A cultura do cancelamento e a sua obscuridade

O perigo da distribuição de ódio gratuito na internet.

Por Isabela Santana – aluna de Jornalismo do UniBH

Imagem: Thayná Valadares.

Quase diariamente nos deparamos com uma pessoa “cancelada” na internet. Essa prática frequente surgiu com os novos formatos de interação online e se tornou um fenômeno atual, que ficou conhecido como “cultura do cancelamento”. Para o Dicionário Macquarie, o mais popular do inglês australiano, esse é o termo que define 2019.

Cancelar significa silenciar alguém, calar uma voz de forma absoluta, muitas vezes como forma de protesto e denúncia a uma posição política, ideológica ou moral. Esse ataque acontece, geralmente, aos artistas, personalidades e influenciadores digitais que estão mais expostos na mídia. Está diretamente ligada à forma como se dão as relações sociais e a algumas lutas e bandeiras ideológicas.

De acordo com uma análise publicada na revista americana New Republic, escrita pelo jornalista Osita Nwanevu, internacionalmente, a ideia de cancelamento surgiu com o movimento #MeToo. Em 2017, quando uma série de denúncias de assédio sexual se espalhou pelo mundo contra homens influentes, o #MeToo fez com que esses agressores fossem cancelados e excluídos em uma ação impulsionada pelas redes sociais online.

Além disso, segundo o autor da análise, as pessoas que fazem essas críticas são jovens progressistas, minorias e mulheres, que encontraram nas redes sociais um lugar à mesa, onde questões de justiça ou de etiqueta estão sendo debatidas e estão fazendo barulho para recuperar o tempo perdido. Osita ainda sugere um entendimento de que os cancelamentos são como expressões públicas e corriqueiras de desagrado, manifestadas por pessoas comuns em novas plataformas.

Porém, o que entra em debate é até que ponto esse cancelamento é, de fato, uma forma de protesto e ativismo, ou passa a ser um linchamento virtual. O que ele diz sobre a pessoa cancelada e o que diz sobre a pessoa que cancela? Quais são os ganhos e perdas?

Enxergo o objetivo do cancelamento como algo necessário para a evolução das pessoas, como uma crítica construtiva, uma reclamação pertinente, porém, acredito que deveria ser uma prática mais saudável, com diálogo, para que as pessoas vejam que estão erradas e repensem suas atitudes, com empatia. O próprio nome “cancelamento” já nos remete a uma prática mais radical.

Essa prática está acontecendo cada vez mais por motivos banais e por erros pontuais de alguém. Mesmo com a pessoa se retratando, ela continua sendo alvo do cancela-mento. A velocidade com que se cancela e “descancela” é assustadora. Mesmo com o “descancelamento”, os danos causados, morais e psicológicos, podem ser irreversíveis. Além disso, a seletividade é um dos seus maiores problemas. Duas pessoas cometem o mesmo erro e, às vezes, apenas uma delas é cancelada. É desproporcional, não é justo. Afinal, quem somos nós para cancelar alguém? Será que não podemos ter a oportunidade de errar e aprender com os nossos erros?

Nas redes sociais, essa cultura tem perdido o seu valor no momento em que passa a ser um linchamento virtual, um boicote ou até mesmo um cyberbullying, ferindo a integridade e saúde mental das pessoas. Isso não é legal e não instiga a uma mudança verdadeira, que deveria ser o intuito dessa cultura, mas sim, leva a uma frustração ou possível depressão.

Facilmente encontramos na internet muitos comentários ofensivos, desrespeitosos e irresponsáveis, ou seja, muitas atitudes já não são mais toleráveis, não são erros pontuais, algumas opiniões não são apenas opiniões, são declarações racistas, homofóbicas, machistas, são crimes. Envolvem lutas e causas fundamentais da sociedade.

Esse é o principal motivo que leva os usuários a acreditarem que o cancelamento deva ser uma prática mais dura, um protesto como, por exemplo, apoiar o fim da parceria de um famoso com uma marca patrocinadora, interromper a sua atividade profissional ou removê-lo da internet. O nosso papel como cidadão diante de uma declaração criminosa é denunciar e encaminhar para a Justiça, para que seja feita a investigação da forma correta. As próprias plataformas digitais disponibilizam essa ferramenta para denúncias.

Saiba como denunciar uma conta ou publicação nas redes:

Em nota, a assessoria de comunicação da Polícia Civil de Minas Gerais afirmou:

“A Polícia Civil de Minas Gerais informa que recebe algumas denúncias via suas redes sociais oficiais, mas sempre orientamos ao usuário a procurar uma delegacia de Polícia Civil ou que faça através do meio oficial que é o Disque Denúncia Unificado (fone:181), para que as Autoridades Policiais tomem conhecimento oficial da denúncia e assim possam tomar as providências legais cabíveis. Reforçamos que as redes sociais da PCMG são para divulgar informações da instituição e que não é possível registrar denúncias ou qualquer outro fato, utilizando as plataformas (Instagram, Facebook, Twitter ou YouTube)”.

Acredito que ainda não encontramos a resposta do que é certo ou errado nessa história. É uma linha tênue, mas precisamos encontrar o equilíbrio entre lutar pelos nossos direitos humanos e democracia, principalmente nesse cenário político conturbado, e linchar virtualmente uma pessoa, que também necessita desses mesmos direitos. Estamos falando de pessoas. Precisamos reavaliar nossas atitudes e o que elas dizem sobre nós, sobre tudo aquilo que publicamos sem pensar, e àquela nossa impulsividade que provoca reações inapropriadas, um cancelamento desnecessário. Não sejamos um distribuidor de ódio gratuito na internet.

Confira o áudio com opiniões de universitários de vários cursos sobre a cultura do cancelamento:



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