childfree, agrava ainda mais o isolamento das mães e piora sua qualidade de vida e dos filhos que venha a gerar. 

Necessário, portanto, que neste mês das mães seja feita uma reflexão sobre que tipo de tratamento a sociedade deve dispensar a essas mães. Certamente o que elas e seus filhos necessitam é de mais acolhimento, paciência e inclusão. Homenagens só fazem sentido se atreladas ao apoio tão necessário neste período sensível que marca a vida de muitas mulheres. 

Entrevistamos a consultora familiar Debora Coghi, sobre assuntos ligados aos obstáculos enfrentados pelas mulheres no exercício da maternidade, e pegamos algumas dicas sobre a qualidade do sono dos bebês, acompanhe no vídeo abaixo:

 

 



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